USP: "Fora PM, fora Rodas, por uma universidade democrática"

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A Universidade de São Paulo tem uma greve geral estudantil em curso. Milhares de estudantes decidem em assembleias o caminho da luta por uma universidade democrática. A paralisação se estende aos cursos de Filosofia, Letras, História, Geografia, Ciência Sociais, Artes Cênicas, Artes Visuais, Audiovisual, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Jornalismo, Turismo, Educomunicação, Biblioteconomia, Música, Pedagogia, Pós-graduação, Arquitetura, Design, Física, IME e Veterinária. Nem a reitoria autoritária, as pressões do gerenciamento Alckmin, a repressão policial, a prisão de dezenas de estudantes e a odiosa campanha levada a cabo pelo monopólio dos meios de comunicação foram capazes de impedir que a luta se desenvolvesse e mantivesse suas bandeiras erguidas até hoje.

Na noite de 27 de outubro, estudantes da Universidade de São Paulo entraram em confronto com policiais militares no campus da universidade. O protesto teve início quando a PM prendeu três estudantes acusando-os de estarem consumindo drogas.

 Indignados com a presença ostensiva da PM no campus e com a prisão dos jovens, os manifestantes iniciaram um protesto. Os policiais atiraram spray de pimenta, agrediram os alunos com cassetetes e bombas de efeito moral. Os estudantes responderam à repressão com pedras e ergueram barricadas com objetos de madeira na entrada do prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH. Na mesma noite um grupo de estudantes ocupou a administração da FFLCH em protesto contra a presença da PM.

A polícia tem feito abordagens constantes nos alunos e, há meses, ocorrem protestos contra o convênio firmado entre a reitoria e a PM na USP. Segundo a reitoria, o dito convênio foi feito após a morte do estudante Felipe Ramos de Paiva durante tentativa de assalto em maio deste ano, mas os manifestantes denunciam que a presença da polícia tem um conteúdo estritamente político e repressivo, devido às intensas lutas estudantis que vêm sendo travadas nos últimos anos contra o autoritarismo do reitor João Grandino Rodas.

Um fato importante que foi apurado pelo comitê de apoio do A Nova Democracia em São Paulo, mas foi vergonhosamente omitido pelo monopólio dos meios de comunicação, é que mesmo antes do assassinato de Felipe Ramos a PM já fazia rondas na universidade e inclusive realizava blitz bem em frente local do crime.

Ao noticiar a manifestação, os jornalões e telejornais tentaram criminalizá-la utilizando o consumo de drogas como justificativa para a presença policial e a truculenta repressão, mas o fato é que há muito uma grande parcela dos estudantes da USP, que inclusive já realizou ocupações de reitoria, exige a retirada da polícia da universidade. A prisão dos três estudantes foi só o estopim da revolta. Mas as contradições se agravariam muito mais...


Assembleia da USP decide pela continuação da greve

A "democracia" do velho Estado

No dia 2 de novembro, estudantes de vários cursos ocuparam a reitoria da USP exigindo a saída imediata da polícia do campus, a saída do reitor Rodas e também o fim dos processos movidos contra estudantes em lutas anteriores. Exalando histeria, o monopólio das comunicações clamou por intervenção policial contra os "mascarados" que ocupavam a reitoria. Mais uma vez a luta por democracia foi reprimida pela PM. Por volta das 5 horas da manhã de 8 de novembro, cumprindo ordens do gerenciamento Alckmin (PSDB) e de João Grandino Rodas, um grande aparato policial sitiou a USP para retirar os estudantes à força.

Encapuzados (a polícia pode?), sem identificação e fortemente armados, policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais e soldados da tropa de choque atacaram os ocupantes. Simultaneamente, cercaram o Conjunto Residencial da USP para impedir que os estudantes residentes saíssem para se juntar aos manifestantes.

 Durante a truculenta desocupação da reitoria, uma jovem que tentou se desvencilhar dos policiais foi agredida, amordaçada e mantida presa em um cômodo. Os estudantes denunciaram várias agressões policiais. Após a desocupação, a PM apresentou garrafas dizendo se tratar de "coquetéis molotov" e os atribuiu aos ocupantes, o que foi veementemente negado pelos mesmos, que acusam a reitoria, o gerenciamento Alckmin e a PM de tentar criminalizar o movimento e imputar acusações de crimes comuns (crime ambiental, formação de quadrilha, desobediência civil e depredação de patrimônio público) quando se trata de uma luta política contra a presença policial na universidade e pela saída do reitor Rodas.

  O resultado da selvageria: 73 estudantes detidos, obrigados a assinar um termo de flagrante. Primeiramente foi imposta uma fiança de mais de mil reais para a liberação dos detidos, valor posteriormente reduzido para R$ 545. Em mais uma de suas demonstrações antidemocráticas, Alckmin chegou a dizer que "os estudantes da USP deveriam ter uma aula de democracia", e para dar sua esperada "lição" enviou a polícia.

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A verdadeira democracia

Centenas de estudantes fizeram uma manifestação em frente ao 91º DP, na zona Oeste de São Paulo, em solidariedade aos companheiros presos.

Como de costume, o monopólio das comunicações atacou o movimento estudantil da USP, omitindo suas justas reivindicações. Particularmente a revista Veja e a rede Globo desencadearam campanhas virulentas ao longo dos últimos dias na tentativa de desqualificar a luta estudantil, utilizando o pano de fundo do "consumo de drogas" e tachando os estudantes como "mimados revoltados",  desinformando a população, buscando isolar o movimento e criminalizá-lo.

 No dia 8 de novembro, mais de dois mil estudantes decidiram deflagrar uma greve geral reivindicando a saída da PM do campus, a saída imediata do reitor e pelo fim dos processos movidos contra os 73 presos durante a reintegração da reitoria.

No dia 10 um grande protesto reuniu cerca de oito mil. No dia 24 uma nova manifestação reuniu mais de mil estudantes da USP e de outras instituições na praça Oswaldo Cruz, próximo a Avenida Paulista.

Apesar dos sucessivos protestos, a reitoria mantém-se intransigente e incrementou ainda mais o aparato de repressão autorizando a instalação de uma base da PM no campus universitário com um efetivo de 44 policiais.

No dia 28 de novembro, o reitor João Grandino Rodas não compareceu à reunião realizada na Assembleia Legislativa que discutiria as denúncias de agressões policiais e a presença da PM no campus. Centenas de estudantes o aguardavam com palavras de ordem de protesto.

Os amplos setores democráticos da universidade repudiam a política da reitoria, que aciona as forças de repressão, alegando que a USP é uma "cidade universitária" e por isso teria "problemas de segurança".

Se a direção da universidade garantisse que o campus funcionasse, se sua estrutura de fato servisse à comunidade acadêmica, se houvessem cursos noturnos, o estímulo à realização de atividades culturais, iluminação, etc., haveria, consequentemente, movimento de pessoas, o que impediria que a ‘cidade universitária’ se transformasse no local ermo e mal iluminado que é hoje.

Dezenas de organizações estudantis, diretórios centrais, centros acadêmicos, sindicatos e personalidades democráticas manifestaram solidariedade enviando mensagens e participando das mobilizações por democracia na USP. Aquela luta que era tachada pela reação como "baderna de um pequeno grupo de mimados", repercutiu nacional e internacionalmente. Em tempos negros de loas ao Estado policial e de criminalização da pobreza e dos lutadores populares, a luta dos estudantes da USP, bem como da recente e vitoriosa luta dos estudantes da Universidade Federal de Rondônia por uma universidade democrática, são um clarão acalentador.


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