Capoeira: O estilo brasileiro de luta

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De toda a discussão travada sobre as origens da capoeira, o certo é que essa luta brasileira foi desenvolvida pelo povo pobre, iniciando com os escravos, nas senzalas e quilombos, para defenderem-se dos capitães do mato, mais tarde, das polícias, num processo de transformação e aperfeiçoamento. Por um longo período, sua prática esteve proibida, mas hoje encontra uma popularidade crescente. Capoeira não é simplesmente um dos aspectos da chamada cultura negra, nessa falsa contraposição com a suposta cultura branca, negando a que mais acentua o seu caráter popular e nacional.

A juventude nas cidades volta-se para a prática e a variedade de esportes. As áreas destinadas às atividades esportivas estão cada vez mais restritas, devido a desenfreada especulação imobiliária, limitando a atuação dos jovens, empurrando-os para os shoppings ou academias. Ainda assim, entre essas atividades, muitas não têm como objetivo moldar corpos sadios e capacitá-los para realizações sociais que exijam não apenas o desempenho das faculdades físicas, mas também intelectuais, assegurem flexibilidade, força física e proporcionem um aprendizado ao mesmo tempo pleno de realizações recreativas, profissionais, etc.

A fisicultura, segundo os padrões dominantes, cria corpos para consumo. As pessoas que moldam seus corpos em academias de musculação recebem em troca uma massa muscular acelerada, tanto mais quando auxiliada por anabolizantes, mas quase sempre de pouco proveito quando se trata de trabalho produtivo que exige maior e continuado dispêndio físico.

A capoeira, como as artes marciais orientais praticadas nas academias, possibilita vencer essas limitações, desenvolvendo os aspectos de resistência muscular, flexibilidade, força, maleabilidade, aliadas ao esforço mental, astúcia e convivência social, decisivos nessas atividades. Todavia, é o movimento juvenil com as inseparáveis exigências de realização de novas relações de produção dos bens materiais, com seus ideais correspondentes, que marcarão o momento decisivo para que a motricidade se torne verdadeiramente humana, livre — como o trabalho, como a instrução pública e as formas básicas de relações com o meio geográfico: a dieta alimentar, o vestuário, a residência.

Luta africana ou dança brasileira?

A arte da capoeiragem, nome que recebe no século XIX, tem origens controversas. A principal polêmica gira em torno do fato dela ter surgido na África ou já no Brasil.

Que os africanos escravizados e fugidos desenvolveram um tipo de luta, no entanto, ninguém duvida. Há indícios de que na África existia uma forma de arte marcial, chamada Nigolo (dança da zebra), que os bantos aprisionados trouxeram de sua terra natal. A prática no Brasil, entretanto, agregou movimentos dos animais, como a arraia, por exemplo, o que desenvolveu uma luta diferente, brasileira. A capoeira era praticada nas senzalas, ou no mato, nos momentos de pausa do trabalho, como forma manter a condição física dos praticantes e treiná-los para a defesa, em caso de fuga, nos embates contra policiais e capitães-do-mato, os responsáveis pela recaptura dos escravos.

A associação da capoeira com a música, outra peculiaridade sua, vem desse tempo. Os toques em instrumentos de percussão determinavam o ritmo dos movimentos e golpes. Uma mudança no ritmo da música avisava a chegada do senhor ou de algum empregado da fazenda, e, rapidamente, os escravos fingiam estar brincando e dançando de maneira inofensiva. Como grande parte dos negros vinha de Angola, os senhores diziam que os escravos estavam "brincando de angola" — uma das versões para o surgimento de um estilo da capoeira. Esse mesmo artifício, súbita mudança do ritmo, seria usado pelos praticantes de capoeira na época em que ela esteve proibida, para avisar da chegada da polícia, dissolvendo a roda.

Uma das versões sobre a origem do nome capoeira conta que os escravos, ao fugir, se dirigiam para as matas, para os clarões chamados capoeiras. Os capitães-do-mato, ao perseguí-los, eram atacados pelos escravos com os golpes ensaiados nas senzalas. Ao retornar para prestar contas de seu insucesso, eram indagados pelos senhores: "Cadê os negros?", ao que respondiam: "Nos pegaram na capoeira."

Outra discussão acalorada é sobre se a capoeira é uma luta, uma dança, um jogo, etc. Capoeira é luta (também pela sobrevivência). Sua relação com a música lhe dá o aspecto rítmico e coreográfico. Como prática esportiva, a capoeira é bastante difundida, mas, antes disso, assim como as artes marciais orientais, a capoeira é uma forma de usar o corpo para a defesa ou o ataque a um ou mais oponentes.

Por conveniência, proibir

A partir do século XIX, Salvador e Rio de Janeiro se destacam como locais de concentração de capoeiristas e pela grande quantidade de bandos ou maltas. Esses grupos incorporaram nas lutas entre si o uso de armas, como navalhas e facas, se tornando temidos nas cidades. Essa força seria aproveitada pelas agremiações políticas que os contratavam para dissuadir protestos, tumultuar comícios de partidos rivais, etc. Alguns chefes ou membros destacados de um bando podiam trabalhar como guarda-costas de figurões da época, os grandes comerciantes e políticos.

Após a proclamação da República, no governo do Marechal Deodoro, houve a proibição da prática da capoeira em todo o território nacional, sendo acrescentado ao código penal, com pena de até seis meses aos infratores.

As polícias e o Exército sempre reconheceram o potencial dessa luta brasileira, ensinando-a aos soldados e oficiais. D. Pedro II, por exemplo, mandava que fosse ensinada capoeira aos membros de sua guarda pessoal, mas também não permitia que a população ficasse sabendo.

A capoeira é uma luta que pode ser mortal. Muitos de seus golpes são traumatizantes, até fatais (benção, chapa, martelo, queixada, etc.), se bem aplicados, e dependendo da intenção do capoeirista.

A preocupação que a capoeira despertava nas classes dominantes quando praticada pelo povo, e a consequente repressão, durou enquanto ela tinha um caráter rebelde, podendo se constituir numa arma eficiente para as massas em suas lutas por dias melhores. A burguesia e seus gerentes republicanos não podiam tolerar que alguns poucos bandos de capoeiristas desordeiros ameaçassem "a boa paz do regime", mas não abriam mão de guarda-costas que dominassem os segredos dessa luta.

A liberação de sua prática só se deu quando a capoeira adquiriu uma nova feição: a de jogo, dança, ou coisa que o valha — o que equivale a abrir mão de seu caráter de luta eficiente e criada por homens pobres.

Regional ou Angola?

Uma das discussões que gera grandes debates é a que envolve praticantes dos dois tipos de capoeira no Brasil: a Angola e a Regional. Os primeiros se dizem guardiões da tradição, enquanto os segundos acham que a capoeira deve evoluir.

No início do século XX, com a capoeira sendo praticada às escondidas, a Bahia revela dois grandes mestres, cada um com seu estilo próprio. O do mestre Pastinha — como era chamado Vicente Ferreira Pastinha, o maior expoente do estilo angola — consiste em movimentos aparentemente mais lentos, rasteiros, privilegiando a malícia e quase sempre com mãos e pés no chão, o corpo curvado e os braços soltos, aparentando fragilidade. A capoeira angola tem um número relativamente pequeno de golpes, mas que atingem uma harmoniosa complexidade quando combinados.

O estilo regional tem um ritmo mais rápido, mas o que o diferencia da angola são seus movimentos acrobáticos, com movimentos que parecem desprezar o apoio no chão, além da incorporação de golpes e movimentos de outras lutas, como o judô, e o caratê. Esse estilo é o mais difundido entre os praticantes, e teve origem com Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, que desenvolveu o primeiro método de ensino e treinamento de capoeira, obedecendo a estágios em que os alunos tinham que passar, e por avaliações em que eram graduados. O método ganhou um aspecto militarizado, com disciplina rígida e exercícios de preparação e aquecimento antes da luta, depois que mestre Bimba, em meados da década de 30, passou a ministrar suas aulas em organizações como o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército) e Polícia Militar da Bahia, o que facilitou uma futura exibição para o então presidente Vargas, que liberaria sua prática logo depois.

O fato é que a capoeira deixou as ruas e invadiu as academias. A roupa do dia a dia, inclusive sapatos, usada pelos praticantes do passado, foi substituída pelo uniforme, em geral branco, e os cordéis indicam a graduação do capoeirista (professor, mestre, contra-mestre, etc.). Qualquer semelhança com as artes marciais orientais não é mera coincidência.

Mas nem isso impediu a popularização da capoeira. Não é difícil ver nas ruas, crianças em rodas improvisadas e longe da rigidez de uniformes e métodos. Os mestres e professores também estão longe da fama, badalações e dinheiro — como atesta a vida de mestre Pastinha, que morreu na miséria, cego e paralítico, aos 92 anos e mestre Bimba, que morreu em uma espécie de exílio voluntário em Goiás.

