Trabalhadores em luta mantém onda de greves

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A greve dos servidores técnico-administrativos já se estendeu a 45 universidades federais. Os trabalhadores em educação das redes estaduais exigem o pagamento do piso nacional. Novas greves operárias são deflagradas nas obras da copa do mundo. Obras de grandes empreiteiras são paralisadas e trabalhadores de transnacionais lutam contra a exploração.

Greve nas redes estaduais de ensino

Os professores das redes estaduais deflagraram greves em diferentes regiões do país ao longo dos últimos meses exigindo o cumprimento do piso salarial nacional de R$ 1.180 e melhores condições de trabalho.

Nos meses de junho e julho, ocorreram paralisações no Amapá, em Mato Grosso, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Ceará.

No dia 6 de julho, mais de dez mil trabalhadores da rede estadual de ensino de Santa Catarina realizaram um grande protesto em Florianópolis. A greve já durava 50 dias e a categoria havia rechaçado a contraproposta do gerenciamento estadual que não correspondia às reivindicações dos trabalhadores. O protesto se dirigiu ao prédio da Secretaria de Educação, no centro de Florianópolis, e prestou solidariedade aos cerca de cem manifestantes que encontravam-se acampados lá há mais de uma semana.

Os trabalhadores em educação da rede estadual do Rio de Janeiro permanecem em greve devido à intransigência do gerenciamento estadual que se recusa em negociar as reivindicações da categoria. No dia 12 de julho, quando a greve no Rio de Janeiro completava 38 dias, os trabalhadores ocuparam o prédio da Secretaria de Educação. Os professores acamparam no prédio da secretaria e receberam a solidariedade de estudantes e trabalhadores de outros setores. A categoria exige reajuste de 26%, descongelamento do plano de carreira dos funcionários administrativos, entre outras reivindicações.

Em Minas Gerais, a greve também é mantida pela maioria dos trabalhadores em educação. Este movimento grevista carrega um ingrediente que o diferencia dos que ocorreram nos últimos anos: o fato de não haver eclodido em um ano eleitoral. Durante anos as direções oportunistas dos sindicatos dos trabalhadores em educação cavalgaram as mobilizações da categoria. As greves, quando ocorriam, eram deflagradas na véspera da farsa eleitoral e utilizadas como instrumento eleitoreiro para pressionar este ou aquele candidato. A atual luta é o resultado da crise e do arrocho, do achatamento dos salários que se acumulou ao longo dos anos. As greves são, em sua maioria, resultado da pressão de milhares de trabalhadores que atropelaram as direções de seus sindicatos obrigando-as a deflagrá-las.

45 universidades federais em greve

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Servidores da UFPR aprovam a continuidade da greve

A greve dos técnicos administrativos das universidades federais caminha para o seu segundo mês em diversas Instituições Federais de Ensino.

O movimento já se expandiu para 45 das 59 universidades federais.

Até o final do mês de julho (período do fechamento desta edição de AND) o gerenciamento Roussef, intransigentemente, se recusa a negociar com a categoria.

Em 12 de julho, os servidores da Universidade de Brasília decidiram, em assembleia, manter a paralisação. A deliberação dos trabalhadores da UnB foi contrária à orientação da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas (Fasubra) que apontava para a suspensão da greve.

Os trabalhadores reivindicam aumento do piso salarial para três salários mínimos, mudanças nos incentivos de qualificação relacionados a cursos de aprimoramento e abertura imediata de concurso para a área administrativa e Hospital Universitário.

Nesse mesmo período era noticiado que mais de 70% dos servidores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro também haviam aderido à greve.

O gerenciamento federal declarou, através do ministro da educação Fernando Haddad, que somente negociará as reivindicações dos trabalhadores caso suspendam a greve. O ministro espera que com seu apelo a greve tenha fim, apesar de declarar "que as reivindicações serão atendidas, mas de que o diálogo vai ser recolocado [Agência Brasil, 15 de julho de 2011].

No dia 21 de julho, cerca de cem servidores técnico-administrativos da Universidade Federal do Paraná - UFPR, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná -UTFP e do Hospital de Clínicas, em greve desde o dia 15 de junho, ocuparam, durante cerca de uma hora, o gabinete do reitor em exercício da UFPR, Rogério Mulinari, exigindo melhorias no plano de cargos e salários e a reabertura de 130 leitos do Hospital de Clínicas, que foram fechados por falta de pessoal.

 No dia 25 de julho, a Advocacia-Geral da União entrou com ação no Supremo Tribunal de Justiça para atacar a greve dos trabalhadores técnico-administrativos das universidades federais e declará-la ilegal. Apesar das ameaças e ataques, a greve se mantinha até o fechamento dessa edição de AND.

