Samba antigo na roda da Ouvidor

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Ha três anos um grupo de amigos toca e canta sambas antigos, desconhecidos pela maioria dos brasileiros, no meio da rua, no centro do Rio de Janeiro, numa roda conhecida como Samba da Ouvidor. Minuciosamente cuidadosos quanto ao repertório, dizem ter o intuito de agradar somente ao próprio samba, e dar as suas contribuições para que o gênero permaneça vivo e alcance mais adeptos. 

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— A roda acontece aos sábados, de quinze em quinze dias, na Rua da Ouvidor, esquina com Rua do Mercado, no centro do Rio. Quando chove não fazemos ou arrumamos um jeito lá na hora. Nosso objetivo é divulgar sambas desconhecidos ou esquecidos. Os sambas de terreiro, que eram cantados no próprio terreiro das escolas de samba, e que não são assim tão conhecidos — dizGabriel Cavalcante, um dos organizadores e componentes da roda.

Além de Gabriel, no cavaquinho, a roda é formada por Julião e Iuri, nos violões; Fábio, no surdo; Velha e Lelê, nos tamborins; Marcello Professor, no Agogô; Ricardo Brigante, no reco-reco de madeira, Paulinho Bicolor, na cuíca; Thadeuzinho no repique de anel; Bidu, nas miudezas; Raphael, no pandeiro; e Gabriel Menezes, também no cavaquinho.

— É uma roda fixa. Entre outras, cantamos músicas de Candeia, Manacéia, Cartola, Noel Rosa, Mestre Fuleiro. Por ser na rua, de graça, a roda é frequentada por um público muito diversificado. É gente de toda parte da cidade, e profissões diversas: estudantes, médicos, advogados, garis, engenheiros, garçons, enfim, todo tipo de gente, todos apreciadores do samba — conta Gabriel.

 — Temos uma percussão bem leve, fora do comum das que se tem hoje. A parte harmônica é formada de dois cavaquinhos, como era antigamente, e dois violões, um de 6 e um de 7 cordas. O Julião e o Iuri são dois chorões lá da Escola Portátil de Choro, mas agora estão caindo para esse lado do samba também — Brinca Gabriel, acrescentando que Bidu, Thadeuzinho e Gabriel Menezes também são da Escola Portátil.

— Mas, apesar das afinidades, na roda não se mistura as coisas. Na verdade, todo mundo tem o seu trabalho fora daqui, e alguns integrantes mesmo tendo trabalho autoral, não o apresentam. A roda tem esse caráter sério, que queremos seguir a risca, senão vira bagunça. Também não abrir para canja, para não tirar o foco da roda — comenta. 

Gabriel deixa claro que quem passar pode ir chegando. A contribuição é somente "respeitar o ambiente do samba e os compositores que cantamos".

— É uma roda para o samba. Não queremos agradar ninguém em especial, somente ao samba. A ideia não é fazer uma farra ou uma festa qualquer. Cremos que realizando esse encontro das pessoas com o samba, estamos contribuindo com o gênero, ajudando-o a sobreviver. Cantamos ali o que não é comum de se encontrar em outros lugares da cidade — explica.

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Manifestação do povo

— Para nós, o samba é manifestação. Como dizia Candeia 'samba é verdade do povo'. A arte é livre e aberta. E isso tem se perdido nesses últimos tempos, porque os donos das casas de espetáculos ou bares impõem o repertório, a instrumentação, número de componentes, e os artistas não ficam livres para fazer o que querem. Mas isso não acontece aqui na nossa roda — afirma.

— Fizemos um grande esforço para reunir o que temos de repertório até agora. Fomos à casa dos compositores, enfim, corremos atrás mesmo, para levar tudo de melhor para o povo. A roda tem a sua cadência toda especial. E estamos tendo a alegria de ver que as pessoas entenderam isso, respeitam a roda e querem conhecer o que temos para oferecer, que é exatamente um pouco do que o samba tem para oferecer, já que somos apenas instrumentos — continua.

Dentro dessa linha a roda já recebeu a visita do grupo paulista Terreiro Grande.

— A rapaziada do Terreiro tem um certo intercâmbio conosco. A participação deles na roda foi muito bacana, e a rua lotou de uma maneira que nem estávamos preparados. Como não temos dinheiro, então fazemos aquele trabalho de formiguinha, contando com a ajuda de cada um para poder fazer um evento assim — comenta.

Fora da Roda da Ouvidor, Gabriel Cavalcante acabou de gravar o seu primeiro disco, O que vai ficar pelo salão. O lançamento foi no dia 09 de dezembro, no Teatro Rival, no centro do Rio.

 — O trabalho não tem nada a ver com a roda. É até meio engraçado falar disso, porque sempre fui uma pessoa que cantou samba antigo, e agora estou lançando um disco de músicas novas. Mas, o fato é que o samba tem muitas faces e todas são maravilhosas para mim, ficando difícil não explorar um pouco de tudo — diz.

— O disco é um trabalho em parceria com três grandes amigos: o violonista Patrick Ângelo, daqui do Rio, aquele que eu costumo dizer que 'o dia que derem atenção a ele, fatalmente será uma grande revelação da música brasileira'; E os paulistas Roberto Didio, um letrista excelente, e Renato Martins, melodista fantástico. No acompanhamento e concepção: Marcus Thadeu, Magno Souza e Ana Rabello, todos maravilhosos — elogia Gabriel.

— Ele tem 14 faixas, sendo 10 sambas. Também tem choro. É uma poesia forte, melodia marcante, e muita seriedade. Tudo bem coletivo e isso aparece nos arranjos, batuques e letras, com todos muito envolvidos. Expressa a vivência de cada um, um pouco do que somos. Temos participações especiais de: Amélia Rabello, Cristina Buarque, Áurea Martins, Anabela e Moacyr Luz, que é meu fiel companheiro nessa caminhada — finaliza Gabriel.

Além de tocar e cantar no Samba da Ouvidor e no disco, Gabriel Cavalcante, de 24 anos de idade, também participa do Samba do Trabalhador, no Rio, ao lado de Moacyr Luz.

Para mais informações sobre o Samba do Ouvidor:

http://sambadaouvidor.blogspot.com/

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