EUA na depressão. E nós?

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A depressão econômica corre o Mundo. Ela se desenhou no Japão, nos anos 90, e surgiu, claramente, a partir de 2000, nos EUA, onde os sintomas apareciam desde 1997. Há dois anos, a estagnação degenera em queda da atividade nos países desenvolvidos da Europa. Nas sugadas periferias, a lastimável situação deteriora-se ainda mais. Isso ocorre em todas nas quais não se não toma a decisão de desvincular-se dos centros. Pena que poucas tenham avançado nesse sentido, tolhidas pelas fortes pressões abertas e ocultas da oligarquia mundial. 

Esta não parece interessada em reverter a depressão, nem mesmo nos países centrais. O que a oligarquia tem feito é usar o dinheiro público, que a Junta Federal de Reserva (FED) emite copiosamente, para evitar a quebra de bancos e outros manipuladores financeiros. Ela usa, em benefício próprio, instrumentos do Estado, que controla. Na crise dos anos 30, anunciada pelas quedas da Bolsa de Nova York, em 1929, foi preciso chegar a 1932, com um desemprego em proporções jamais vistas, para que se elegesse um presidente disposto a lutar contra a depressão. Mas F.D. Roosevelt não teve tarefa fácil. Desde o Século XIX estava fundamente implantada a hegemonia política do complexo petróleo/finanças. Este usou seu poder sobre o Congresso, o Judiciário e a mídia, para obstaculizar as políticas de recuperação e para limitar-lhes o alcance. Apesar dessa obstrução, o presidente, ajudado por uma elite de intelectuais e técnicos, pôs em marcha o New Deal, com investimentos públicos na infra-estrutura econômica e social e com a regulação estatal das atividades econômicas. Resultou disso não só grande melhora das condições de vida, mas também a formação de uma administração capaz de organizar o poder militar empregado com urgência na Segunda Guerra Mundial.

Houve, assim, notável expansão da produção industrial para fins militares e civis, liderada pelos setores de bens de capital e pela utilização de recursos humanos, aumentada com a mobilização pelas Forças Armadas de 13 milhões de homens. Isso exigiu investimentos de tal dimensão, que o deficit fiscal atingiu enorme proporção do PIB, inimaginável, para economistas ou não. Graças a esse deficit "absurdo", os EUA conseguiram: 1) tornar-se potência vencedora da Guerra, junto com a União Soviética; 2) retornar ao nível de produção anterior a 1930, em 1943, e superá-lo nos anos seguintes.


A oligarquia usa em benefício próprio
instrumentos do Estado, que controla


Hoje, as máquinas dos dois partidos políticos dos EUA, cada vez mais a serviço da oligarquia, barram, por meios legais e ilegais, o acesso de candidatos com potencial de alterar o rumo ao caos. Isso é feito desde as primárias nos Estados, até mudando regras. Além disso, o controle da oligarquia sobre a mídia é ainda maior do que nos anos 20 e 30, e o sistema de poder acentua suas tendências fascistas. Aproveita-se de terror próprio ou terceirizado para obter o conformismo dos cidadãos, que deveriam estar reivindicando a reversão das desastrosas políticas emanadas da ideologia divinizadora do "mercado". Esse quadro se reproduz, em menor medida na Europa Ocidental, e de forma acentuada nas periferias.

O Brasil é asfixiado pelo controle oligopolista das transnacionais sobre a produção e pela consequente transferência ao exterior do dinheiro gasto pelos brasileiros no mercado. A asfixia é também política, pois eleições são movidas a pecúnia. O esgotamento econômico é agravado por juros estratosféricos, sob o império dos grandes bancos e pelas demais sequelas do modelo dependente, como as extorsivas tarifas dos serviços públicos fraudulentamente privatizados. O Brasil foi transformado em país de indigentes, no qual os mandatários "eleitos" se comportam como pedintes diante de supostos credores da questionável dívida pública. De fato, os constituintes de 1988 determinaram a auditoria da dívida externa nas disposições transitórias da Constituição. Em vez de cumpri-la, os "governantes" preferem subordinar-se às condições letais dos acordos com o FMI. Estes só agravaram as vulnerabilidades da economia, destruindo-a estruturalmente. No processo, a dívida externa dobrou e a dívida interna foi multiplicada por oito.

A classe média encolheu para 5% da população. Os ricos para menos de 1%. Os pobres ou miseráveis já são 94%, mesmo com o brutal controle da natalidade. Esse contingente é engrossado, cada dia, por egressos da classe média. Por que? Ao conjunto da população cabem só 50% do PIB. Os outros 50% são obtidos por 750 grandes grupos e empresas, ou seja, 0,001% da população ativa (PEA) — um milésimo de 1%. Ou 0,00043% da total. Essa situação é o resultado da política econômica dos últimos 25 anos e do modelo econômico dependente implantado desde 1954. Pois é aquela política e este modelo que o governo do partido dos "trabalhadores" resolveu adotar, e até acentuar.


O que os oligarcas buscam é consolidar
sua hegemonia e torná-ma absoluta


Medido em inflacionados dólares, que se vem desvalorizando frente ao euro e ao ouro, o PIB do Brasil desceu, ao câmbio atual, para U$ 450 bilhões. Disso sobram míseros U$ 225 bilhões para 99,99957% da população. Temos, pois, de corrigir as fajutas estatísticas da renda por habitante para U$ 1.286. Em termos da comparação com outros países, ter-se-ia de fazer uma correção, por igual método, das estatísticas deles. De qualquer forma, está patente o estado deprimente a que chegamos e que não cessa um minuto de se agravar. Adensa-se a convulsão social, presente há tempo.

