A greve e o oportunismo eleitoral

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Trabalhadores em greve nas obras do PAC em Suape (PE), setembro de 2011

A greve, mesmo em seus limites enquanto luta reivindicativa, é arma que mostra que a classe operária organizada pode tudo. A greve é uma batalha na qual milhares de operários lutam contra a ganância de uma meia dúzia de grandes burgueses que se empenham em mantê-los trabalhando com o máximo de arrocho salarial. E, desde quando, há mais de 160 anos, foi lançado o programa científico da revolução proletária, a greve configurou-se como a grande escola onde o proletariado se educa para este grande combate. Ademais de ser este instrumento, por excelência, da luta operária, a greve serve da mesma forma a todas as demais classes trabalhadoras.

As classes trabalhadoras brasileiras, apesar dos sérios prejuízos de uma quase constante influência reformista em suas lutas, já deram grandes demonstrações de unidade e força contra seus inimigos como, por exemplo, a greve geral de 1953 em São Paulo, as greves de Contagem e Osasco em 1968 e as greves do ABC paulista no final da década de 1970.

2011 foi marcado, nacionalmente, pela eclosão de um sem número de greves que fizeram tremer os patrões e o gerenciamento de turno. Os trabalhadores da construção civil, principalmente nas obras do PAC como Maracanã, Mineirão, Suape, Santo Antonio e Jirau, os rodoviários, professores (com destaque para os mais de cem dias de greve dos professores mineiros), servidores públicos federais, estaduais e municipais, inclusive policiais militares, civis e os bombeiros do Rio de Janeiro, deram demonstração de grande firmeza ao sustentarem dias e dias de paralisação na busca de seus direitos. As greves estudantis nos deram grandes lições ao realizarem ocupações dos prédios das reitorias, conquistando vitórias memoráveis como foi a greve de 70 dias dos estudantes da Universidade Federal de Rondônia, que só terminou com a retirada do corrupto e reacionário reitor.

2012, também, teve início sob o signo da greve, já que cabos e soldados da polícia militar do Ceará viraram o ano com uma paralisação quase total de suas atividades em todo o estado. No início de fevereiro os policiais militares da Bahia repetiam seus colegas cearenses deflagrando uma greve estadual enquanto os PMs e bombeiros cariocas realizavam uma grande passeata anunciando para breve a sua greve. Na área dos servidores municipais tivemos a greve dos servidores da saúde de Curitiba, que já se encontravam paralisados desde dezembro do ano passado, enquanto seus colegas de Fortaleza realizavam assembléias com o mesmo objetivo. Em termos de classe operária foram os trabalhadores da construção civil de Teresina que fizeram frente ao patronato e sua justiça ao deflagrar uma greve geral da categoria.

O gerenciamento do Estado a serviço do capital

O gerenciamento oportunista, à frente do velho e podre Estado brasileiro, com seu também apodrecido judiciário, mesmo limitando o direito de greve e tentando impedir que ele seja exercido, proibindo paralisações em várias atividades denominadas essenciais, estabelecendo o corte de salário por dias parados e multa para os sindicatos e até para os grevistas, não conseguiu fazer parar a maré montante do movimento grevista. A persistência das greves, apesar de tantos obstáculos e da sistemática repressão é, por si mesma, o desmascaramento da guerra publicitária de que ‘a vida do povo está melhorando’.

A onda de retirada de direitos desencadeada pelo conluio do oportunismo com a grande burguesia e o imperialismo, mais o arrocho salarial, principalmente no setor dos serviços públicos, são o caldo de cultura que aponta para um 2012 convulsionado por greves, com manifestações e ocupações. Inclusive porque os efeitos da crise mundial, que têm desde o ano passado derrubado as economias europeias, exigirão mais sangria das colônias e semicolônias, entre as quais se destaca o Brasil, por ser delas a que apresenta um capitalismo burocrático com maior impulsionamento, graças a sobrevida alcançada pela presença petista no seu gerenciamento. Esta é, portanto, a base objetiva para o desenvolvimento de uma situação revolucionária em nosso país.

Ousar lutar, ousar vencer

Os trabalhadores têm enfrentado, além do patronato e seu Estado, os agentes do inimigo em seu meio, representados pelas centrais sindicais pelegas e chapa branca. Elas desenvolveram e aplicam a política de colaboração de classe, arrastando os sindicatos de sua base para acordos espúrios e até para se colocarem contra o próprio movimento, como aconteceu recentemente com a greve dos professores municipais de Goiânia. Ali, o Sintego realizou todo o tipo de manobras para liquidar o movimento, no que foi atropelado pelo comando de greve, que adquiriu autonomia na condução do movimento frente ao peleguismo da entidade que deveria representar os interesses da categoria. Fatos como estes ocorreram em vários estados como o Ceará, por exemplo, onde a Apeoc-Sindicato amarelou, e em categorias como a dos Correios, quando o acordo selado com o governo pela direção nacional foi desautorizado pela base.

Assim, as categorias que têm ousado desafiar tanto os patrões quanto o Estado com sua justiça e sua polícia e atropelando o peleguismo, têm obtido vitórias mais expressivas em suas lutas. Isto tem colocado como uma das tarefas do movimento grevista varrer com os pelegos e oportunistas encastelados no movimento sindical brasileiro. O peleguismo e todo o oportunismo são uma camisa de força e uma fonte de obstáculos para o desenvolvimento das lutas das classes trabalhadoras.

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As greves de ocupação

A classe operária aprendeu que ao cruzar os braços e parar as máquinas a fábrica deixa de produzir e a partir deste momento o patrão deixa de extrair mais valia. Esta atitude irá se refletir na redução dos lucros da empresa e, assim, o patrão é obrigado a negociar com os trabalhadores parados, depois de chamar a polícia e todos intentos para obrigar os operários a retomarem a produção. Desde quando os operários descobriram a greve como forma de luta, os piquetes nas portas de fábrica tornaram-se o método usual de buscar a adesão do conjunto da categoria. Em situações mais radicalizadas os operários ocupam a empresa e assumem o total controle das máquinas paradas.

No caso dos serviços públicos, a sua paralisação afeta diretamente a sociedade e dentro dela aqueles que não dispõem de recursos para contratar serviços particulares, ou seja, a grande maioria dos próprios trabalhadores. Quando isto ocorre, muitas vezes, a população, sob o efeito da desinformação produzida pela máquina de propaganda do Estado, se volta contra os professores, funcionários da saúde, policiais etc., e o movimento se isola diante da falta de solidariedade dos usuários daquele serviço público. Sentindo a pressão, muitos trabalhadores voltam ao trabalho provocando o esvaziamento da greve.

A solução desta contradição está, em primeiro lugar, em garantir o apoio da população e principalmente dos usuários diretos daquele serviço, seja escola, posto de saúde, etc., através de sua convocação para dentro das instalações onde os serviços são prestados para receberem as explicações sobre os motivos da paralisação e aproveitando o ensejo para mostrar, in loco, as deficiências e o descaso dos gerentes de plantão em relação àquele serviço tão essencial para o povo. Em segundo lugar, promover o maior desgaste possível à imagem do gerente de turno (pois esta faz parte de seu capital) colocando a nu sua condição de mero representante dos grandes burgueses, atendendo todas as suas exigências, enquanto que ao povo destina apenas migalhas do que arrecada. É preciso deixar claro o caráter de classe do Estado e mostrar para a população que enquanto este perdurar, não importando que tipo de gente faça o seu gerenciamento, este seguirá sendo o Estado das classes exploradoras e o povo não terá serviço público à altura de suas necessidades.

Neste caso a greve de ocupação se torna um imperativo para assegurar a politização do conjunto da categoria e dos usuários daquele serviço, dos pais e alunos, por exemplo, quando se tratar de greve dos professores.  Manter o estabelecimento em assembléia permanente e o comando com o controle de seu funcionamento, desenvolvendo atividades especiais com os alunos, com os pais e com os demais setores organizados do bairro como associação de moradores, clubes de mães, igrejas, associações comerciais, etc..

Assim como os gerentes de turno que devem ser desgastados e desmascarados frente à categoria e à população em geral, toda e qualquer tentativa de usar o movimento como trampolim eleitoral deve ser denunciada e isolada. Este é um momento em que os oportunistas usam de toda a sua demagogia para tirarem proveito eleitoreiro e assim tem sido de forma recorrente, acarretando ao final, as seguidas derrotas que os trabalhadores têm sofrido.

O oportunismo e as greves eleitoreiras

É comum nos anos de realização de eleições certas entidades desencadearem processos grevistas, menos para resolver as carências de sua base e mais com a finalidade de projetar determinadas figuras para lançá-las como candidatas a postos eletivos. Por sinal esta era uma característica do petismo antes de assumir o gerenciamento do Estado brasileiro e continua nos municípios e estados em que eles estão fora do gerenciamento. O que menos interessa em sua demagogia é resolver os problemas enfrentados pelos trabalhadores, seu interesse maior é eleger seus representantes para os vários cargos e a partir deles centuplicarem sua demagogia enquanto justificam toda repressão quando se trata da responsabilidade de seu partido no gerenciamento do Estado.

Os recentes acontecimentos do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, em que o povo pobre foi mais uma vez vitimado pelo Estado fascista, deram realce a esta modalidade nociva de oportunismo no movimento sindical e no movimento popular de um modo geral, no caso, aquele que se insinua como oposição para tirar dividendos eleitoreiros. Participantes contumazes da farsa eleitoral se juntam ao partido único no esforço de dar sobrevida a esta decrepitude que é o Estado brasileiro.

PSTU e PSOL, dos quais a Conlutas é o seu braço sindical, promovem verdadeiras encenações para as massas e na hora H deixam-na “penduradas na brocha”. Na verdade, eles conciliam com este Estado e alimentam muitas ilusões com o gerenciamento petista. Isto faz com que todo seu discurso demagógico e eleitoreiro se torne vazio por não ter a correspondência prática quando se trata de preparar as massas para o enfrentamento. O resultado da vacilação centrista é a derrota para os trabalhadores e o povo.

Assim, para ser vitorioso, o movimento deve afastar os oportunistas e carreiristas do comando de greve, promovendo lideranças classistas e comprometidas com o desenvolvimento da luta não apenas em torno de suas reivindicações imediatas, mas, também, de mobilizar, politizar e organizar as massas com a finalidade da conquista do poder político para os explorados.


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