Greve na Unir: luta por democracia derruba reitor

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Painel enumera os cursos paralisados pela greve e destaca palavras de ordem

Foram mais de dois meses de greve na Universidade Federal de Rondônia — Unir. As mobilizações envolveram seis campi. Estudantes, professores, funcionários e pais de alunos, contando com apoio de estudantes secundaristas e de amplos setores da população, empreenderam uma grande luta.

Lutavam por democracia, por uma estrutura digna para os cursos, por laboratórios, por mais professores e qualidade de ensino. Exigiam a saída imediata do reitor José Januário de Oliveira Amaral, acusado de corrupção e alvo de investigações.

Os estudantes denunciaram o favorecimento político de Januário Amaral através de suas ligações com o senador Valdir Raupp e com a deputada Marinha Raupp, ambos do PMDB. Um boletim assinado pelo Comando Geral de Greve dos Estudantes da Unir, fartamente distribuído em Porto Velho, denunciou: "Raupp é o maior interessado em manter Januário no cargo, e sabemos que ele direciona esta posição dentro do Ministério da Educação. Por este motivo o MEC tem tratado a crise da Unir com passos de tartaruga, pois o afastamento do reitor afeta diretamente os interesses e privilégios deste grupo. O interesse e vontade do conjunto dos estudantes, professores honestos, funcionários, pais e da grande maioria da população não valem nada para o Ministro da Educação Fernando Haddad (PT)".

Notícia veiculada em 23 de novembro no endereço conteudoclippingmp.planejamento.gov.br, hospedado na página do Ministério do Planejamento na internet, deu conta de que "Segundo o comando de greve na universidade, o senador Valdir Raupp, líder do partido [PMDB] no estado, fez gestões para mantê-lo no cargo. O parlamentar chegou a negociar, sem sucesso, uma solução para o impasse com Amaral e os líderes do movimento".

Durante a luta, os grevistas enfrentaram truculenta repressão policial, que promoveu invasões à universidade por homens armados e a prisão do professor de história, Valdir Aparecido de Sousa, em pleno campus universitário. Dois estudantes também foram presos pela Polícia Federal após efetuarem o pagamento dos panfletos (que foram tomados pelos policiais) em uma gráfica. Quando os estudantes chegaram à delegacia, encontraram com o ex-reitor Januário saindo de lá.

Confirmando o que já havia sido fartamente propagandeado pelos estudantes e professores da Unir, em 15 de novembro foi divulgado um parecer da auditoria da Controladoria Geral da União — CGU, assinado por Omilson Clayton Dias Tavares Junior, comprovando irregularidades, atestando problemas de competência de gestão e descumprimento de inúmeras normas da administração pública federal.

O comando estudantil de greve na Universidade Federal de Rondônia denunciou, em 16 de novembro, que "dois bandidos encapuzados ameaçaram de morte uma aluna do curso de psicologia". Os homens seguiram a estudante até a sua casa e a ameaçaram "caso permanecesse participando do movimento".

De acordo com o professor Pedro Tarique (membro da coordenação do movimento grevista) a situação é extremamente preocupante e hoje se teme efetivamente pela segurança de todos os envolvidos nesse movimento, e principalmente, por parte dos alunos que estavam ocupando a reitoria da Unir.

O comando de greve ainda denunciou que um professor em Rolim de Moura foi surpreendido com um ataque surpresa, quando desconhecidos atiraram pedras e que, dias antes, um grupo de estudantes também foi ameaçado ao sair de uma emissora de televisão. Vários professores e estudantes relataram que foram seguidos. As denúncias dão conta de que "até mesmo veículos da Unir têm sido identificados rondando residências de alguns servidores" [fonte:  http://comandodegreveunir.blogspot.com].

Ainda no dia 16, ameaças por escrito foram espalhadas nos laboratórios e departamentos do campus da Unir em Porto Velho, citando nominalmente estudantes e professores. (ver foto)

 — É importante divulgarmos as ameaças que vêm sofrendo os professores da Unir devido as denuncias de corrupção. Esta organização criminosa tenta criar um clima de inversão, como se os corruptos fossem os denunciantes. Acabou a greve, mas a luta na universidade deve prosseguir até que todos os envolvidos nessa organização criminosa sejam devidamente punidos, devemos continuar travando combativas lutas contra a reforma universitária, por uma universidade verdadeiramente científica, democrática e que sirva ao povo. – afirmou a professora doutora Marilsa Miranda de Souza, do Departamento de Educação da Unir, lotada no Campus de Rolim de Moura.

A queda de Januário

No dia 17 de novembro, uma comissão de sindicância do Ministério da Educação deu início à apuração das denúncias de irregularidades administrativas que pesam contra o reitor Januário Amaral. Os professores e estudantes da universidade montaram um dossiê de mais de mil e quinhentas páginas com inúmeras provas dos crimes de corrupção e improbidade administrativa da gestão de Januário.

A repercussão da luta por democracia na Unir fez com que até mesmo o monopólio das comunicações se mexesse. As denúncias veiculadas nos jornalões não eram furos de reportagem, pois já circulavam há muito tempo nos blogs, páginas da internet e na imprensa democrática e popular. Em 23 de novembro, quando a ocupação da reitoria completou 50 dias, com as manchetes dos jornalões noticiando em cadeia nacional as denúncias contra o reitor e a luta dos estudantes, professores, funcionários e pais de alunos da Unir por democracia, o reitor caiu. O outrora arrogante José Januário de Oliveira Amaral apresentou sua renúncia ao cargo de reitor ao MEC. Uma arrebatadora vitória da união e da luta por uma universidade pública, autônoma e democrática.

Ainda no dia 23, uma convocatória assinada por Januário anunciava uma reunião do Conselho Superior Universitário (Consun) para tratar da sua situação, dos encaminhamentos do MEC para o processo de transição na reitoria, entre outros pontos. Numa nota final, com tom de ameaça, fato costumeiro e repetido em sua gestão, advertia: "Em caso de perturbação da ordem, a assembleia será transferida para às 14:00 horas nas dependências do SIPAM1".

Na sessão plenária do Consun realizada no dia 28 de novembro, o ex-reitor Januário Amaral não compareceu para não ser recepcionado pelas centenas de estudantes que o aguardavam com faixas e cartazes em mãos. O conselho conduziu a professora Maria Cristina (vice-reitora) para o exercício da reitoria pelo prazo de 60 dias até que aconteçam novas eleições para o cargo. Com isso, a greve alcançou seu objetivo.

Vitoriosos, os estudantes desocuparam a reitoria no dia 29 de novembro. Porém, prometem se manter mobilizados e organizados para a nova fase da luta por democracia na Unir: a exigência de paridade na composição dos conselhos como garantia da participação ativa nas decisões e nos rumos da universidade. Em 2 de dezembro os docentes da universidade decidiram pelo encerramento da greve e definiram adequações do calendário acadêmico para retomada das atividades.

1 Instalação militar do Sistema de Proteçãoda Amazônia.

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Assim se pratica a democracia


Camponeses atendem chamado e doam produção para a ocupação

A reitoria da Unir foi ocupada por mais de dois meses. Sua porta principal foi fechada com pneus. Os estudantes se revezaram nas tarefas de limpeza, organização, segurança, propaganda da luta e alimentação. Os telefones e a energia elétrica do prédio foram cortados desde o dia 5 de outubro. Um gerador movido a diesel, conquistado pelos grevistas, garantiu o fornecimento de energia durante a noite.

Na ocupação havia oficinas de música, debates sobre o problema da universidade, situação política nacional e internacional, exibição de filmes, gincanas e praticava-se esportes.

Todos os dias, comitivas de estudantes, pais, professores e moradores de Porto Velho visitaram a ocupação e prestaram solidariedade àqueles que lutam por democracia na universidade. Uma comissão de camponeses foi até o prédio da reitoria e destinou um caminhão carregado com arroz, feijão, mandioca, banana, cana, café e outros produtos doados pelos camponeses das áreas Canaã e Raio do Sol, localizadas entre Jaru e Ariquemes, para os estudantes em luta!

Na parede um cartaz respondia àqueles que atacavam os ocupantes da reitoria por taparem o rosto. Um desenho e uma inscrição: "Capuz é o rosto de quem luta na Unir".

O reitor caiu! Pela primeira vez, depois de muitos anos, o prédio da reitoria respira os ares da democracia.

Demais conquistas da greve

Hospital Universitário: O MEC aportará os recursos financeiros necessários à implantação do HU.

Restaurante Universitário: R$ 4,5 milhões de reais foram destinados para a construção do RU com capacidade para mil lugares. A licitação para definição da empresa responsável pela construção será lançada até 02/12/2011.

Aquisição de novos livros para a biblioteca: Os departamentos deverão apresentar a administração uma lista com os livros necessários para cada curso.

Contratação de técnicos: Até o final do ano, de forma emergencial, o MEC e a Reitoria lançarão o Edital para a contratação de 27 servidores técnicos administrativos em nível superior (arquiteto; engenheiro elétrico, civil e mecânico) e 13 servidores técnicos administrativos em nível médio.

Laboratórios de Informática: O MEC está realizando a compra de novos equipamentos de informática nas próximas semanas. Para o próximo ano, o Campus de Porto Velho, que conta atualmente com apenas um laboratório de Informática, passará a contar com quatro laboratórios. Cada campus do Interior também terá um Laboratório.


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