Teatro gritando nas ruas

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Trupe paraibana que acredita não poder ficar com o grito preso na garganta, o Quem tem boca é pra gritar pesquisa a estética da rua na encenação e mistura a sonoridade e a batida dos folguedos populares aos estilos teatrais da commédia dell'arte e do expressionismo alemão. Adaptando Brecht ou autores brasileiros, o grupo busca uma  reflexão do público através de suas cenas, na maioria das vezes cômicas, sem tornarem-se ditadoras de comportamento.

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Quem tem boca... transmite a energia que parte dos folguedos populares

— Surgimos a partir de um curso de teatro realizado em uma escola de ensino médio de Campina Grande, do qual já era ex-aluno. Na época, participava do GTE — Grupo de Teatro Experimental — e com essa base fui ministrar as aulas. No final do curso notei um grande entusiasmo do pessoal em querer fazer teatro, e por conta disso nasceu o Quem tem boca é pra gritar, que está completando 24 anos de existência — conta Humberto Lopes, um dos fundadores do grupo.

— Escolhemos esse nome porque tínhamos uma rebeldia, que ainda existe, e muita coisa para dizer. E essa coisa não iria ficar presa na garganta. Nenhum tipo de poder exercido de opressão iria calar a nossa voz. A ideia do nome é exatamente sugerir que mesmo em uma situação de opressão nós não vamos nos calar: temos boca e vamos gritar — explica.

— Desde o princípio procuramos fazer um teatro que não tivesse como importância maior o espetáculo, e sim a pesquisa, com a intenção de compreender as possibilidades de cena, o que poderia ser encenado. Sempre procurando trabalhos que nos desafiem a pesquisar. E optamos pelo teatro de rua por acreditarmos que só o fato de fazê-lo já é um grande desafio, e partimos para tentar compreender a estética da rua. Contudo, já fizemos alguns espetáculos de palco — expõe.

O grupo deu seus primeiros passos, segundo Humberto, em um período de muita dificuldade de acesso a dados necessários para realizar suas pesquisas.

— Além de sermos do Nordeste do país, longe dos grandes centros, não existia a internet, que hoje nos proporciona um acesso rápido a informações diversas. O que tínhamos eram informações raras e soltas. Mas como um militante de esquerda, atuando muito na época, viajava para militar e aproveitava para tentar ver espetáculos de rua. Alguns grupos e espetáculos nos marcaram profundamente e assim fomos desenvolvendo nossos trabalhos — lembra.

— Nosso primeiro espetáculo foi um texto do Bráulio Tavares, um grande amigo. Fomos muito bem aceitos, rodando com ele por várias localidades. O texto tinha uma característica mais regional, a partir daí já montamos desde autos extremamente populares até expressionismo alemão, misturando tudo e dando certo. Entre outras coisas, participei de um evento no Rio de Janeiro, por ocasião das comemorações dos 100 anos de nascimento de Bertolt Brecht, contando como o Quem tem boca... montou Brecht na rua — fala.

— Há uns anos começamos a pesquisar e trabalhar, através de uma série de exercícios, a energia que parte de folguedos populares, entre outros: o cavalo marinho, o coco, o maracatu. Mas não reproduzimos a dança e nem o folguedo, somente nos utilizamos da sua sonoridade e da sua batida para construir um enraizamento, para que o ator consiga construir uma energia que seja utilizada em qualquer tipo de espetáculo. Tanto que quem assiste sente que existe uma energia muito forte dos folguedos, mas não sabe de onde ela vem — explica.

Segundo Humberto, o grupo gosta também de focar a figura do anti-herói nordestino, e provocar uma reflexão através disso.

— São aqueles que não têm poder, e através da sua astúcia conseguem 'passar a perna' na tirania dos poderosos. Sempre montamos espetáculos fazendo essa reflexão, mas preocupados em não transformar isso em um panfleto, dar lição ou dizer como as pessoas vão resolver alguns problemas. Não queremos levantar bandeiras e sim reflexões a respeito da relação do poder, que acontecem através das cenas, a maioria das vezes de forma cômica — declara.

— Dessa forma montamos, entre outros, textos como A árvore dos Mamulengos, de Vital Santos; Quem estiver achando ruim saia, de Altimar Pimentel e Canção, Malazarte e Trupizupe, de Bráulio Tavares, no espetáculo atual — conta, acrescentando que o grupo trabalha sempre com adaptações.

A trupe, que faz parte da rede brasileira de teatro de rua, se apresenta normalmente em festivais, encontros de grupos e em eventos que são convidados.

— Nosso movimento é bem intenso, e lutamos para nos unir cada vez mais, ganhando força. Estivemos recentemente em um encontro para reflexão do teatro de rua do Nordeste, em Mossoró, e estamos nos organizando para fazer a primeira 'tomada de João Pessoa pelo teatro de rua'. É um projeto que visa realizar vários espetáculos de rua, em pontos estratégicos da cidade, todos acontecendo na mesma hora, tomando a cidade — conta.

São oito atores que além de representar, tocam e cantam. A equipe também conta com um produtor e um técnico.

— Temos violão, zabumba, acordeon e triângulo, e sempre convidamos um compositor diferente para fazer as músicas do espetáculo a ser encenado. Há 12 anos conseguimos comprar uma ruína, tombada, no Centro Histórico daqui de João Pessoa e transformamos na nossa sede. O prédio só tinha a fachada e foi necessário muito esforço para construir, um trabalho de formiguinha: levantávamos uma parede, depois de um tempo erguíamos a outra e assim foi até que há 4 anos terminamos o serviço e ocupamos — comenta.

— Entre muitas outras atividades, no local desenvolvemos o que chamamos de Universidade Livre de Teatro. Um curso de formação de atores, fora dos moldes acadêmicos e dentro do que consideramos que é a necessidade do ator. O curso é pago para que possamos garantir a nossa sobrevivência, que se dá também através dos editais que ganhamos. Mas nossos espetáculos são totalmente gratuitos para o povo — finaliza Humberto Lopes.


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