Servidores públicos ocupam Câmara Municipal em Salvador

Em 7 de julho os servidores municipais de Salvador - BA deflagraram greve por tempo indeterminado. A greve foi deflagrada durante a jornada de lutas da campanha salarial, iniciada em maio. Os trabalhadores decidiram manter a greve apesar de o gerenciamento municipal haver anunciado um reajuste médio de 17,5%. Tal proposta do gerenciamento municipal contemplaria apenas o grupo de 6.671 servidores, já que os colaboradores da saúde (9.836) e da educação (6.371) têm planos de cargos específicos. Outros 1.689 servidores das empresas públicas municipais não estão incluídos na proposta.

No dia 18 de julho os servidores públicos municipais em greve ocuparam a Câmara Municipal e, no dia seguinte, após mais uma rodada de negociações, o prédio continuou tomado por cerca de 200 manifestantes que permaneceram lá até o fechamento desta edição de AND.

Trabalhadores da Eletrobras fazem greve de 48 horas

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Eletrobras Campinas em greve

Os trabalhadores da Eletrobras deflagraram uma paralisação de 48 horas, no último dia 20 de julho, reivindicando aumento salarial e outras reivindicações específicas. A pauta de reivindicações entregue à direção da empresa continha 54 itens.

A principal reivindicação é o reajuste salarial de 11,2%. A contraproposta patronal de 6,51% foi rechaçada pelos trabalhadores que aderiram maciçamente ao protesto. Os trabalhadores alertaram a patronal que caso não avançassem as negociações uma nova paralisação seria deflagrada, porém durante 72 horas.

Greve dos servidores da saúde em Brasília

No dia 27 de junho os servidores da saúde de Brasília deflagraram greve e, apesar da determinação do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios de voltarem ao trabalho, a categoria manteve a paralisação. De acordo com o Sindsaúde-DF, 10 mil servidores de todas as áreas aderiram à paralisação.

O movimento durou 15 dias e, entre os pontos acordados no encerramento da greve estão: o reajuste do tíquete alimentação para R$ 304,00 a partir do mês de julho, a incorporação da Gratificação por Apoio Técnico Administrativo (Gata) de modo escalonado: 40% em setembro de 2011, 50% em setembro de 2012 e 30% em julho de 2013 e, a partir de janeiro de 2012, o plano de saúde deverá ser implementado para os servidores.

Greve na Matte Leão / Coca-Cola em Curitiba

Mais de 90% dos trabalhadores da unidade de produção da fábrica da Matte Leão, em Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, deflagraram greve no dia 19 de julho. Há três anos, o grupo empresarial paranaense vendeu seu patrimônio para a transnacional Coca-Cola Company e, segundo os trabalhadores, aumentou a exploração e pioraram as condições de trabalho.

Os trabalhadores reivindicam 10% de aumento real e reajuste no valor da cesta básica, de R$ 50 para R$ 120, retroativo ao mês de maio, data-base da categoria.

Em assembleia, os grevistas rechaçaram a proposta patronal de 6,3%, referente ao Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC) do mês de maio, e R$ 90 para a cesta básica até dezembro e R$ 115 de janeiro a abril.

Os grevistas também denunciam a pressão exercida pela empresa pelo cumprimento de metas de produtividade. A greve prossegue até a data do fechamento desta edição de AND.

Nova greve nas obras da copa em Belo Horizonte

Após a combativa greve nas obras do estádio Mineirão, ocorrida no mês de junho, uma nova greve operária paralisou outra obra da copa de 2014 em Belo Horizonte. No dia 3 de julho, cerca de 180 operários paralisaram as obras nas avenidas Antônio Carlos e Pedro I e, em assembleia realizada no dia 8, decidiram manter a greve.

Mais uma vez, organizados pelo Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Construção Civil de Belo Horizonte e Região, o ‘Marreta’, os operários reivindicaram os mesmos ganhos alcançados pelos trabalhadores das obras do Mineirão: aumento de salário de 4%, pagamento de 100% das horas extras, cesta básica de 30 quilos e participação nos lucros, além de melhores condições de trabalho.

Diante da morosidade do consórcio formado pelas construtoras Cowan e Delta em atender a reivindicação dos grevistas, os operários decidiram ocupar o canteiro de obras com suas esposas e filhos até o atendimento das reivindicações.

