Golpe de Estado ou palhaçada de Correa

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Já se gastou muita tinta desde 30 de setembro, data em que houve um amotinamento dos policiais equatorianos afim de obter melhoras salariais, quando o presidente do Equador Rafael Correa foi circunstancialmente detido. Depois de solto, este personagem começou um espetacular show midiático sem precedentes, que se prolongou por vários dias.

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Policiais amotinados tomam as ruas de Quito, Equador

Correa começou a promover a ideia de que, na realidade, aquele desbordamento do protesto policial não era outra coisa senão um plano maquiavélico, maquinado inclusive pela CIA, para derrubar seu suposto governo "antiimperialista".

Esta oportunidade caiu como uma luva para Correa, cujo governo vinha se desgastando aceleradamente nos últimos tempos, pois ficaram cada vez mais evidentes as suas intenções de vender pela maior oferta o petróleo equatoriano, impulsionando uma política essencialmente extrativista, assim como apoiava a privatização da água, apesar da férrea oposição dos indígenas equatorianos e apesar de estar aparentemente limitado por um marco constitucional, que falsamente assinalava que o acesso à água era um direto fundamental.

Este tipo de governo baseado no abuso de mentiras, poses revolucionárias e repete até se empanturrar que é um governo de esquerda. Mas diante da contundência dos fatos, cedo ou tarde esta estratégia assentada só no ideológico, sem base real, cairá como um castelo de cartas.

O governo de Rafael Correa recorreu a milhares de variações de malabarismo demagógico para lograr o reimpulsionamento do capitalismo burocrático no Equador. Afinal de contas, ele era o sucessor de um punhado de presidentes descartáveis, também chamados de "fusíveis", que não duraram muito na cadeira presidencial equatoriana, pois, literalmente, foram expulsos a pontapés do Palácio de Governo.

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Policiais nas ruas da capital protestam por melhores salários

Rafael Correa pretendia se disfarçar por traz de uma máscara que o apresentava como um homem de esquerda e revolucionário consumado, um nacionalista, que aparentemente sentia um profundo respeito pelos indígenas equatorianos. No discurso, seu governo se centrava em uma suposta defesa do petróleo equatoriano. Inclusive, para enfatizar as poses nacionalistas e revolucionárias, já havia encenado um grande teatro em torno da aprovação de uma nova Constituição Política do Estado no Equador. Isso como se a luta de classes pudesse ser revogada por decreto lei.

Nesse mesmo 30 de setembro, Correa posava diante das câmeras com olhos chorosos que demonstrava que a máscara antigases, que iria vestir, chegou muito tarde. A aglomeração de policiais, o som das ambulâncias, a agitação dos jornalistas sensacionalistas, foram, sem dúvida, o marco para dar uma aula magistral de historicismo e vitalização, muito bem capitalizada por Correa com um discurso mais lacrimogêneo que os próprios gazes que circundava aquele tenso e viciado ambiente. O loquaz presidente não parou de falar de maneira hipócrita e sentimental que "com gosto entregaria sua vida", por uma suposta "causa revolucionária" (que nessa altura de seu governo só crê quem se beneficia econômica e politicamente dele).

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Não faltaram os "cyber-revolucionários", ideólogos da esquerda-caviar global, que não só viram no amotinamento policial um suposto golpe de Estado, como ainda encontraram "razões fundamentais" de uma participação e maquinação da CIA ianque. Embora a CIA costume de fato ter ingerência em outros países, queremos enfatizar que a retórica oca dos defensores de Correa que tem como objetivo enganar, vender a absurda ideia de que as medidas assumidas alguma vez por Corea  desde que assumiu o governo, são contrárias aos interesses imperialistas. Nada mais falso e afastado da realidade.

De fato, a economia equatoriana, com Rafael Correa, não se moveu nenhum milímetro da de seus antecessores. Seu governo é praticamente  monoexplorador. Em 2008 os indicadores econômicos assinalavam que o petróleo representava o principal componente, 77% do PIB equatoriano. Aparentemente a empresa estatal PetroEquador protege os interesses nacionais, no entanto, o petróleo é exportado como matéria-prima.

Pese ainda que Correa publicou aos quatro ventos uma suposta defesa do meio ambiente. Deve-se assinalar que o aumento da produção petrolífera da PetroEquador, segundo o próprio Ministério da Economia e Finanças equatoriano, melhorou graças a maior exploração dos campos petroleiros do bloco 15, trabalho realizado pela PetroAmazonas, que é uma filial da PetroEquador. Ou seja, graças a um maior extrativismo e extermínio de espécies nas zonas de maior biodiversidade do Equador. Aqui não se trata de assumir poses conservacionistas do ecologismo direitista, mas fundamentalmente evidenciar a falta de coerência entre o discurso e a prática.

Além de todos esses fatores, ao revisar-se os indicadores de emprego equatorianos que mostram, no ano de 2008, uma taxa de subemprego, que não é outra coisa senão o desemprego disfarçado, alcançava uma média que chegava a 45%. Mas esta não é a única pérola deste governo. Sua retórica também não foi suficiente para deter os 26% de desnutrição infantil crônica, a terceira na América Latina, em um país cujo governo, longe de conjurar a pobreza, a incrementou em 3,3%, segundo os mesmos de 2008.

Por outro lado, as políticas sociais de Correa, como a de seu homólogo boliviano Morales, não foram ações contundentes de planos de moradia, saúde, educação e emprego. Estão baseados apenas em bônus assistenciais, que são vendidos como a solução da pobreza no Equador, juntamente com a política demagógica do chamado "Bem Viver" ou "Suma Kaussay", mito absurdo que fala de uma política baseada em uma suposta forma de organizar-se dos antigos equatorianos, que, como se viu, não causa nenhum ápice na melhora da qualidade de vida do povo pois nem sequer está baseada em políticas sociais consistentes. Ainda assim o governo de Correa se empavona abanando-se com os bilhetes de um superavit fiscal que não expressa outra coisa senão a clara mensagem aos equatorianos desempregados e com desnutrição crônica de que este governo tem como política cobrar tributos e rendas que não serão devolvidas como inversões públicas à golpeada população equatoriana.

Essas políticas foram combatidas tenazmente por operários e camponeses, indígenas que não aguentam mais os absurdos e imposturas discursivas de Rafael Correa. O movimento popular e a consciência de luta do povo equatoriano experimentaram um considerável avanço e desmascaramento da demagogia e poses antiimperialistas de Correa.

Como pode se ver, a novela do suposto golpe de Estado não cumpre outro papel senão  beneficiar o próprio Correa. São o histrionismo e a pose autovitimizadora o que pomos em evidência desde esta tribuna.

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