O monumento ausente

A- A A+

Quem desembarca na estação das barcas, em Niterói, não pode deixar de notar uma grande estátua de Araribóia, chefe dos temiminós e grande colaborador dos invasores portugueses. Do outro lado da Baía de Guanabara, porém, não há nenhum monumento ao grande líder da Confederação dos Tamoios, Aimberê, cuja bravura e gênio militar chegou a ameaçar a existência da colônia portuguesa no Sul do Brasil.

Ao contrário de Aimberê, primeiro herói nacional, Araribóia, índio que colaborou com os portugueses, tem estátua com sua imagem em Niterói, RJ

A Confederação dos Tamoios foi a primeira experiência de uma frente ampla contra a invasão portuguesa ao Brasil, ocorrida no ano de 1500. Este movimento reuniu, além de índios tupinambás, que eram maioria, os membros das tribos goitacazes, aimorés e outras menores na área litorânea que vai de Bertioga (São Paulo), até Cabo Frio (estado do Rio).

A origem do nome da Confederação é uma homenagem a uma pequena tribo, da nação dos tupinambás, que tinha esse nome e era muito lutadora e cheia de malícia, bastante sacrificada na luta contra os invasores, em razão da resistência oferecida aos peros, como eram conhecidos os portugueses pelos índios. Deu-se então seu nome ao movimento que agrupou várias tribos, além do fato de Tamoio também significar "dono da terra".

A falta de uma estátua ou homenagem do tipo a Aimberê, na cidade do Rio de Janeiro, constitui uma injustiça tremenda. Ele é, sem sombra de dúvida, o primeiro e um dos maiores heróis nacionais. Sua luta contra os invasores lusos é inesquecível. Conhecer sua história é conhecer o espírito guerreiro de todo nosso povo.

Algumas cidades, como São Paulo, homenagearam Aimberê, colocando seu nome em ruas, e outras, no litoral, reconhecem a importância da Confederação e de seu primeiro líder, Cunhambebe.

Aimberê foi o grande articulador político, visitando os chefes de tribos, convocando-os para uma reunião na ocara1 da Gávea (RJ), em 1563. Ali foram discutidas questões relacionadas ao problema da chefia e os planos de guerra. Entre os líderes presentes figuravam vários tupinambás como Pindobuçu, Coaquira — da região de Ubatuba —, Jagoanharó, Cunhambebe, Araraí e Parabuçu, e era natural que o chefe fosse dessa nação. Aimberê propôs que a chefia fosse entregue a Cunhambebe, que vivia com sua tribo na região de Angra dos Reis e era o mais experiente e feroz inimigo dos peros. Os demais chefes concordaram, apesar de preferirem Aimberê à frente. A primeira tarefa do novo chefe foi conferenciar com Villegagnon, que havia acabado de chegar para estabelecer a França Antártica, e parece que esse encontro teve resultado positivo, uma vez que, posteriormente, foram encontrados canhões na aldeia de Angra dos Reis.

Cunhambebe, porém, ficou pouco tempo na liderança. O herói de tantas batalhas contra os invasores não morreu combatendo aqueles que tentavam escravizar seu povo. Uma epidemia de peste acometeu a sua aldeia, levando muitos e, entre eles, o velho chefe.

Assim, nova reunião foi convocada e Aimberê foi aclamado unanimemente chefe da confederação. Na ocasião foi também discutida uma ação de grande envergadura que iria popularizar ainda mais a Confederação dos Tamoios.

Em encontro posterior, convocado por Coaquira, o mais velho entre os chefes, este fala de paz; não uma paz covarde, mas aquele certo recuo devia estar relacionado ao extremo cansaço de todos. Porém, Aimberê usa a palavra e também fala de paz, mas diz que esta só seria conseguida quando a Confederação se tornasse uma força indestrutível e temida pelos portugueses. Aprovada tal proposta, foram enviados emissários a todas as tribos ao norte e ao sul, com convites para seu ingresso na confederação. A tarefa mais difícil ficou a cargo de Jagoanharó, que ficou encarregado de convencer seu tio, Tibiriçá, chefe dos guaianazes, a integrar a confederação.

Tibiriçá era também um velho chefe que havia se convertido ao catolicismo pelos jesuítas; se vestia à moda européia e se tornara colaborador dos portugueses. Jagoanharó é bem recebido pelo tio, que ouve os planos de um ataque massivo dos tamoios e sugere que este seja desfechado duas luas após, sem, no entanto, afirmar que concordava com a ação. Voltando, Jagoanharó submete a sugestão de Tibiriçá ao Conselho da Confederação. Apesar das dúvidas sobre a sinceridade da proposta, ela é aprovada.

No dia aprazado, partem os combatentes tamoios, tendo à frente Aimberê, que tinha como auxiliares Parabuçu, Guaixirae, Okijuba e Cunhambebe II, este último chefiando uma coluna de goitacazes e aimorés. Quando chegam ao lugar combinado encontram Tibiriçá, que vem como vanguarda dos portugueses para dar combate aos Tamoios. Jagoanharó é abatido pelo tio, traidor de seu próprio povo.

Neste ataque, a estratégia de Aimberê consistia em atrair os peros para o litoral e cansá-los na perseguição, deixando-os a descoberto e ao alcance das flechas. E assim aconteceu. A vitória foi completa, flechas e tacapes atingiam o alvo infalivelmente, tendo morrido Tibiriçá e Fernão de Sá, filho do governador-geral, Mem de Sá, que era um dos chefes portugueses na batalha.

Os portugueses de Piratininga, assustados com a derrota, apesar da superioridade em armas, ansiavam pela paz com os tamoios, e apelaram para seus amigos jesuítas, que os acudissem nessa hora de desespero. Assim, partem Nóbrega e o Padre Anchieta para conferenciar com o Conselho da Confederação, na intenção de negociar uma paz entre nativos e invasores. Os tamoios odiavam tanto os portugueses que, ao saberem que os padres eram dessa nacionalidade, recusaram qualquer entendimento. Porém, Coaquira, um chefe prestigiado e que simpatizava com os jesuítas, convenceu os demais chefes a comparecer à conferência.

Os falaciosos religiosos diziam que os portugueses queriam a paz definitiva e não descumpririam a palavra dada por sua iniciativa. Os tamoios exigiam, para a paz, que os líderes indígenas traidores fossem entregues à confederação e que todos os índios tornados escravos pelos portugueses fossem libertados. Os Jesuítas pedem então para conversar com as autoridades portuguesas, já que não poderiam decidir sobre essas condições.

Aimberê decide então que irá negociar com os portugueses em São Vicente, mas que o s jesuítas ficariam como garantia de sua volta. Além de negociar a paz, Aimberê também desejava encontrar e libertar sua noiva, Igaraçu, que havia sido aprisionada e feita escrava em uma fazenda.

Os portugueses exigiram a presença de Nóbrega e Anchieta, mas Aimberê respondeu não confiar na palavra dos peros, que sempre a descumpriam. O impasse foi resolvido com o retorno de um dos padres, Nóbrega, que finalizou as conversações, fazendo-se a paz.

Os chefes indígenas que haviam lutado ao lado dos portugueses, como Tibiriçá e Caiubi, haviam morrido, restando a libertação dos índios feitos escravos, o que foi feito pelo próprio Aimberê, que regressava ao local da reunião com os jesuítas. Igaraçú, sua noiva, fora libertada no momento em que era chicoteada por Heliodoro Eoban, que foi preso, junto com sua família e apresentado a Aimberê, que o libertaria depois.

Durante a expedição que libertou os índios, Aimberê notou que a estrutura de defesa dos portugueses não resistiria a um ataque massivo dos tamoios. Os portugueses ficaram revoltados com a paz, pois assim não teriam mão-de-obra para as fazendas, uma vez que era mais fácil, nessa época, escravizar os índios que importar negros da África.

No período de paz, que durou um ano, a confederação, com a ajuda de franceses, desenvolveu a produção de tecidos em teares manuais, principalmente na aldeia de Uruçumirim (praia do Flamengo), e a criação de bovinos e equinos. As matrizes e primeiros teares foram conseguidos com os integrantes da aventura colonialista francesa da França Antarctica, que chegava ao fim. Alguns franceses, no entanto, permaneceram no Brasil para viver com os tamoios.

