Um canto para sambar no Rio

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Centro Cultural Carioca une boa música e dança para preservar o que existe de melhor do ritmo brasileiro

Um sobrado no centro do Rio de Janeiro já se tornou ponto de referência para quem gosta de samba e boa música. Quem frequenta o Centro Cultural Carioca sabe que ele é diferente das diversas casas de samba e choro do centro do Rio. Essa diferença tem por nome Cia. Aérea de Dança — projeto surgido no Circo Voador há 17 anos e que seguiu carreira solo fazendo espetáculos, ensinando dança e promovendo bailes na rua Sete de Setembro. Professores da Cia., Mariana e Isnard, viram um prédio abandonado na Rua do Teatro e resolveram realizar ali o sonho de um espaço cultural multiarte. O dinheiro veio por empréstimo de uma aluna e a reforma contou com todas as mãos da Cia. e algumas outras contratadas. Inicialmente, não tinham idéia exata do que se faria no espaço, mas sabiam que seria um Centro Cultural que envolveria outras artes além da dança. E precisaria ser especial, privilegiando a cultura mais autêntica, não só carioca, mas, brasileira.

Abriram na cara e na coragem , com uma estrutura completamente familiar onde todos participam de tudo um pouco. Mariana, quando não está no palco, atende no balcão; Sérgio, irmão de Isnard, construiu as caixas de som da casa; o terceiro irmão, Fábio, cuida da área comercial; a cozinha fica por conta da mãe de Isnard — e o público agradece esse ambiente tão carinhoso.

Com uma linha bem definida na programação, o espaço privilegia o samba, mas não se fecha para outros ritmos, como o forró e vertentes pop. Tem como atração fixa a mais nova revelação carioca: a cantora Tereza Cristina, que já recebeu diversas canjas, entre elas de Paulinho da Viola e Marisa Monte. As fotos e o lançamento do CD de Tereza Cristina foram feitas no Centro Cultural.

Cristina Buarque é outra cantora que volta e meia se apresenta lá, assim como Nei Lopes. Segunda-feira é a noite da música instrumental, que já recebeu como convidados Sivuca e Hermeto Pascoal. No projeto Novo Som, o Centro Cultural abre as portas para novos nomes da música. A programação já está agendada até agosto e a curiosidade é a apresentação da cantora Zélia Duncan, às quartas-feiras, com repertório de compositores antigos.

Aos sábados Mariana Baltar sobe no palco para interpretar Assis Valente, uma de suas grandes paixões, Geraldo Pereira e outros. Ela conta que Assis Valente surgiu na sua vida através do marido de uma aluna da Cia. Aérea, que a presenteou com uma biografia do compositor. "Acho que ele é a síntese dos compositores brasileiros de uma determinada geração, que sofreram muitos preconceitos e foram geniais." E como não se comover com a história conturbada de um compositor sensível, com várias profissões, excelente em tudo que fazia e tentou o suicídio duas vezes — na primeira, se atirou do morro do Corcovado, na segunda, cortou os pulsos — e que acabou por se matar bebendo formicida? Assis foi um dos maiores cronistas de sua época, abordando em suas músicas as preocupações, paranóias ou simplesmente os novos hábitos do carioca dos anos 30/40.

Depois de se apaixonar pela biografia, começou o trabalho de pesquisa, com visitas ao Museu da Imagem e do Som, para conhecer as músicas que — tirando as mais famosas, como Uva de caminhão, ...e o mundo não se acabou, Brasil pandeiro, etc. — quase ninguém conhecia, até fazer contato com a filha do compositor, Nara, que lhe forneceu partituras.

Estranha sempre que lhe perguntam por quê da opção pelo samba. Criada em Copacabana, numa família de classe média, não tem como explicar a paixão pelos ritmos brasileiros. Durante o período que morou no Recife fez aulas de forró. Aos 15 anos fez aula de dança de salão e começou a frequentar gafieiras (Estudantina e Elite), o Circo Voador e foi a clubes do subúrbio do Rio para aprender com as pessoas a essência da dança do samba. "Quando me perguntam porque não canto Bossa Nova, por exemplo, digo que minha voz e meu timbre me permitem cantar qualquer coisa, porém o que quero fazer é exatamente o que faço agora."

