Cenas da vida retirante

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Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, melhor retrato do sertão nordestino de nosso cinema, completa 40 anos

Rio de Janeiro, março de 1938. Depois de passar 10 meses nas prisões do Estado Novo, sem nunca ter sido acusado formalmente, o escritor alagoano Graciliano Ramos lança, numa edição modesta da Ed. José Olímpio, o livro Vidas secas, um dos mais populares romances da literatura brasileira do século XX. Rio de Janeiro, agosto de 1963. Pouco mais de 25 anos depois do lançamento do livro, surge, com uma distribuição também pequena e irregular, um dos mais importantes filmes nacionais, Vidas secas, de Nélson Pereira dos Santos. Primeiro longa-metragem a mostrar ao restante do país, sem retoques ou quaisquer mistificações, a miséria e a fome dos camponeses nordestinos — causados pela ganância latifundiária e pelo problema das constantes secas que assolam a região. Fruto do trabalho genial do cineasta paulistano — à época ainda um jovem diretor que já havia produzido clássicos como Rio, 40º, de 1955 e Rio, zona Norte", de 1958 — que recriou magistralmente a imortal obra de Graciliano Ramos para o cinema, Vidas secas ganhou prêmios no país e no exterior, contribuindo decisivamente para a busca de uma linguagem própria de nosso cinema.

Filmado nos entre 1962 e 63, na cidade de Palmeira dos Índios-AL, com poucos recursos, locações simples e atores não profissionais, com exceção de Átila Iório, o Fabiano, Vidas secas foi um dos filmes que lançaram o Cinema Novo — juntamente com Os fuzis, de Ruy Guerra e Deus e o diabo na terra do sol, de Gláuber Rocha —, o mais importante movimento cinematográfico nacional, cuja característica principal era justamente a abordagem de temas ligados aos problemas sociais brasileiros, filmados num estilo despojado. Em entrevista exclusiva à AND, realizada no Rio de Janeiro, em 27/3, Nelson Pereira dos Santos revela detalhes da produção de Vidas secas, as dificuldades de sua exibição satisfatória no Brasil e a relação do filme com a luta pela terra desenvolvida no país na década de 60, especialmente no Nordeste.

Nordeste sem véus

A preocupação em produzir obras de temática social é uma das marcas da cinematografia de Nelson Pereira dos Santos. Desde seu primeiro filme, Juventude, um documentário de 1950 sobre jovens trabalhadores de São Paulo, Nelson se colocou ao lado dos pobres, mostrando suas lutas e sofrimentos. Sob essa perspectiva surgiu o desejo de filmar o Nordeste, uma das regiões do país nesse tempo ainda inexplorada pelo cinema nacional. "Eu ainda estava finalizando um filme no Rio, o Boca de Ouro, quando tive a idéia de fazer um filme no Nordeste, mas as dificuldades para isso eram muitas, passando pela captação dos recursos, a elaboração do roteiro, etc. Nem bem acabamos um filme, fomos para a Bahia e Pernambuco. Lá realizamos algumas filmagens, escrevi um roteiro, mas o que eu queria mesmo não surgia. Assim, resolvemos fazer o Mandacaru Vermelho, meio por acaso, uma história de amor diferente do que foi pensado inicialmente", diz Nelson. O cineasta andava a procura de algo que mostrasse a realidade do Nordeste sem véus ou efeitos, mas que não fosse um documentário. Ele conta: "Tentei essrever algo, procurei muita coisa e acabei achando na literatura um roteiro já pronto: Vidas secas, do Graciliano, era um livro que eu gostava muito, e que tinha a estrutura do cinema, ágil e poética."

Encontrado o roteiro, Nelson se voltou para a produção do filme, batalhando por encontrar atores com o perfil do trabalho e cenários adequados. Como local, havia pensado na Bahia, em Juazeiro, onde passara seis meses entre as filmagens de Mandacaru vermelho e um período de convívio com o povo do lugar, desistindo depois por não considerar a área ideal. Terminou indo à Palmeira dos Índios, em Alagoas, cidade que tinha uma profunda identificação com Graciliano Ramos, pois lá ele viveu e exerceu o cargo de prefeito, entre os anos de 1927 a 1930. "Ter ido para Palmeira dos Índios foi muito bom, não só por ser um lugar onde Graciliano esteve, mas porque ali encontramos boa parte do pessoal de que precisávamos. A população nos recebeu bem, e tinha os tipos ideais para figurar no filme: os rostos marcados, as expressões de quem passou a vida difícil da seca eram reais." A esta altura, os atores ainda não estavam todos selecionados e Palmeira dos Índios socorreu Nelson Pereira dos Santos novamente. Ele já havia selecionado o Átila Iório, Orlando Macedo (soldado amarelo) e Maria Ribeiro (Sinhá Vitória ), esta última, uma atriz amadora que trabalhava num laboratório no Rio. Faltava ainda metade do elenco. "Lá conhecemos o Jofre Soares, que depois viria a ser um dos grandes atores do cinema brasileiro, que era uma espécie de faz-tudo da cidade. Ele conhecia toda a gente e foi arranjando as pessoas: os dois meninos, a cachorrinha Baleia — comprada numa feira local -, os figurantes. Ele mesmo acabou interpretando o fazendeiro", conta Nelson.

Técnica simples e apurada

Escolhido o elenco, Nelson Pereira dos Santos pensava em como retratar o sertão nordestino sem romantizá-lo, sem adornar sua paisagem rude com recursos cinematográficos. "Precisávamos mostrar o Nordeste, especialmente a sua luz forte, seu sol escaldante. Sem isso, as cenas que queríamos não teriam realismo", diz. Aí, surge o fotógrafo Luís Carlos Barreto e uma inovação feita por ele no cinema nacional: o uso das lentes da câmera sem filtro, com a luz "estourada", segundo o termo empregado por Nelson. "Aquela luz fortíssima, estourada, de um branco quase insuportável servia para mostrar o calor da seca, a aspereza do ambiente", conta. Esse foi um dos pontos altos do filme, aplaudido internacionalmente. "Estávamos fazendo algo realmente novo, mas ao mesmo tempo bastante simples."

Além do requinte da fotografia, havia também a cuidadosa produção de Nelson, que tinha em sua equipe nomes como José Rosas e o citado Luis Carlos Barreto, parceiros do diretor em outras produções. "Minha equipe foi fundamental no filme. Só trabalhei com pessoas geniais que, apesar de alguns problemas de adaptação, conseguiram obter o resultado que se vê na fita", comenta.

O Brasil da época: lutas sociais

A intenção de Nélson Pereira dos Santos em realizar Vidas secas ultrapassava o desejo apenas profissional do cineasta. O Brasil vivia um momento conturbado, com mobilizações populares por todos os cantos do país e um clima de efervescência permanente. Ele relata: "Fiz Vidas secas também para participar do intenso debate que percorria a sociedade na época. Eram as reformas de base que estavam em discussão, e dentre elas, a reforma agrária se destacava", diz. "O movimento camponês também estava em alta: havia as Ligas Camponesas atuando e nós, do cinema, não poderíamos ficar de fora daquela situação: apoiávamos a reforma agrária, e Vidas secas, assim como outros filmes feitos então, veio para se somar a tudo aquilo".

A politização de amplos setores da população despertava nos trabalhadores uma sede de cultura. Por esse motivo, mesmo com a distribuição prejudicada pelos monopólios do cinema norte-americano, que já a esta altura dominavam boa parte das salas de exibição brasileiras, Vidas secas foi aclamado pelo público. No Rio de Janeiro, ficou em cartaz apenas algumas poucas semanas, nas salas de cinema do circuito Metro. Mesmo assim, muitas pessoas procuravam informações sobre esta produção de Nelson Pereira dos Santos.

O autor de El justicero continua: "Abordar a questão agrária no Brasil era fundamental nessa época, como é ainda hoje, pois esta é uma das chagas abertas do Brasil. Daí veio o interesse do povo pelo filme, pois o tema despertava o ânimo geral", ele diz. Mais à frente, Nelson lamenta: "Foi uma pena a distribuição ter sido tão pequena, o que restringiu muito o número de espectadores, que vinha crescendo quando o filme teve de sair de cartaz."

Literatura e cinema

Nelson Pereira dos Santos

"Levar Graciliano Ramos ao cinema foi uma honra e um prazer", diz Nelson Pereira dos Santos. "Eu já havia planejado filmar São Bernardo, antes de fazer Vidas secas, mas não consegui levar a frente o projeto. O Graciliano é um dos maiores escritores brasileiros; sempre tive uma admiração grande pelo modo como ele compunha seus personagens, além de considerá-lo honesto para com seus princípios", conta Nelson. A relação de seus filmes com a literatura começou com a transposição de Vidas secas e não parou mais: depois dele vieram O amuleto de Ogum, 1974; Jubiabá, 1986 e Tenda dos milagres, 1976, de Jorge Amado; de Machado de Assis fez Missa do Galo, 1982 e O alienista, que ganhou o nome de Azyllo muito louco, 1969; de Guimarães Rosa A terceira margem do rio, de 1993, além de outra obra de Graciliano Ramos, também uma obra-prima do cinema nacional, aclamada pela crítica nacional e internacional, Memórias do Cárcere, de 1984.

O próprio cineasta explica essa afinidade: "Na verdade, antes de começar a fazer cinema, queria mesmo é ser escritor; como não consegui, vim para o cinema e trouxe comigo as obras e os autores de que gosto." No caso de Vidas secas, a tarefa de adaptar a literatura para o cinema era mais difícil. O livro de Graciliano é uma contundente denúncia da situação em que trabalhava e vivia o campesinato nordestino. Os personagens Sinhá Vitória, Fabiano, o Menino mais velho, o Menino mais novo, soldado amarelo, o fazendeiro e a tão humana cachorrinha Baleia são seres bastante reais, que foram criados por Graciliano num estilo áspero, numa linguagem seca que plenamente se encaixa ao tipo de vida que levam os sertanejos. Nelson conseguiu a façanha de recriar a obra de Graciliano no cinema porque respeitou a história e o modo de contá-la. "Procurei fazer em Vidas secas o que o autor realizou no livro: concisão e realismo. Partimos o tempo todo do eixo que era a narrativa de Graciliano para criar; não estivemos presos a ela, simplesmente nos orientamos por seu caminho", conclui Nelson. Os 40 anos de seu Vidas secas certamente serão lembrados por todos os amantes do cinema e por aqueles que almejam o desenvolvimento da verdadeira arte nacional.


A imagem “http://www.anovademocracia.com.br/08/32d.jpg” contém erros e não pode ser exibida.A 50 anos de Graciliano Ramos

Nascido na cidade de Quebrângulo-AL, a 27 de outubro de 1892, e falecido no Rio de Janeiro em 20 de março de 1953, Graciliano Ramos foi um dos maiores escritores brasileiros do último século. No entanto, publicou poucos livros — entre romances, coletâneas de contos e crônicas. Homem ligado às melhores aspirações de seu povo, Graciliano foi sempre um artista lúcido e politizado, chegando inclusive a ser presidente da Associação Brasileira de Escritores (ABDE) em 1951 e 52. Prezava a moral e a honestidade como as mais preciosas virtudes. De todas as suas obras, Vidas Secas e Memórias do Cárcere são certamente as de mais prestígio entre o público, talvez pela enorme carga humana que as duas obras trazem, embora diferentes entre si: enquanto a primeira focaliza os retirantes nordestinos e suas misérias, a segunda mergulha profundamente dentro das celas da repressão política brasileira, do Estado Novo, e vê seus habitantes — operários, soldados, democratas e comunistas, entre eles o próprio Graciliano, que se levantaram contra o governo de Getúlio pela liberdade e independência nacional. São obras que revelam o sofrimento e a esperança dos oprimidos.

Militante do Partido Comunista do Brasil a partir de 1945, Graciliano Ramos viveu seus últimos anos entre a literatura e a política. Realizou viagem, em nome da ABDE, à Tchecoslováquia e à URSS, registrada posteriormente no livro Viagem. Ao retornar, ficou gravemente enfermo, suportando entretanto a doença com a dignidade de suas convicções. Em 20 de março de 1953 faleceu, e no seu velório estiveram presentes milhares de pessoas, numa última homenagem a um artista que soube se colocar ao lado do povo.

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