Editorial - Às bordas do colapso

A- A A+
 

O anúncio por Obama, na noite de 31 de agosto, do acordo entre republicanos e democratas para a elevação do teto da dívida pública do USA, e a posterior aprovação no Senado e na câmara dos deputados, não chegou a surpreender quem acompanha mais de perto o desenrolar da crise geral de superprodução capitalista que assola o mundo todo.

Criado há 94 anos, o teto da dívida pública do USA já foi ampliado nada mais nada menos que 102 vezes. Só na última década o limite foi aumentado 10 vezes. Do ano 2000 para cá, a dívida quase triplicou, passando de 5,7 trilhões de dólares para os atuais declarados 14,3 trilhões de dólares. Se forem agregados os 3 trilhões de dólares em títulos não declarados em poder do Federal Reserve, o banco central de lá, vê-se que o rombo é bem maior que o divulgado.

Essa dívida monstruosa e que as calculadoras normais de 8 dígitos não conseguem processar cresce continuamente e aos saltos graças ao déficit fiscal de 1,2 trilhão de dólares anuais.

E mesmo devendo essa enorme quantia de dinheiro, o USA permanece como principal potência econômica graças à existência do dólar como moeda comum nas transações internacionais, condição que o governo do USA tenta manter com a utilização de todas as manobras possíveis. E claro, com a garantia de maior superpotência militar de todos os tempos. Mesmo sem a ameaça de calote, governos como o do Brasil, obedecendo fielmente as ordens imperiais, interferem seguidamente no câmbio comprando moeda ianque visando inflacioná-la ou conter sua queda. Uma desvalorização aguda do dólar arrastaria o mundo todo para um colapso econômico sem precedentes e colocaria em questão a hegemonia do imperialismo ianque.

Sombra semelhante ronda a Europa com a quebradeira dos países periféricos da zona do euro, como Portugal, Irlanda, Grécia e a pré-falência de Itália e Espanha, que podem também não ser capazes de honrar suas dívidas.

Após o estouro da bolha imobiliária no USA em 2007, a dívida acelerou seu ritmo de crescimento, graças, entre outros fatores, ao socorro aos bancos em bancarrota prestado pelo governo ianque, que "doou" mais de dois trilhões de dólares ao sistema financeiro, e à isenção de impostos aos mais ricos concedida por Bush (republicano) em 2001.

O PIB ianque está em retração. Milhares de fábricas estão fechadas e muitas localidades industriais parecem cidades fantasmas. A imensa maioria das mercadorias consumidas no USA são importadas, principalmente da China, que com isso veio a se tornar a maior detentora de títulos da dívida ianque, com um estoque oficial estimado em 1,6 trilhão de dólares (economistas dizem que pode ser 2 trilhões, já que a China tem adquirido títulos através de bancos estrangeiros).

Na sequência estão Japão, Reino Unido e Brasil, que ocupa a 4ª posição como credor individual, com mais de 210 bilhões de dólares em títulos da dívida ianque. Dado interessante e revelador é que o gerenciamento oportunista no Brasil foi o segundo maior comprador desses títulos entre maio de 2010 e maio de 2011, data em que foi atingido o limite da dívida do USA.

Já próximo da campanha para a sua reeleição em 2012, Obama se viu em palpos de aranha para negociar com os republicanos o aumento do teto. Com a "popularidade" em queda pela péssima situação econômica do país e por causa das promessas não cumpridas, ele teve que transigir com os republicanos, que cobraram mais do que os democratas estavam dispostos a dar, inclusive a imolação pública de Obama.

Estava desenhado o cenário que aterrorizou os credores dos ianques durante alguns dias: a possibilidade de calote da dívida, que teria proporções catastróficas para a já combalida economia mundial. Seguiram-se declarações mais ou menos histéricas por parte dos maiores credores, menos da gerência brasileira, que, sabuja como sempre, declarou ter confiança no bom senso dos amos do norte, mas não ignorando que em caso de calote o Brasil seria um dos que não receberia sua parte. A China ameaçou retaliar e o Japão se disse preocupado.

Premido pelo tempo, Obama tentou tirar proveito do pouco prestígio que lhe resta entre os estadunidenses e fez apelo à nação em cadeia nacional, exortando todos a pressionarem os parlamentares a fechar um acordo que salvasse o Estado ianque da insolvência.

O anúncio do acordo, entretanto, veio acompanhado do que a população do país temia: entre as medidas de "austeridade" a serem tomadas para conter o déficit, se impôs o corte de 1 trilhão de dólares em 10 anos nos programas de saúde, educação, etc. O imposto sobre a renda dos mais ricos não retornou. Há ainda o compromisso de que uma comissão aponte de onde serão tirados outros 1,5 trilhão de dólares no orçamento. Tudo isso em troca de um aumento de 2,1 trilhões de dólares no teto da dívida até março de 2013, sendo boa parte desse limite gasto já no dia 2 de agosto, data limite para pagamento de cerca de 30 bilhões.

E mesmo assim esse acordo não afasta a possibilidade do colapso de estados e condados (municípios) ianques, que são proibidos de ter qualquer déficit nas contas públicas. Muitas grandes cidades já estão em condição falimentar.

Mas essa é apenas mais uma das mazelas que os trabalhadores estadunidenses têm de enfrentar, já que o desemprego de 10% da população (sendo maior que isso entre negros e latinos) não dá mostras de retroceder, a inflação está próxima de 4% em 2011, os salários estão estagnados desde a década de 1970, etc.. E não é só o Estado ianque que não honra suas dívidas. A população do USA nunca esteve tão endividada com os bancos como agora.

Das indústrias ianques, apenas uma, a de guerra (armas e equipamentos militares), progride. E o faz às custas do sangue dos povos agredidos e de seus próprios soldados no Iraque, Afeganistão, Líbia e Haiti e do orçamento militar de mais de 800 bilhões de dólares que mantém a política de rapinagem e saqueio promovida pelo imperialismo ianque. Só no Iraque foram despejados mais de 4 trilhões de dólares em bombas e atrocidades sem conta desde a invasão. E nem isso é capaz de livrá-lo da crise que se aprofunda.

Esse acordo não altera em nada as bases da economia imperialista ianque. Nem mesmo se trata de medidas para estimular a combalida produção, aumentar o emprego, etc.. É a reafirmação da política imperialista em relação ao mundo, da exploração de seus monopólios sobre as nações oprimidas, da imposição de medidas vis a cada falência de qualquer outro governo. O que é certo é que a crise persistirá, o que equivale a dizer que mais guerras de rapina virão e se tal situação não se reverte rapidamente, o mundo estará marchando para mais uma e nova guerra de proporções desconhecidas por nova e mais profunda repartilha do mundo entre as potências imperialistas.

Já é hora de dar adeus às ilusões e preparar-se para os combates. Cabe aos trabalhadores, aos democratas verdadeiros e revolucionários de cada país levantarem alto suas bandeiras da luta revolucionária!


Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja