Vargas Llosa e o Nobel: eles se merecem

Todos os anos o monopólio da imprensa capitalista festeja os resultados do prêmio Nobel, cacarejado como uma láurea "respeitável", "imparcial", etc, etc, etc. Mas os povos explorados do mundo sabem a verdade: o Nobel é uma premiação anual que os reacionários europeus distribuem à figuras que rezam pela sua bíblia, direta ou indiretamente.

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Dependendo da conjuntura do momento, isto é, dos interesses que regem as relações do imperialismo da Europa com os imperialistas do USA e de outras áreas do mundo, os prêmios da Paz e de Literatura, que possuem o mais nítido viés político-ideológico do Nobel, podem variar de graduação reacionária, digamos. Nuns anos é mais, em outros é menos.

Assim, fatores específicos já levaram Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Gabriel Garcia Márquez, figuras pouco apreciadas pelo imperialismo ianque, a ganharem a medalha europeia.

Desta vez, conforme anúncio feito na primeira semana de outubro, o vencedor na literatura foi um personagem que agrada a gregos e troianos no universo dos podres poderes do capital: Mario Vargas Llosa.

E o laureado na categoria paz foi o chinês Liu Xiaobo. O sucessor de Barack Obama ao mesmo prêmio, tido como "dissidente" pelo Estado chinês, participou da ala direita dos protestos que resultaram no chamado "massacre da Praça da Paz Celestial" em 1989.

Voltando a Vargas Llosa.

Ele e o Nobel se merecem. Quem não merece é o nobre povo do país onde o misto de escritor e militante fascista nasceu. O Peru.

Um povo que ele começou a trair depois da fase estudantil, quando deixou de frequentar um certo ambiente "de esquerda" e foi tratando, aos poucos, de assumir sua verdadeira face de burguês e de direitista.

Uma traição que saiu do âmbito do pensamento para a concretude de um ato criminoso, ao tornar-se cúmplice da impunidade de militares assassinos de um grupo de jornalistas, em 1983, no vilarejo peruano de Uchuraccay.

A versão do Exército foi de que os camponeses do vilarejo é quem tinham matado os jornalistas, pois pensaram que estes eram guerrilheiros maoístas do Partido Comunista do Peru (PCP). Ninguém acreditou. Porque as provas contra os militares eram muitas.

No entanto, dirigindo um grupo investigador escolhido pelo governo (que levou seu próprio nome, Comissão Vargas Llosa), o incensado escritor atraiçoou a verdade e a justiça, livrando a cara dos genocidas. Além do Nobel, merecia também um Iscariotes de Lata.


Vargas Llosa, o brilhante

Trechos do artigo de Nicolás Cabral (*)

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Em algumas pessoas, a menção de seu nome produz espasmos. Um "espírito incômodo".

Mas incômodo para quem?

Não para seu admirado amigo José María Aznar, que lhe deu emprego em sua organização neofalangista, a FAES. Nem para o El País de Madri, um dos jornais mais mentirosos da língua espanhola, que o tem como colunista estrela.

Tampouco incômodo para os encontros que a Internacional Reacionária organiza – reunião periódica de egressos da Escola das Américas, agentes da CIA, ex-presidentes neoliberais e "intelectuais" como esse de quem tratamos –, onde sempre se ouve a mesma cantilena: Democracia, Liberdade, porém, sobretudo, Livre Mercado.

A Mario Vargas Llosa, que há algumas décadas escreveu duas ou três novelas boas, sucedeu algo estranho em certo momento de sua vida: pretendeu pensar.

A afirmação é refutada cada vez que Vargas Llosa se aproxima do teclado para opinar. Como se sabe, a produção de ideias não é potestade universal. Por desgraça, no caso do peruano transformado em espanhol, nem sequer as noções alheias servem para pensar: a sua é a arte da repetição servil.

Já Juan José Saer listou, quando Vargas Llosa – em uma de suas abundantes páginas negras – se opôs à condenação dos militares genocidas da última ditadura argentina, os componentes da sua prosa jornalística: "A miscelânea, a informação truncada, a ausência de princípio e a pura mitomania".

Deixemos de lado suas colunas de opinião política: nesse campo sempre foi um lamentável amateur, um servidor pontual do Consenso de Washington. Vamos nos deter em suas intervenções culturais, um território que ele, supostamente, entende.

Vargas Llosa se preocupa, ultimamente, com aquilo que percebe como decadência ou banalização da cultura. Em duas conferências recentes – A civilização do espetáculo e Breve discurso sobre a cultura – pretendeu botar ordem no galinheiro.

Finalmente o escritor, que tantas convulsas transformações ideológicas já andou experimentando, se deixa ver como aquilo que é: um conservador, um defensor da cultura burguesa.

Pensemos, a propósito, em sua apaixonada defesa da invasão do Iraque.

A estatura intelectual de Vargas Llosa pode ser medida em função de um de seus temas: o espetáculo. Não se trata de comparar um artigo seu com o célebre livro de Guy Debord, A sociedade do espetáculo (não há condições intelectuais nem morais para fazê-lo), mas sim de contrastar os procedimentos: onde o francês desvela o mecanismo pelo qual o capitalismo torna instrumento de lucro o tempo de ócio do trabalhador, através do entretenimento, Vargas Llosa encontra um efeito dos ataques à autoridade que fizeram parte do movimento de Maio de 1968: a pulverização da sua amada cultura burguesa.

Com que autoridade fala de banalização da cultura um defensor radical da economia de mercado, que converte em mercadoria absolutamente tudo, incluindo os livros e a figura do escritor?

A enganação da imprensa que privilegia a opinião sobre o pensamento tem engrandecido figuras como Vargas Llosa (e ainda figurinhas como seu filho Álvaro, esse Vargas Llosa reloaded, que dedica sua vida a convencer a quem o permite, de que todo progressista é um idiota, talvez aterrorizado pela imagem que o espelho lhe devolve).

O pai, articulista peso mosca, aquele que agora lamenta a decadência da cultura ocidental é a encarnação do mais flagrante cinismo. Pois, enquanto escriba das piores causas, sua prosa escolar colabora secretamente com o fenômeno que denuncia no púlpito.

(*) Escritor e crítico literário mexicano. Artigo publicado no sítio www.rebelion.org

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