Prenúncio de um 2012 rebelde: 'aproxima-se a hora da verdade'

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Por toda a Europa as massas se levantaram em protestos radicalizados contra a ganância do capital. Em 2012 novos protestos se anunciam

No fim do ano, o monopólio internacional dos meios de comunicação, incluindo suas facções no Brasil, esmerou-se, em suas habituais retrospectivas sensacionalistas, na identificação dos heróis e demais personagens de destaque de 2011 segundo os critérios da cultura capitalista de massas. Mas, exceto o culto à personalidade por parte da imprensa burguesa de chefes imperialistas, de notórios gerentes oportunistas, e o incensamento de papagaios de pirata da direita e outros inimigos do povo trabalhador, a realidade é que as massas proletárias em rebelião e em franca luta contra os monopólios, os bancos e os Estados em crise foram as verdadeiras protagonistas do ano que ficou para trás.

O agigantamento dos protestos populares em 2011 foi notado especialmente nos países imperialistas e outras nações, até pouco tempo atrás, chamadas de "ricas". Nessas paragens, o proletariado vem sendo castigado por arrochos antes só vistos nas semicolônias do mundo sob intervenção do FMI.

Entre os países explorados da União Europeia, foi na Grécia — verdadeira semicolônia incrustada na zona do euro — onde o povo se insurgiu com maior vigor no último ano, levando a cabo um sem número de greves (um total de 15 greves gerais nos últimos dois anos) incrementadas com os maiores protestos anti-imperialistas das últimas décadas e ações classistas proporcionais ao tamanho do arrocho ao qual o FMI e o Banco Central Europeu tentam submeter o povo grego.

No dia 1º de dezembro aconteceu a primeira greve geral sob a gestão do novo primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, "tecnocrata" indicado pelo FMI e pelos bancos franco-alemães.

Na Grécia, a 'mãe de todas as greves'

Cerca de 20 mil pessoas marcharam em Atenas para protestar contra o aumento da carga fiscal sobre os trabalhadores e contra mais cortes nos já profundamente depreciados serviços públicos no país no âmbito do orçamento 2012, medidas que o novo gerenciamento grego tenta somar aos cortes de salários, de aposentadorias e às demissões promovidas ao longo de 2011, em uma contra-ofensiva que só não foi mais draconiana por causa da ininterrupta rebelião popular. O lema do movimento grevista de 1º de dezembro foi: "Aproxima-se a hora da verdade".

Na greve geral anterior na Grécia, levada a cabo nos dias 19 e 20 de outubro - a sexta greve geral de 48 horas no país desde que os gerentes gregos começaram a implementar as "medidas de ajuste" requisitadas pelo FMI e pela União Europeia -, as classes trabalhadoras, de braços dados com a juventude estudantil, marcharam ininterruptamente durante dois dias pelas ruas da capital Atenas e de várias outras cidades do país contra mais um "pacote de austeridade" que estava para ser votado naqueles dias no parlamento grego.

Como foi ao longo de todo o ano de 2011, com diversos episódios de enfrentamento com o corpo policial grego transformado efetivamente em polícia política a serviço, no fim das contas, dos bancos franceses e alemães credores da dívida ilegal e imoral usada como desculpa para levar ao limite a exploração e a opressão das massas trabalhadoras. Sobretudo a praça Syntagma, no centro de Atenas, em frente ao parlamento, foi palco de violentas escaramuças entre a horda repressiva e os bravos manifestantes em defesa dos seus direitos e do seu país.

Entre as medidas que foram aprovadas naquela feita no parlamento estava a suspensão das convenções trabalhistas que regem as relações patrão-empregado no setor privado, em benefício das empresas capitalistas.

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Na Inglaterra, a maior greve dos últimos 30 anos

No Reino Unido, o ano de 2011 acabou ainda sob o estremecer da maior greve dos últimos 30 anos no país, realizada no dia 30 de novembro, com a adesão de dois milhões de trabalhadores dos serviços públicos e mais de mil manifestações espalhadas pela ilha britânica. O estopim do movimento grevista foi a intenção do governo britânico de aumentar o número de anos de trabalho dos funcionários públicos para que eles possam se aposentar e aumentar o valor dos descontos na folha de pagamento para a aposentadoria.

A juventude britânica parece ter compreendido com especial clareza que seu lugar é na linha de frente das lutas das classes populares, enfrentando as forças de repressão do Estado burguês de braços dados com o proletariado para os duros combates com o capital. Do início ao fim de 2011 os estudantes promoveram retumbantes marchas de milhares de pessoas nas principais cidades da Inglaterra, movidos a princípio pela contrarreforma educacional que o chefe David Cameron tenta implementar, mas munidos de uma pauta de reivindicações que reflete a questão de classe no país.

No dia 10 de novembro de 2011 uma marcha estudantil reuniu 50 mil pessoas em Londres em uma jornada que culminou com uma corajosa invasão e ocupação da sede do Partido Conservador. No dia seguinte, em Manchester, cerca de 400 estudantes ocuparam a reitoria da universidade local.

Na Europa afundada na crise geral do imperialismo, o ano de 2011 foi de intensas lutas das massas proletárias também em países como Itália, Espanha, França e Portugal.

Protestos no epicentro da crise geral

Na Itália, as mobilizações populares contra a corrupção e a exploração capitalista, que vinham crescendo ao longo do ano, ganharam maior organização e vigor à medida que o ano foi chegando ao fim, quando se confirmou a intervenção branca do FMI e do capital franco-germânico no país, com direito à ministra italiana do Trabalho, Elsa Fornero, chorando lágrimas de crocodilo no dia 5 de dezembro ao anunciar os "sacrifícios" impostos aos trabalhadores do país. O prenúncio é de agigantados levantes populares em 2012 naquela nação.