Após ter usado a prosperidade anterior, real ou suposta, para fazer crescer, em trilhões de dólares, a massa de ativos financeiros sob seu controle, a oligarquia detentora do poder mundial aproveita-se da queda de valor dos patrimônios reais, devida à crise, para comprá-los a troco de quase nada. Aumenta, assim, seu poder de monopólio sobre os bens de capital e de produção, em detrimento da classe média arruinada e de ricos rebaixados à classe média.

Para a oligarquia o dinheiro não significa o mesmo que para os assalariados e os médios e pequenos empresários, nem sequer para muitas pessoas ricas. No que se refere aos potentados, o dinheiro é instrumento de poder. Não lhes interessa ganhar dinheiro destinado a ter segurança ou para viver à grande. Isso está mais que garantido entre os que tem renda anual de US$ 50 milhões, ou seja, modestos 5% de US$ 1 bilhão, quantia muito baixa na ordem de grandeza dos patrimônios dos grandes grupos. Na ótica destes, ganhar mais só serve para disputar poder.

Essa consideração põe em dúvida o bem fundado da suposição, segundo a qual as grandes empresas sejam favoráveis à prosperidade geral, dado que obterão maior lucro se a produção e o consumo se elevarem. Esse pode ser o caso de empresas industriais, agrícolas e de serviços e de alguns produtores de bens de capital. Mas, quando acumulam lucros não reinvestidos na produção de bens ou serviços, as aplicações financeiras tornam-se mais importantes do que as atividades originais. Ademais, as empresas são, em geral, satelitizadas, econômica e ideologicamente, pela oligarquia. Assim, elas: a) opõem-se a políticas públicas de desenvolvimento, indispensáveis para dinamizar a procura dos consumidores; b) em função da idolatria ao "mercado", imaginam que a melhor estratégia industrial seja reduzir custos, enxugando a folha salarial e espremendo as pequenas empresas terceirizadas. Como todas fazem isso, o desemprego aumenta, a massa salarial e o faturamento se reduzem. Daí, maior pressão depressiva sobre a economia.


O Brasil é asfixiado pelo controle oligopolista
das transnacionais sobre a produção


Ora, se as empresas produtivas agem em favor da depressão, que dizer dos grandes bancos, os quais comandam a política monetária e financeira dos governos? Nos EUA, a Junta da Reserva Federal (FED), criada em 1913, é controlada por banqueiros. Estes fazem os governos criar dívida pública e pagar altos juros sobre ela, o que empobrece o Estado e o País. Para promover o bem estar geral, o Estado tem de financiar seus investimentos na infra-estrutura e apoiar o setor privado produtivo, por meio de emissões próprias de moeda e de crédito, a custo zero para o Tesouro. Tem de instituir bancos de desenvolvimento, para propiciar crédito abundante e barato, e redescontar empréstimos dos bancos privados ao setor produtivo. Foi isso que Lincoln tentou e só conseguiu realizar em parte e por pouco tempo, dada a oposição de banqueiros oligarcas. Esta fez com que, oito anos após o assassinato do notável presidente, os EUA mergulhassem em longa depressão, a partir de 1873.

Os bancos comerciais, antes de Roosevelt, e depois de Carter/Reagan, têm atuado também como bancos de investimento. Desde os anos 80, uns e outros fizeram grandes fusões e causaram, juntamente com os fundos especulativos, incrível multiplicação dos ativos financeiros, como os "derivativos". Estes chegaram nos EUA a US$ 100 trilhões, dez vezes o PIB. A imensa bolha está-se desinflando há três anos. As ações perderam em média 50% do valor. A economia desce cada vez mais fundo, e milhões, por ano, caem no desemprego. Foi arruinada a maior parte dos 50% de norte-americanos que investiam em ações, e o quadro vai piorar muito com o estouro iminente da bolha imobiliária.

Deve haver razão mais profunda do que a ideologia para que as coisas aconteçam desse modo, enquanto os "governantes" cuidam de desviar as atenções disso para o suposto "terror" islâmico e atacando países desarmados, com mísseis e bombas de urânio. A razão reside na lógica do poder, da qual a própria ideologia depende. A oligarquia não visa ganhar o máximo possível, pois isso implicaria em ganhos substanciais para os abastados e para a classe média. Esses segmentos sociais disporiam, nesse caso, de poder econômico suficiente para estabelecer um contrapeso ao poder dos oligarcas. Estes perderiam poder relativo.

Ora, o que buscam é consolidar sua hegemonia e torná-la absoluta. Com efeito, num quadro de prosperidade crescente, os outros segmentos poderiam: 1) financiar campanhas eleitorais com alternativas reais às políticas concentradoras, globalizantes e empobrecedoras; 2) obter espaços próprios na mídia, abertos a informações e interpretações isentas das distorções ideológicas encomendadas pela oligarquia e a serviço dela; 3) criar, nos âmbitos estatal e privado, instituições educacionais de excelência, livres daquelas distorções. Melhoraria o padrão de vida e as oportunidades de ascensão das classes "inferiores". Mesmo gastando menos em eleições do que os oligarcas, as demais classes não teriam dificuldade em eliminar o virtual monopólio do poder, que eles pretendem tornar absoluto.


* Adriano Benayon é Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de "Globalização versus Desenvolvimento" Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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