Não quero polícia, quero emprego

http://www.anovademocracia.com.br/70/09-b.jpg

Lá vem a polícia! O jovem esguio, canelas finas, faces magra de pouca comida, já se acostumou com toda aquela parafernália de entrada na favela: coletes a prova de balas, armas, tiros para demonstração de força, carro blindado, figuras se esgueirando pelos cantos.

— Eu não quero polícia. Eu quero emprego.

Foi preso. Encontraram papelotes e até uma arma velha. Apareceu no noticiário: traficante preso durante a operação "rabo de peixe" na favela...

Ao entrar na viatura policial olha para o chão entre envergonhado e revoltado  mas tenta, num entreolhar para os lados, perceber as presenças atônitas, indiferentes e amedrontadas dos circunstantes. Ele estava vivo. Não virou presunto. Não foi vítima de tiro dirigido ou eventual bala perdida. Percebeu o velho Januário encostado numa parede. Incrível! Será que ele está chorando? Lágrimas no empedernido e lutador nordestino naquela saída da favela?

Há alguns anos, lá no meio, criaram uma associação de moradores e dela o presidente Januário podia sentir o difícil pulsar de vida da sua comunidade. Via passar as moças de "barriga". Em pouco sabia das crianças que nasciam. Não demorava e elas passavam segurando a mão dos filhos no caminho da escola cheia de dificuldades. Sofria com a pouca existência de espaços para elas brincarem.

Moradores, desassistidos sociais, fixados ali por falta de opção, em geral são criminalizados na maior parte das atividades e reivindicações tentadas. Para reclamar das máquinas que desempregam ou fazer uma manifestação por uma creche a primeira coisa que as "autoridades" fazem é chamar a polícia para dar umas borrachadas nos manifestantes. As irrequietas crianças crescem e correm para entrar no mundo do trabalho,  mas não conseguem nada. Não têm experiência  nem bom estudo...

— Poxa, Sr Januário. Não tem um emprego para mim?

Como autônomo vai para o Exército, o que não garante um emprego, pois só alguns poucos conseguem seguir na carreira.

De repente, se vê na direção de seguir o descaminho, como outras pessoas que passaram pelo problema com o descaso do poder público com o cidadão.

O primeiro contato com o descaminho é o próprio desemprego. O jovem fica ocioso pelas esquinas, frustrado porque  deseja usar um tênis de marca, pois este é o modelo da ditadura do consumismo. A "bolha de plástico" transformada  em item fundamental para a entrada no mundo.

Assim, para existir, ser visível na sociedade, têm que entrar numa vida errada para usufruir das coisas divulgadas, têm que partir para o lado negativo até porque os de lá  são os que têm as mulheres, as roupas, os tênis, um retrato do sucesso divulgado pela "mídia".

Quem marginalizou foi o sistema. Não há emprego na favela. Há jornadas por bola de gude. Por mais que corram aos órgãos governamentais é difícil trazer uma melhoria direta. O papel social das igrejas não influi no geral. Falhou creche, associação, educação, transporte, saúde, saneamento e habitação. Falhou tudo que é social que deveria ter atendimento universal. No vácuo, chega o traficante prestando ajuda, cesta básica, etc. Eles oferecem, muita gente vai lá pedir porque está passando fome. Para procurar um emprego, foi o traficante que deu o dinheiro da passagem.

Os favelados, os moradores dos morros hoje têm uma injusta má fama e ninguém se lembra de que não é o favelado pé de chinelo quem traz ou fabrica mas o figurão de fora com pinta de ser bom. O jovem não consegue ser um cara ideológico com ideias de comunidade, cada vez mais absorvido por fanatismos de futebol. A nossa política cultural é direcionada à juventude com ideias enlatadas (halloween), músicas e danças jogadas para botar os jovens para rebolar e requebrar e não estudar. O canto e a dança na alma do nosso povo, são ótimos,  mas não  como processo de alienação.

O Januário, vendo aquele jovem tão próximo do seu afeto, empurrado para o camburão, jura que viu o seu olhar súplice exclamando: Eu só queria um emprego!

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro

E-mail: [email protected]om
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão (In memoriam)
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin