Canaã produz e resiste há onze anos

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Após horas de viagem cheguei ao Assentamento Canaã. Impossível esconder os olhos surpresos diante de uma paisagem tão exuberante. A vegetação era tão verde que era difícil acreditar naquela cor e, como uma verdadeira ignorante em assuntos da terra, perguntei várias vezes se aquele verde era assim o ano todo.

Havia chegado ao fim da tarde. Na casa onde fiquei alojada as roupas recém-lavadas se estendiam pela varanda e pelo quintal. A dona da casa se revezava entre lavar e cozinhar nosso jantar. Revezamento que só era possível graças à modernidade doméstica da máquina de lavar. Inocentemente pensei "ainda bem que existe energia elétrica". Minha inocência começou a acabar poucas horas depois, quando o motor a óleo que gera a energia da casa foi desligado. Pela manhã, quando comecei a visitar os lotes, descobri que na grande maioria deles não havia nenhum tipo de geração de energia e os trabalhos, tanto doméstico quanto o da terra, eram muito mais pesados do que eu imaginara. Segundo os camponeses, a área não pode receber energia elétrica enquanto não houver uma decisão do Incra favorável a eles. O projeto para o abastecimento de energia já estava pronto, mas foi embargado judicialmente pela suposta proprietária da área.

De lote em lote, de plantação em plantação, eu ficava cada vez mais surpresa. Não conseguia acreditar que pudessem produzir tanto com tão pouco. Os camponeses possuem poucos instrumentos de trabalho elétricos, mas muita imaginação, e criaram instrumentos manuais para auxiliar no trabalho. Em praticamente todos os 126 lotes, o que vi foi o mesmo: milhares de pés de café, banana e cacau. Mas eles também produzem arroz, feijão, milho, mandioca, amendoim, batata, leite, criam peixes e ensinam os filhos a crescer com o trabalho duro e honesto.

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Em Rondônia, há uma imensa propaganda contra os camponeses. A imprensa burguesa se cansou de noticiar, após o assassinato de Renato Nathan Gonçalves, que os camponeses organizados na Liga dos Camponeses Pobres eram criminosos e guerrilheiros. O que conheci lá foram homens e mulheres que estavam lutando pela construção de uma vida nova, como Maria Lúcia Santos Silva:

— Nós queremos ficar em paz e trabalhar. Aqui temos plantações de cacau, café, banana, arroz, etc. Vão tirar a gente daqui para quê? Para ir para cidade e ficar sem emprego, sem casa? A gente tem que ficar aquí, ter a vida da gente sossegada, trabalhar a terra, isso que é a minha felicidade, meu sonho, e nós vamos lutar com unhas e dentes para conseguir isso. São onze anos de luta e agora eles vêm querendo tirar a gente daqui. Mas nós vamos lutar até o fim, não vamos sair daqui.

E a convicção de todos os camponeses é a mesma: seguir lutando e trabalhando, pois eles têm muito a perder com o despejo:

— Eu fico revoltado porque são mais de dez anos de investimento, construindo a casinha, furando poço, fazendo tudo praticamente sozinho. Eu tenho muito amor nessa terra. O cacau é o meu amor. Eu tenho uns 1500 pés de cacau aqui – conta o Senhor Otávio Gonçalves da Silva, enquanto me mostra sua plantação e me faz provar o cacau produzido em seu sítio.

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