Durante o período das obras no sobrado, surgiu uma grata revelação: naquele prédio funcionou, até os anos 60, o Dancing Eldorado, onde se apresentaram artistas como Ciro Monteiro, Elizeth Cardoso (antes de ir para o Dancing Avenida) e Pixinguinha. Foi naquele salão que Braguinha ouviu pela primeira vez um choro de Pixinguinha, que já estava gravado em versão instrumental, e resolveu pôr letra: Carinhoso. Um dancing era um salão com dançarinas profissionais que usavam um cartão que era furado pelos fregueses. No dia da inauguração do Centro Cultural, um dos convidados se emocionou no salão: ele foi frequentador do Dancing Eldorado e contou que aquele foi o primeiro a ser frequentado por casais e família, sendo o precursor das gafieiras. Para o show de Mariana, a partir deste mês, ela criou uma abertura que homenageia o Dancing Eldorado, com apresentação de dança, e citando os artistas que nele se apresentaram.

O primeiro andar do sobrado só será aberto este mês, com algumas turmas de dança que foram transferidas da rua Sete de Setembro, e espaço para exposição. Durante este período em que funcionava só com o segundo andar receberam diversas propostas de aluguel, até mesmo para abrir um restaurante. Porém, foram todas rejeitadas, à espera do momento oportuno de completar o projeto inicial.


A dança como forma de preservação da cultura brasileira

Mariana Baltar canta e dança no Centro Cultural Carioca

Em 1985 o Circo Voador, uma espécie de centro cultural localizado na Lapa, RJ, criou diversos projetos intitulados Cias. Aéreas: de Teatro, Canto Coral e Dança. Só a de dança vingou, e criou autonomia com a direção de João Carlos Ramos. Mariana Baltar entrou na companhia por volta de 1988, e desde então dá aulas de dança, em especial de Dança de Salão. Pela formação em Dança Contemporânea, os professores da Cia Aérea dão enfoque diferenciado às aulas, introduzindo técnicas de improvisação e alongamento, e trabalham as aulas de dança como porta de entrada para a boa música — forma de preservação do patrimônio cultural brasileiro. Os principais ritmos ensinados na Dança de Salão são o bolero, o suingue e o samba, que é o xodó dos professores e alunos. Nas aulas de samba aprende-se as variações: choro, samba-canção, partido alto e bossa nova. O cuidado com informação musical e cultural dos alunos leva o grupo a ensinar, dentro das limitações inevitáveis, a música e alguns passos de Maxixe. "Existem poucos registros e pessoas que saibam dançar Maxixe. Conheço um vídeo com um bailarino dançando, mas sei que existe uma série de movimentos mais ricos que são descritos em livro, o que fica difícil de reproduzir", diz Mariana.

A Cia. também prepara workshops de fim de semana sobre danças populares quando, então, são trabalhadas o Jongo, o Coco, a Ciranda, o Frevo, o Maracatu, e outras. "Não conheço o Jongo tanto quanto eu gostaria e tenho pensado em fazer aula, eu mesma. Conheço uma professora, a Duda Maia, que só trabalha com ritmos populares e de vez em quando nós vamos lá fazer um Frevinho, uma Ciranda...

As danças se transformam muito, mas é importante diferenciar o que é evolução — que se baseia nas origens da dança — do que é deturpação. O samba, hoje, tem alguns passos do tango; já este não tem nenhum passo do samba. O argentino é tido como arrogante, mas ele impõe sua cultura. Por que tem show de tango pelo mundo inteiro e não tem de samba? No Brasil você vê muito é bate-bunda.

A dança tem um poder muito forte, e creio que se alguém puder associar o samba música com a boa dança do samba, puser no palco e viajar com uma produção maior, divulgaria a cultura da gente de uma forma que as pessoas nunca viram. Quando a Cia. viajou com um espetáculo só de samba, as pessoas ficaram, por um lado, extremamente decepcionadas, pois esperavam pluma, paetê e bunda de fora; por outro, encantadas porque viram algo que não conheciam. O espetáculo fazia menção ao mestre-sala, à porta-bandeira, ao passista, mas não era um show de variedade , era um espetáculo. Por que não tem um musical brasileiro de samba, que fique em cartaz no João Caetano um ano? Eu acho que iria arrebentar. E eu quero estar nesse projeto. A gente tem que romper ainda algumas barreiras, e no meu show já começo a fazer isso: cantar e dançar. Quem sabe se a gente não consegue um apoio, bota um palco na rua e faz uma apresentação da Cia. Aérea com música ao vivo? Acho que a gente pode ir caminhando, sem custos astronômicos; começar pequenininho e crescer", conclui Mariana.

A Cia. Aérea de Dança promove bailes todas as sextas-feiras das 12:30 às 15:00 e das 17:30 às 24:00, com música mecânica, e, diferente de outras escolas de dança, aberto para o público, com ingresso a R$2,99. A Cia. fica na Rua Sete de Setembro 237, 3º andar, Centro, Rio de Janeiro.

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