Rubinho do Vale: Músicas de hoje e sempre no Brasil do norte mineiro

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O compositor Rubinho do Vale leva às crianças a autêntica cultura popular, recuperando cantigas e lendas do Vale do Jequitinhonha

Para muitos, atualmente, música infantil é sinônimo de trabalho sem qualidade, insípido, feito exclusivamente para preencher espaço no mercado fonográfico. Motivos para essa associação não faltam: várias canções e CDs trazem letras pobres, e já por algumas décadas sem conteúdo, enquadradas em ritmos eletrônicos tipo jingle, descartáveis; gírias, obscenidades e outras mensagens degradantes que infestam as rádios e programas de TV. No Brasil, quase não são divulgadas músicas para determinadas faixas etárias, ainda que os brasileiros de todas as idades convivam num mesmo mundo, que precisa, como nunca, ser transformado — uma das razões pela qual a verdadeira arte e a literatura travam uma luta sem fim contra a cultura dos impostores.

No entanto, longe dos monopólios dos meios de comunicação e do sucesso pré-fabricado, grandes e autênticos artistas existem aos milhares — como o mineiro Rubinho do Vale — produzindo boas músicas infantis, levando alegria, as informações mais úteis e elevando a consciência das crianças.

Trabalhando com sua música principalmente em Belo Horizonte, onde mora com a família, Rubinho do Vale, 48 anos, natural de Rubim, cidade da região do Vale do Jequitinhonha — uma das mais pobres do país — é um compositor de enorme talento e variada produção, mas injustamente pouco conhecido fora de seu estado. Em mais de 20 anos de carreira, sua obra reúne canções folclóricas (que ele recolhe e arranja), toadas, valsas, cantigas, parlendas, trava-línguas, canções que defendem as mais justas aspirações populares, líricas — além daquelas dedicadas às crianças (e que também embalam adultos) — tudo levando a marca, o "sotaque" peculiar da rica cultura popular do Jequitinhonha, da qual Rubinho é confesso devedor e entusiasta.

Dos sete LPs e oito CDs lançados por ele de 1982 até agora, três são dedicados às crianças: Ser criança, de 1990; Embola-bola: Brinquedos, brincadeiras e canções, de 1996 e o mais recente Passarim — o palhaço cantor, de 2000. Estes três CDs e os espetáculos infantis por ele produzidos são parte especial de seu trabalho, segundo declarou o próprio Rubinho do Vale em entrevista exclusiva à AND, realizada no final de março. "Cantar para as crianças é um prazer sempre renovado", diz.

Casado, pai de dois filhos — a mais velha com dezoito anos e o caçula com dez — Rubinho do Vale é autor também, além dos já citados, de Tropeiros e cantigas, 1982; Violas e tambores, 1984; Viva o povo brasileiro, 1986; Trem Bonito, 1988; Encantado, 1990; Verde, Vale, vida, 1991; Cavaleiro da Paz, 1994; Jequitinhonha Vale Brasil, 1996 (lançado na Alemanha, em parceria com Frei Chico); Alma do Povo, 1998 e ABC do amor, de 2000. Ele conta como a relação com suas próprias crianças o estimulou a compor: "Sempre cantei para minha filha, e para filhos de amigos, as cantigas da minha infância, aprendidas na roça, ouvidas dos mais velhos. Eles gostavam, os amigos também, e acabei começando a fazer pequenas músicas, por brincadeira, para divertir a meninada, até que virei 'cantor das crianças', meio por acaso".

Folclore e cultura popular para os pequenos

Geólogo de formação, Rubinho do Vale sempre esteve envolvido com a música, desde que saiu da localidade em que nasceu para estudar, primeiramente em Belo Horizonte, depois em Ouro Preto, onde morou nas tradicionais repúblicas estudantis da cidade. Autodidata no violão, Rubinho toca e compõe, desde o início de sua carreira, sempre cantando o Vale do Jequitinhonha. "Em praticamente toda minha obra, a cultura de minha terra está presente, inclusive nas músicas para as crianças", diz ele.

Sem acreditar muito que suas primeiras canções infantis pudessem despertar o interesse do público, por serem bastante marcadas pelas lembranças de sua própria meninice, Rubinho relutou em juntar o material para as primeiras gravações. Porém, devido a insistência de amigos, levou o projeto adiante. "Para o disco Ser Criança fui juntando coisas que fiz, com outras buscadas na memória, que ia arranjando, adaptando. Me recordei de trava-línguas, cantiguinhas e brincadeiras que ouvia, aprendi outras e gravei", relata. O resultado foi um disco alegre, recheado com cantigas e peças folclóricas que despertaram o interesse não só de crianças, mas também de muitos adultos, dentre eles vários professores, encantados com títulos como AEIOU e ABC do amor, posteriormente adotadas por muitos alfabetizadores. Com Embola-bola: Brinquedos, brincadeiras e canções, CD realizado em parceria com o educador, escritor e bonequeiro Francisco Marques — o Chico dos Bonecos — as cantigas-de-roda, trava-línguas, histórias e parlendas ganham mais destaque, num trabalho lúdico que ao mesmo tempo resgata a diversidade da melhor cultura popular do Jequitinhonha e traz canções que estimulam a capacidade cognitiva e motora das crianças, pois "as convida a cantar, dançar, pensar", segundo as palavras de Rubinho.

Já por este tempo, as apresentações em escolas e jardins de infância da capital mineira se intensificaram, pois muitas pessoas iam descobrindo, por assim dizer, suas músicas. Com o lançamento de Passarim, o palhaço cantor, há três anos — um disco delicado, com letras inteligentes e um coro de mais de 200 crianças ao fundo, a curiosidade de muitos passou a ser admiração, elogio. Daí para a freqüência nas escolas foi um pulo: "Eu já fazia pequenos shows em escolas e creches de BH, a convite de professores ou conhecidos; muitas vezes espontaneamente mesmo, pelo prazer que dá. Não ganhava (e dificilmente ganho) dinheiro com isso; havia casos em que nem recurso para o som havia, mas o show era feito. Hoje, frequento escolas públicas e creches, além de atender os convites de colégios particulares, levando música e recebendo o carinho da meninada".

Pedagogia e música

A relação entre as músicas de Rubinho e as escolas é antiga. Nasceu quase que espontaneamente, segundo o compositor mineiro. Desde que começou a cantar mais assiduamente para crianças, pedagogos, estudantes e professores afluíram aos seus shows, desejosos de conhecer melhor sua obra. O trabalho de recolha e recriação musical de temas da cultura popular como as folias-de-reis e o congado, por exemplo, feitas com a sensibilidade musical de Rubinho do Vale, impressionaram muitos educadores. Seus gestos sinceros e sua espontaneidade no trato com os pequenos demonstravam que estava ali alguém que compunha para as crianças, porque de fato gosta delas. De lá pra cá, várias de suas músicas foram tomadas como referência nas salas de aula, dado o poder que têm de entreter e ensinar.

Consciente da função do artista na sociedade, ele reflete: "Eu acho que as palavras não podem ser desperdiçadas. Hoje muita gente faz música e diz pouca coisa, ou não diz nada bom, principalmente para as crianças. Por isso, me preocupo em não só alegrar, mas também em ensinar alguma coisa, trazer uma mensagem para a meninada; por isso essa proximidade com a escola".

Referindo-se ao trabalho dos professores e crecheiras, continua Rubinho — cujo CD ABC do Amor, lançado em 2000, é dedicado especialmente a esses profissionais: "Tenho o maior respeito e admiração pelos professores; eles têm uma tarefa importantíssima, que precisa ser mais valorizada, melhor remunerada em nosso país. Dá muita satisfação ajudar e ser reconhecido por eles", afirma. "Aqui em BH, e onde sou chamado, sempre quando é possível participo de palestras e oficinas com os educadores, pois depois de tanto tempo tocando e conversando com a meninada, a gente acaba aprendendo um pouquinho sobre eles, seu mundo; e eu procuro dividir isso com quem está ali, todos os dias na sala de aula, batalhando para ensinar. Participo até de um projeto sobre esse assunto, chamado Cantoria Pedagógica", diz.

Falta incentivo

"Fazer um trabalho sério, com sinceridade para as crianças, infelizmente, tem também seu lado difícil. Não é fácil conseguir algum recurso, e não dá para tocar sempre de graça. Como eu disse, há escolas e creches que não podem pagar nem o som, e não é possível tocar para 200, 300 crianças sem aparelhagem", diz Rubinho. Por muito tempo ele se apresentava de graça em escolas públicas da periferia de BH, onde era sempre muito bem recebido, mas nunca remunerado, dada a precariedade dos recursos repassados pelos governos estadual e municipal aos estabelecimentos.

Desabafando, Rubinho cobra condições de trabalho: "Quase não há incentivo para artistas que se dediquem ao folclore, à cultura popular. É preciso que exista um meio de artistas de nossa terra, nossa gente, trabalhar, sobreviver do que produzem", continua ele, relatando as dificuldades encontradas para a realização de seus CDs e espetáculos— as mesmas dificuldades enfrentadas por todos os artistas populares independentes país afora. "Estamos num país que não é ainda independente de fato, e nessa questão cultural isso fica claro; o que vem de fora vira moda, e os cantadores, violeiros, artesãos, enfim, os verdadeiros artistas nacionais, ficam esquecidos".

Projetos e perspectivas

Apesar de todas as dificuldades, a carreira de Rubinho do Vale prossegue de forma ascendente. Mais recentemente, suas músicas têm sido ouvidas por um público maior, graças à sua persistência, e às oportunidades de se apresentar para mais pessoas vão aparecendo aos poucos. "Às vezes penso que minha carreira está começando agora, mas já são mais de 20 anos, dos primeiros festivais até aqui", diz. Os projetos para os próximos meses de Rubinho são muitos. "Existe a chance de me apresentar em outros estados, inclusive em escolas do Rio, lá pelo mês de agosto. Outro projeto que já está em andamento é a realização de um programa infantil de TV, que terá a cara de nosso trabalho: conversas com a criançada, jogos, cantigas e histórias do nosso folclore, em meio a muita música. É um sonho antigo fazer este programa, e agora pode ser que vai; ainda dependemos de recurso, mas estamos batalhando dia a dia".

Outro compromisso certo de Rubinho é sua participação no Festivale — Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha, acontecimento já tradicional na região, que este ano comemora sua 22ª edição ininterrupta, a ser realizada na cidade de Medina, 600 km de Belo Horizonte, em julho. Como um de seus primeiros organizadores e grande incentivador da cultura local, Rubinho considera o Festivale um dos mais autênticos festivais do gênero no país porque "ali estão presentes o artesanato, a culinária, as danças, músicas e costumes do Vale; e o mais importante: o povo das cidadezinhas acompanha tudo, vai para as ruas participar de tudo", conclui Rubinho do Vale, cantador mineiro, homem simples de nosso povo, defensor da cultura e das crianças.

Conheça mais a obra de Rubinho do Vale no site: www.rubinhodovale.com.br

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