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A prática da Capoeira

Wilson de Carvalho

"Inteiramente em desvantagem, a pé e subnutridos, os escravos usavam a astúcia e o corpo para a defesa, que é a marca registrada da capoeira", conta o paraibano Jarbas Gonçalves da Silva, o professor Espinho, 27 anos. Espinho ensina capoeira na academia Budokan, no Rio de Janeiro

"A partir daí, a capoeira começou a se difundir como esporte e se adaptar a outras lutas, utilizando, por exemplo, os chutes do caratê, os balões cinturados adaptados do judô, mas sempre com muita perícia e caindo de pé."

Segundo o professor, a música não impede que, por exemplo, um deficiente auditivo consiga praticá-la e mesmo tornar-se mestre: "Temos até o caso de um mestre de capoeira, o Mudinho, que é mudo mesmo. Na trepidação do chão, ele sente todo o ritmo, sente as palmas e a música. É capoeira na roda e capoeira na vida /É não se entregar nunca / O capoeirista escorrega /mas logo está de pé /Quem fica no chão /capoeirista não é ", conforme diz a música.

Há 13 anos na capoeira, após experiência no kung fu e taekwondo, Espinho garante que qualquer pessoa pode ser um bom capoeirista. É só adquirir molejo, ritmo e a necessária coordenação motora. A partir daí, fica tudo mais fácil.

"Dei muitas aulas numa das calçadas em frente à estação Estácio, do Metrô, Rio de Janeiro. A capoeira desperta a curiosidade de todos. É só verificarmos em qualquer apresentação em praça pública. Todos param para ver. Desde o que usa sandália de dedo ao terno. Pode também ser praticada em qualquer tipo de piso e por pessoas desde os três anos à terceira idade", diz o professor.

A fragmentação em diversos grupos de capoeira espalhados pelo Brasil é prejudicial, segundo Espinho: "Lamentavelmente, não se pensa como um todo. Temos associações, federações, confederações, mas não temos um só campeonato. Quando se faz alguma coisa em termos de competições, é para grupos. Eu, por exemplo, faço parte do Centro Cultural Senzala de Capoeira (Av. N. S. de Copacabana 782, Rio de Janeiro). Não existe um campeão estadual ou nacional, mas deste ou daquele grupo. Teremos que unificar, agir como um todo."

Espinho não gosta quando dizem que a capoeira não passa de exibição. Acredita que a confusão tem por motivo o ensinamento para se defender e ser prudente. Defesa pessoal, acima de tudo. "A capoeira não foi criada para agredir, mas para se defender. E com inteligência. O primeiro passo é não reagir, mas se necessário, procurar o momento certo, a brecha (se houver), a destreza, claro, e saber se vale a pena. Mas isso não quer dizer que não tenha golpes traumáticos com o uso dos pés e em cabeçadas. Em casos extremos, a capoeira pode ser mortal. Como último recurso, simula-se, mostra-se que podia dar o golpe, marcando ponto. Nenhuma outra luta usa tanto a cabeçada e a cabeça (inteligência)."

A comparação com as lutas orientais não é aceita pelo professor. "Capoeira é única", afirma. "A capoeira é sinuosa como as ondas do mar. É muito lúdica, consegue envolver o adversário com o balanço, o molejo..."

"Numa competição, a simulação de um golpe já satisfaz, pois marca ponto e também funciona como um aviso ao adversário de que ele poderia ter até perdido a luta naquele instante", diz o professor.

Praticada em 68 países, inclusive Israel e Suécia, onde foi introduzida recentemente, a capoeira continua evoluindo, absorvendo outras lutas e se adaptando, se tornando mais completa. Há três tipos de competição: solo, onde o capoeirista entra sozinho para mostrar destreza e molejo; dupla: jogo de entrosamento, mais espetáculo e contato: luta propriamente dita, pontos e nocaute.

Para as mulheres, não poderia haver luta melhor, independente dos próprios ensinamentos, principalmente o de defesa. "Por isso mesmo, aumenta a cada dia o número de mulheres nas nossas academias. E com uma vantagem a mais em relação aos homens: a maior flexibilidade e molejo que a natureza lhes deu. Já temos muitas em grande destaque, a exemplo das próprias crianças. Afinal, a capoeira é também alegria. E isso pode ser observado no sorriso das crianças nas próprias competições. Tudo de acordo com a música que diz sabiamente que a capoeira é pra homem, menino e mulher /Só não aprende quem não quer."

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