Na Espanha, o ano de 2011 foi marcado pelo movimento dos indignados. Assolados pelo desemprego, jovens rebeldes ocuparam as principais praças das principais cidades do país, enfrentaram com bravura a truculência policial e levaram a cabo uma série de protestos coordenados denunciando a natureza farsesca do sufrágio parlamentar burguês, denunciando que ele serve apenas para o revezamento de oportunistas no gerenciamento do Estado para os monopólios, e mostrando que nenhum partido eleitoreiro representa as massas trabalhadoras.

Infelizmente o ano terminou com os indignados anunciando, justamente logo após mais uma farsa eleitoral na Espanha, a possibilidade de formarem um partido político para disputar eleições futuras.

No USA, epicentro da crise geral do imperialismo, os protestos de massa foram protagonizados pelo movimento Ocupem Wall Street, surgido inicialmente como protestos contra o capital financeiro em frente à Bolsa de Valores de Nova Iorque, mas posteriormente expandido para os quatro cantos do mapa ianque, de Los Angeles a Washington, de Dallas a Portland, de Chicago a Oakland, onde os protestos do "Ocupem" se mostram particularmente agigantados.

O movimento foi ganhando corpo tanto no número de adesões às manifestações, marchas e ocupações quanto no caráter de classe, tudo sob a frase-símbolo que hoje faz os financistas tremerem: "somos os 99%". Assustadas, as classes dirigentes do USA requisitaram forte repressão. O ano de 2011 terminou com mais de dois mil manifestantes presos no país que arrota "liberdade".

O ano em que a juventude chilena parou o país

Em abril do ano passado, milhares de jovens — na sua maioria estudantes — iniciaram uma combativa jornada de protestos contra o contínuo processo de privatização do sistema de educação chileno, inciado durante o regime militar dirigido pelo general Augusto Pinochet entre 1973 e 1991. O movimento exigiu uma série de reformas na gestão das universidades e tomou as ruas do Chile. Gigantescos protestos afrontaram o gerenciamento lambe-botas de Sebastián Piñera, que terminou 2011 com um ínfimo índice de aprovação de 26%. As manifestações — aproximadamente 40 em um ano —, na sua grande maioria, foram marcadas por batalhas campais entre estudantes e as forças de repressão do velho Estado chileno.

Para se ter noção do tamanho da mobilização popular no Chile em 2011, somente em uma ocasião, no dia 16 de junho, em regiões como Valparaíso — sede do congresso chileno, 120 quilômetros a oeste de Santiago — 90% das escolas e universidades paralisaram suas atividades. Sindicatos e organizações de professores uniram-se aos estudantes e engrossaram as marchas que, só na capital Santiago, reuniram mais de três milhões de pessoas de abril à dezembro de 2011.

Como durante o regime militar chileno, o gerenciamento Piñera declarou à imprensa que a Lei de Segurança do Estado — criada naqueles obscuros tempos — seria reativada para impor penas mais duras aos manifestantes presos. Mesmo diante dessa ameaça, 600 mil pessoas tomaram as ruas de Santiago no dia 26 de agosto — dia em que o decreto entrou em vigor — e desafiaram as tropas do Estado reacionário. Um jovem de 14 anos morreu depois que a polícia atacou com violência manifestantes e até jornalistas. No mesmo período, uma greve geral parou o país, a primeira desde o fim do regime militar fascista, em 1991.

Mas não pense que a luta do povo chileno chegou ao fim. No final de novembro e início de dezembro, grandes protestos foram realizados por estudantes, professores e outros trabalhadores em Valparaíso e na capital, nos arredores da Universidade de Santiago. Mais uma vez, manifestantes entraram em confronto com a polícia e várias pessoas foram presas.


Imigrantes se levantam na Inglaterra e USA

Em abril de 2011, milhares de imigrantes tomaram as ruas do USA exigindo a reforma das leis de imigração ianques e defendendo o boicote à aprovação de uma lei pelo estado do Arizona que prevê a prisão de estrangeiros que estiverem circulando sem documentos. A lei também autoriza a polícia a prender durante seis meses e a  punir com uma multa de 2,5 mil dólares um imigrante ilegal.

No dia 29 de julho, um grande protesto percorreu as ruas da capital do Arizona, Phoenix, exigindo a revogação da lei. Carregando bandeiras do México, a manifestação dos imigrantes encontrou a polícia em frente ao prédio onde trabalhava, na época, o xerife Arpaio, grande entusiasta da lei anti-imigrantes. O militar mandou que a polícia atacasse o protesto. Manifetantes reagiram com pedras e paus e 37 deles acabaram presos.

Na Inglaterra, massas de imigrantes tomaram as ruas em combativos protestos depois do assassinato do jovem negro Mark Duggan por tropas de repressão do Estado inglês em Tottenham, um dos bairros mais pobres de Londres. As manifestações foram violentamente reprimidas pela polícia e, mesmo assim, apenas três dias após o assassinato do jovem Mark, a rebelião se espalhou, atingindo o norte e o sul da capital inglesa. Nas semanas seguintes, novos confrontos resultaram na prisão de 226 pessoas em violentos choques entre imigrantes de diversas regiões do mundo e as tropas da polícia inglesa.


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