Após esse ano de trégua, os apresamentos de indígenas recomeçaram com maior intensidade, extinguindo a possibilidade de coexistência pacífica na colônia. Centenas de índios foram capturados e levados para o planalto como escravos. E esse ano de paz foi aproveitado pelos portugueses para reforçar e aumentar o seu exército. Homens, armas e munições foram trazidos de Portugal. Sabendo disso, os tamoios preferem utilizar outra tática: patrulhas ao invés de colunas. A guerra seria feita de acordo com as possibilidades e conveniência dos tamoios; o mínimo contra o máximo. Os homens se embrenhavam nas florestas e, à noite, saltavam sobre os engenhos e fazendas de portugueses para destruí-los, juntamente com os que os defendiam. Pelo curso do rio Paraíba, os tamoios seguiam em embarcações repletas de guerreiros, escolhendo o melhor lugar para atacar, semeando o pânico entre os lusos. Estácio de Sá acabava de chegar de Lisboa com uma frota de galeões bem armados, disposto a ocupar o Rio de Janeiro. Araribóia, aliado dos portugueses, chefiando os índios temiminós, que trouxera do Espírito Santo, seria a vanguarda dos portugueses, durante o desembarque da tropa. Posteriormente, Araribóia receberia a sesmaria de Niterói pelos serviços prestados a Portugal e seria batizado, pelos jesuítas, de Martim Afonso de Sousa, mesmo nome do português que desembarcou no Brasil em 1530. Conhecendo a bravura de Aimberê, Estácio de Sá queria reunir a maior força possível. juntou, então, homens de São Vicente e da Bahia, levando mais um ano nesse trabalho de arregimentação.

Algumas escaramuças entre pequenos grupos de tamoios e missões de reconhecimento portuguesas deram a falsa impressão de vitória sobre os peros, mas não era assim que pensava Aimberê. Ele sabia que os portugueses já estavam satisfeitos com o reconhecimento feito e que voltariam em breve.

Alguns navios franceses chegaram a Cabo Frio e Aimberê enviou seu genro Ernesto, francês, conhecido como Guaraciaba (cabelo de fogo), como emissário para convencer os mairs, como eram conhecidos os franceses pelos índios, a unirem suas forças com os tamoios. Os franceses concordaram, já que sabiam ser impossível voltar a comerciar com os índios se os portugueses saíssem vitoriosos, e estabeleceu-se o plano: os franceses entrariam pela Baía da Guanabara com suas naus, enquanto os índios atacariam com aproximadamente 160 canoas e 1.500 guerreiros.

O ataque, no entanto, foi frustrado. As defesas portuguesas eram mais sólidas do que imaginavam os tamoios; os navios franceses eram facilmente rendidos, o que obrigou Aimberê a desviar uma parte de suas canoas em defesa dos aliados.

Nesse ínterim, os tamoios foram obrigados a recuar, fato que foi aproveitado pelos invasores. Eles empreenderam uma grande ofensiva, destruindo as aldeias, queimando as habitações e aprisionando grande contingente de indígenas.

A vantagem dos tamoios nos combates corpo a corpo e de surpresa se viu anulada pela superioridade em armas dos invasores e a mudança para uma guerra de posição extremamente desfavorável à Confederação. Os tamoios ficaram reduzidos a uma estreita faixa de território, que ia da Carioca até o Paranapuan (atual Ilha do Governador), onde resistiram ainda por mais um ano.

Enquanto os portugueses basearam-se na área do morro Cara de Cão, próximo ao Pão de açúcar, Aimberê pensou fortificar a aldeia de Uruçumirim, na intenção de vencer os invasores pelo cansaço, resistindo indefinidamente, o que não era correto, já que os portugueses estavam constantemente recebendo reforços, armas e munições. Nesse caso, o tempo não contava a favor dos tamoios, mas dos invasores.

Mem de Sá resolve vir em auxílio de seu sobrinho Estácio, e une sua frota à que já se encontrava na baía, formando uma força impossível de ser vencida pelos tamoios. Sabedor disso, Aimberê reúne seus comandados e resolve defender sua terra até a morte, dispensando os aliados franceses para fugirem, se quisessem salvar sua vidas, mas todos resolvem lutar e morrer como tamoios.

Uruçumirim resistiu heroicamente por 48 horas ao assédio das forças grandemente superiores de Estácio de Sá. Ao final, no dia 20 de janeiro de 1567, sobraram as cinzas. Os chefes estavam mortos, desapareceram gloriosamente, escrevendo uma das mais belas páginas da história das lutas populares do Brasil.


1 Praça no centro da aldeia indígena

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Mário Lúcio de Paula
Ana Lúcia Nunes
Matheus Magioli
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira