Regime militar torturou e matou PMs revolucionários

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Apesar de todos os discursos pseudo-democráticos que arquitetaram a subida de Ernesto Geisel à gerência do velho Estado – reflexo da crise do regime militar – na essência tudo continuou como antes: a repressão encarniçada aos lutadores do povo e a todos aqueles que se opunham ao  regime. Foi justamente neste contexto que ocorreu um fato que passou despercebido para a grande maioria do povo brasileiro no ano de 1975: prisões em massa, tortura e morte de integrantes da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

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No último mês de julho, AND recebeu em sua sucursal de São Paulo três personagens de um acontecimento praticamente desconhecido pelo povo brasileiro, mas que teve grande importância histórica devido à coragem e heroísmo dos seus protagonistas. Estamos falando da repressão desencadeada sobre os efetivos da Polícia Militar de São Paulo, que culminou com a prisão, tortura e assassinato contra grupos de militares que pertenciam às células do Partido Comunista Brasileiro – PCB, e outras organizações revolucionárias.

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Francisco Jesus da Paz, Waldemar Martinz Lisboa e Álvaro Torres Galindo, hoje anistiados e reincorporados aos quadros da PM na condição de aposentados, concederam entrevista ao AND resgatando os momentos de terror vivenciados por todos que caíram nas garras do regime militar fascista. 

Fato que chama atenção é o deles pertencerem justamente à corporação que executava grande parte da repressão sob o comando das Forças Armadas, diretamente coordenadas pelos ianques. Junto com esta revelação, vem outra também marcante: um trabalho de construção da luta revolucionária  e de resistência ao regime militar no interior dos quartéis.

Abertura política?

No ano de 1974, Ernesto Geisel assume a gerência do regime militar que mergulhava em aguda crise, principiada pela bancarrota do chamado "milagre econômico". Por trás da candidatura Geisel, havia uma ala de militares que predicava uma abertura do regime visando conter o avanço de uma situação revolucionária no país.

As promessas de abertura política, investigação de denúncias de tortura, maior participação no Estado de setores da burguesia considerados "excluídos", tudo isso permeou a chamada "distensão" política.

 Mas antes mesmo de completar seu primeiro ano a gerência Geisel sofre uma derrota eleitoral para o "oposicionista" Movimento Democrático Brasileiro – MDB nas eleições para a Câmara e o Senado. Em novembro de 1974 o MDB conseguiu 16 dos 22 senadores e 160 das 364 cadeiras na Câmara. A resposta eleitoral foi apenas um aspecto da revolta popular que já ocupava as ruas. A reação veio de imediato e foi levada a cabo pelos que ficaram conhecidos como os "linha dura" do regime, mostrando na prática que o período Geisel foi semelhante aos seus antecessores, caracterizado pelo mais covarde desrespeito a vida humana e sua submissão ao imperialismo ianque.

Empastelamento do Voz Operária

No dia 13 de janeiro de 1975 o Centro de Inteligência do Exército – CIE empastelou* a gráfica do jornal Voz Operária, dirigido pelo PCB, que funcionava clandestinamente num sítio no Rio de Janeiro. No dia seguinte à invasão, Élson Costa, um dos responsáveis pela gráfica e dirigente do PCB, desapareceu e, posteriormente, segundo relatos de seus companheiros e investigações de estudiosos do regime militar-fascista, foi morto numa casa mantida pelo CIE na periferia de São Paulo.

Após o empastelamento da gráfica do Voz Operária transcorrerá uma onda de prisões de militantes do PCB.

– Entre janeiro e julho de 1975, 500 membros do partido foram identificados, 200 foram presos e 14 morreram assassinados – salienta Waldemar.

Caça aos policiais comunistas

– O PCB começa já a influenciar parte dos militares em 1929, através das células do partido nos quartéis. Em 1962 essa organização já se estendia em praticamente todas as guarnições policiais de São Paulo – explica Francisco Jesus da Paz.

Depois do golpe de 1964 a repressão atingiu também os quartéis com inúmeras prisões e torturas de vários companheiro. Grande parte dos militares progressistas foram destinados ao cárcere covardemente – conta Waldemar.

Em nome dos que lutaram

Em julho de 1975 inicia a caça aos policiais comunistas.

– Era 03 de julho e eu trabalhava à noite no banco Itaú quando, de repente, invadiram o banco e me sequestraram em plena atividade. Me levaram direto para o DOI-CODI. Naquela época ocorreram prisões em massa. Os companheiros presos foram barbaramente torturados, alguns sofrem sequelas até hoje, eles queriam saber a qual organização pertencíamos e nomes de outros companheiros – relata Francisco, acrescentando – Eu fiquei 45 dias preso, sendo que os 15 primeiros fui torturado diariamente com choque elétrico, cadeira do dragão. Outros foram submetidos a afogamento e outros tipos de tortura. Coisa horrível, inesquecível. Outro fato terrível foi quando dois companheiros me entregaram como defensor da luta armada; foi feita uma acareação e eles mantiveram a denúncia, porém eu fui muito firme e, finalmente, eles recuaram devido a minha firmeza.

– As prisões começaram a pipocar por todo lado, mais de cem companheiros policiais foram presos e mais de 40 foram expulsos da corporação, só amenizando um  pouco a situação depois da morte do Vladimir Herzog, quando  aumentaram as pressões contra o regime. Várias mortes de policiais militantes ocorreram durante as torturas na sede do DOI-CODI e boa parte dos torturados sofrem até hoje as consequências da barbárie. Me lembro de dois companheiros que foram severamente torturados sem piedade, o tenente José de Almeida e o coronel Maximiniano, torturados e maltratados da forma mais cruel que alguém possa imaginar dentro da sede do DOI-CODI – declara Waldemar.

– O tenente morreu nas dependências e depois entregaram o corpo à família. O coronel, após ser brutalmente torturado, foi solto em estado muito precário de saúde, sem nenhum socorro médico. Bastante desnorteado pegou um táxi e dirigiu-se à casa de um filho em Campinas e faleceu ao chegar à porta da casa – denuncia Francisco.

Depois de trinta e cinco anos, o sangue daqueles que tombaram lutando bravamente contra este sistema de opressão ainda clama por justiça, que certamente não virá pelas mãos desses que fazem parte e compactuam com o Estado, representando os mesmos interesses criminosos e reacionários defendidos pelos sádicos da gerência militar. A verdadeira justiça virá pelas mãos do povo, que, cansados de tanta opressão, ajustará as contas com seus torturadores – conclui decidido Álvaro Torres Galindo.

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* Empastelar:
invadir uma gráfica ou redação de jornal para inutilizar o trabalho em curso ou danificar equipamentos e materiais. Causar danos físicos ou materiais; estragar. (Dicionário Houaiss)

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