Japão: Tragédia do povo, oportunidade dos ricos

A- A A+
76/20-japao.jpg
Terra arrasada: Japão, convulsionado por terremoto sofre outra tragédia atômica
76/20-japao2.jpg

No último dia 11 de março um dos piores terremotos de toda a história sacudiu violentamente o Japão e ocasionou uma onda gigante que devastou parte do território nipônico, matando mais de 10 mil pessoas e causando grande destruição de casas, fábricas, lavouras e mercadorias.  Quando o mar recuou, deixou um prejuízo de cifras astronômicas.

Pelas contas do banco europeu Credit Suisse, as perdas econômicas no Japão por causa das catástrofes que se abateram sobre o país serão da ordem de 14 trilhões a 15 trilhões de ienes, o equivalente a algo entre US$ 171 bilhões a US$ 183 bilhões. Ainda segundo o Credit Suisse, esse montante torna a tragédia japonesa o desastre natural mais caro de todos os tempos.

Por outro lado, a economia do Japão, fortemente alicerçada na exportação de mercadorias, estava estagnada antes do terremoto e do maremoto por conta da crise geral do capitalismo. Agora, com a destruição de grande parte das forças produtivas do país, a economia nipônica pode voltar a fazer suas roldanas girarem, mas não de forma sustentável, tendo em vista que a crise japonesa pregressa é estrutural, inserida na crise geral de superprodução.

A disputa pelas oportunidades para multiplicar capital no esteio do terremoto já assanha os financistas e a burguesia ao redor do mundo. Antes mesmo de se removerem os escombros e se apagar o fogo do reator da usina nuclear, "técnicos" do USA já alardeavam que o governo japonês estaria minimizando as proporções do desastre, dando mostra de suas pretensões de interferir diretamente no assunto.

Os imperialistas não se fizeram de rogados em fazer projeções sobre boas oportunidades de lucros com a tragédia no Japão antes mesmo dos últimos balanços sobre o número de mortos. No USA, o mega-especulador Warren Buffet mal conteve a euforia com o ganhos que o sobe e desce das bolsas de valores de todo o mundo por causa das catástrofes no Japão poderia lhe proporcionar. Como um bando de abutres dando rasantes sobre a carniça, inúmeras transnacionais ora em dificuldades por causa da crise geral dos monopólios aguardam salivando a radiação se dissipar e o período de ajuda humanitária passar para concorrerem pelas concessões da "reconstrução" do Japão.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

De Hiroshima a Fukushima

Enquanto os grandes capitalistas ora em agonia com a crise geral se acotovelam em busca da bolha de ar que o terremoto e o maremoto no Japão lhe proporcionaram, a população japonesa mais uma vez padece ante a agonia radioativa.

Curiosamente, quem mais pediu cuidados e atenção com a usina danificada de Fukushima foi o USA, justamente quem já atirou não uma, mas duas bombas atômicas sobre o povo japonês, matando 90 mil pessoas queimadas ou envenenadas em 1945 e outras 10 mil nos anos subsequentes por causas relacionadas à radiação.

O USA tem interesse no atual alarde, porque tem interesse em intervir mais diretamente no Japão, onde já tem várias bases militares, tendo em vista que a região onde fica o arquipélago japonês é um dos possíveis palcos de um grande conflito imperialista que a cada dia se avizinha com maior nitidez.

Mas os bombardeamentos covardes das cidades de Hiroshima e Nagasaki não foram os fatos que os chefes das potências e o monopólio internacional da imprensa trouxeram à memória quando começaram a surgir sinais de que a situação na usina nuclear de Fukushima era grave na sequencia do terremoto e do maremoto do último dia 11 de março.

Eles, do monopólio das comunicações e a "comunidade internacional", preferiram martelar no acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, ressaltando a suposta "negligência" e a "incompetência" da União Soviética para manter e gerir uma usina nuclear e para tomar providências quando o vazamento radioativo aconteceu, sem mencionar que, quando do acidente em Chernobyl, a URSS já estava há décadas sob a restauração do capitalismo.

Carestia e sofrimento

O tiro, no entanto, saiu pela culatra. O contraponto que as potências capitalistas sempre fizeram questão de ressaltar entre Chernobyl e suas próprias instalações nucleares, auto-proclamadas absolutamente seguras, perdeu força com o próprio agravamento da situação no Japão e quando os chefes de potências como Reino Unido e Alemanha não foram capazes de reafirmar o "risco zero" das suas usinas atômicas.

Quando o comissário europeu de Energia, o alemão Günther Oettinger, falou em "apocalipse" no Parlamento Europeu para se referir à situação na usina nuclear de Fukushima, o índice Nikkei da bolsa de valores de Tóquio despencou 17,5%, em um tombo maior do que a do índice Dow Jones, da bolsa de Nova Iorque, na sequencia dos acontecimentos do dia 11 de setembro de 2001.

As bolsas do USA e da Europa também vieram abaixo quando autoridades alemães e ianques anunciaram a suspensão temporária dos planos de expansão dos seus parques nucleares. O motivo do desespero foi o fato de que em alguns países as usinas atômicas respondem por parcelas significativas das suas respetivas matrizes energéticas, chegando a 75% na França.

A insegurança se agravou quando o WikiLeaks divulgou documentos mostrando que o Japão esconde informações sobre problemas de segurança em seu programa nuclear. Enquanto isso, o número de pessoas contaminadas no Japão só faz crescer, e aumentam os sinais de que a radiação já compromete a água e os alimentos no país, em um cenário que aponta para mais um grande período de carestia, doenças e sofrimento de toda ordem para o povo japonês.


Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Fausto Arruda

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Matheus Magioli Cossa
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ana Lúcia Nunes
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira

Ilustração
Taís Souza