Obras da copa também param em Pernambuco

No dia 30 de junho, cerca de 700 operários das obras da Arena Pernambuco, na região metropolitana do Recife, deflagraram greve. Os operários da Arena Pernambuco denunciam que a empreiteira impõe uma jornada de trabalho extenuante visando o cumprimento dos prazos para a entrega das obras sem se preocupar com as condições de trabalho. Há denúncias de jornadas de trabalho de 15 horas e o sindicato dos trabalhadores da construção informa que o salário pago a um oficial é de apenas R$ 792, enquanto um ajudante recebe R$ 589,60.

A paralisação durou pouco mais de três horas, mas a combatividade dos operários fez os patrões da empreiteira Norberto Odebrecht rapidamente atenderem as suas reivindicações, que eram: melhorias no transporte, nova forma de cálculo da produtividade, folga semanal e abono das horas paradas.

Greve da construção em Cuiabá

Operários das obras da empresa Prime, em Cuiabá, paralisaram, no dia 25 de julho, os trabalhos em protesto contra o não pagamento de salários e da remuneração por produção. A greve envolveu cerca de 300 operários terceirizados pela MRV/Prime Incorporações e Construções.

Os operários denunciam que houve casos em que trabalhadores passaram até dois meses sem receber.

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Entrevista com o Romulo Radicchi, professor da rede estadual de Minas Gerais e militante do Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação – Moclate.

AND - O que motivou a deflagração do movimento grevista dos trabalhadores em educação?

Rômulo - A principal motivação do atual levante dos educadores brasileiros é a crescente miséria e pobreza em que esses trabalhadores se encontram. Esta situação é provocada pelas políticas nefastas das gerências municipais e estaduais em cumplicidade com a gerência Dilma (PT, pecedobê, PDT, etc).

Somando-se a esse fator, em Minas Gerais, por exemplo, temos uma mal intencionada política de destruição da carreira dos educadores com o confisco de direitos e gratificações já adquiridos. Após uma decisão favorável do STF em apontar o piso salarial nacional dos educadores como sendo vencimento básico na carreira, tivemos uma mudança na correlação de forças da luta pela valorização profissional, em que pese o rebaixadíssimo valor do piso de R$ 1.187,00 para uma jornada de 40hs semanais. Sabiamente, os educadores têm aproveitado bem esse momento através da luta.

AND - Qual a dimensão do movimento, como tem sido as mobilizações?

Rômulo - Os trabalhadores em educação das redes estaduais de Santa Catarina e do Rio Grande do Norte realizaram greves históricas e extremamente combativas. Elas terminaram em julho e duraram cerca de 60 dias. Os trabalhadores de base, em muitos momentos atropelaram as direções oportunistas e burocráticas. Guiados pelo desejo de conquistas, empurraram essas direções para o caminho da luta. Foram dois meses de intensas mobilizações, com acampamentos, passeatas e massivas assembleias. Nesses movimentos valeu a máxima do "quem luta mais, perde menos". Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, as greves persistem e tem o elemento da combatividade presente na base dos educadores. Esses se cansaram das demagogias dos governantes de plantão e têm se lançado em atos e ações cada vez mais radicalizados. Diversas redes municipais de ensino estão mobilizadas. É preciso ressaltar a omissão da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE que é, na verdade, uma entidade cartorial conhecida na base como uma autarquia do MEC, completamente distante das lutas dos trabalhadores em educação e que sequer foi capaz de organizar uma greve unitária em todo o país em defesa do miserável piso nacional.  As direções oportunistas sempre fazem da justa luta dos trabalhadores em educação uma espécie de correia de transmissão de seus interesses eleitoreiros.  No caso de Minas Gerais é visível o uso por parte de deputados do PT do justo movimento de greve dos educadores. O importante desse cenário é que os educadores se lançaram na luta devido à salvação de suas carreiras e o gigantesco arrocho salarial a que estão submetidos. E, como não poderia deixar de ser, muitas lições estão sendo extraídas e uma delas é de que devemos fazer com nossas mãos tudo aquilo que nos diz respeito. De fato, a greve é uma escola de combate do proletariado.

AND - Qual a perspectiva classista dos trabalhadores em educação a partir dessas greves?

Rômulo - Uma greve nacional da educação como instrumento de luta tem se tornado uma necessidade premente da categoria. A arqui-pelega CNTE mantêm as greves estaduais confinadas ao isolamento, recusando a unificar a luta dos trabalhadores em educação de todo o país, claramente para blindar a atual gerência, que com sua política antipovo contribui muito para a desvalorização social da educação pública. A cada dia, a cada enfrentamento, as massas têm percebido essas manobras e felizmente têm sido forjadas lideranças com uma postura combativa e independente.


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