Os camponeses do Contestado

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A Guerra do Contestado, que manteve em ebulição o planalto catarinense e paranaense de 1912 a 1916, foi o resultado do acúmulo de injustiças sociais sofridas, por décadas, pela população sertaneja da região. As tensões advinham, principalmente, do anseio por um pedaço de terra, bem-estar e segurança para as famílias camponesas. Dominada por coronéis e negligenciada pelos governantes, essa região foi o cenário de uma das mais sangrentas rebeliões ocorridas no Brasil republicano, com um saldo de cerca de seis mil sertanejos e mil soldados do governo mortos.

Santa Catarina e Paraná disputavam, desde o século XVIII, um imenso território entre os rios Iguaçu e Pelotas. Disputa esta que só acabaria em 1916, com o término dos conflitos. A incerteza quanto a qual estado era responsável pela região, deixou-a, até então, sem escolas, policiamento, ou hospitais.

Naquele tempo, o extrato social, de acordo com Maurício Vinhas de Queiroz, seguia a seguinte hierarquia: em primeiro, os coronéis, grandes fazendeiros, que eram verdadeiros déspotas dos sertões, relacionados com o governo do estado — este também formado por coronéis. Abaixo deles vinham os fazendeiros. Depois vinham os criadores, os lavradores, os agregados e os peões. Estes dois últimos, muitas vezes, trabalhavam só por comida e um canto no galpão das fazendas, assemelhando-se aos escravos domésticos dos tempos do Império.


A Guerra do Contestado foi resultado
do acúmulo de injustiças sociais sofridas,
por décadas, pela população sertaneja


Dois fortes golpes foram dados contra a população rural do país ainda no século XIX: a Lei Agrária de 1850 e a Constituição de 1891. Até a imposição da primeira, o simples apossamento de uma área garantia sua propriedade. Após a lei, as terras passaram a ser de posse e administração do governo, que faria o que bem entendesse para um melhor "desenvolvimento" do país. Na Constituição, as terras do Estado passaram a ser de responsabilidade dos governos estaduais. Estes, por sua vez, distribuíram essas terras aos coronéis mais alinhados. O sertanejo passou a ser constantemente expulso de sua terra por não possuir registro em cartório nem de sesmaria.


Terras para ingleses

Os coronéis também costumavam vender pedaços de terra para os sertanejos. O problema é que, após o pagamento da última parcela, um grupo paramilitar do coronel vinha e expulsava-os do lote recém-adquirido, ocasionando um conflito pronto para explodir a qualquer momento.

O estopim foi a imensa concessão dada em 1908 à empresa inglesa Brazil Railway Company, do empresário Percival Faquhar (dono da Madeira-Mamoré e da Port-of-Pa-rá), para a construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul. O acordo dava à empresa 15 quilômetros de terra para ambos os lados dos trilhos (sinuosos, por coincidência) e que passariam exatamente sobre o território contestado. Mais de 34 mil quilômetros quadrados de presente para estrangeiros.

Logo em seguida à construção a empresa adquiriu 180 mil hectares de floresta de araucária, pagando 15 mil réis o hectare. Os sertanejos foram mais uma vez expulsos. E desta vez nem alguns grandes fazendeiros escaparam. Nesse latifúndio estrangeiro, Faquhar instalou a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, que serrava diariamente 300 metros cúbicos de madeira em operações mecanizadas que necessitavam de apenas 800 trabalhadores. Por ano, eram derrubados cinco milhões de pés de araucárias. Tratava-se da maior madeireira da América do Sul na época.

Também era comum a especulação de terras. Os coronéis ou empresas compravam lotes de terra por preços ridículos, expulsavam os posseiros e logo passavam o lote adiante, lucrando até vinte vezes o valor inicial.

Para a construção da São Paulo-Rio Grande foram trazidos cerca de oito mil operários de todo o país, que aos poucos iam sendo demitidos e abandonados na própria região. Este contingente juntou-se aos sertanejos desapropriados. Seriam eles os futuros rebeldes que, ao invés de receberem alguma assistência, seriam obrigados a pegar em armas para obter melhores condições de vida.

Os joão-marias

Lideranças místicas, como curandeiros, penitentes e profetas, acabaram influenciando indiretamente na eclosão da guerra, destacando-se três deles: O primeiro foi o monge Gian-maria d'Agostini, italiano de Piemonte que registrou sua entrada no Brasil em 1844. Assinalara como profissão "solitário eremita". Três anos depois de sua chegada, João Maria, como se intitulava, desceu para o sul, onde ergueu capelas e cruzes nos arredores de Santa Maria da Boca do Monte (SC). Não dormia na casa de ninguém, mas na floresta. Comia frugalmente, açoitava-se em penitência e entoava cantos e orações, solitário, madrugada adentro. Logo estaria juntando cerca de 200 pessoas em romarias, atrás de qualquer cura para suas aflições.

Dizia-se inspirado por Deus e passou a ser visto pelos sertanejos como um santo milagreiro. Os locais onde dormia, bebia água, as cinzas de sua fogueira, tudo era santo para os seus seguidores. Mas nada de profético fazia. Procurava ser, segundo Oswaldo Cabral, "um apóstolo humilde, que não ameaça, mas aconselha". Um dia, João Maria foi embora. Sem deixar fotos nem desenhos. Versões para seus últimos dias existem várias, algumas datas de 1890 e outras de 1908. Mas um dia João Maria voltou.

Na verdade, era outro João Maria. Chamava-se Anastás Markaff, um imigrante "nascido no mar e criado em Buenos Aires". Segundo depoimentos colhidos por Cabral, chegou em Santa Maria por volta de 1890. Não poderia ser o monge italiano, pois era bem mais novo. Além disso, este era um profeta, com frases como "um dia haverá muito rastro e pouco pasto". Pregava a penitência e profetizava calamidades, inclusive a guerra do Contestado, sendo, porém, singelo e bondoso. Tal como o primeiro, não deixou rastro. Desapareceu ainda antes do final da primeira década do século XX.

Ex-soldado do Exército, desertor, o terceiro monge era mais um rebelde do que um místico. Miguel Lucena de Boaventura se intitulava S. Miguel ou José Maria, irmão do profeta João Maria. Ao contrário dos dois monges anteriores, gostava de popularidade e tinha na cintura uma espada de combate.

Em setembro de 1912, José Maria havia juntado, no reduto de Taquarussú, cerca de 700 fiéis. Entre rezas, ameaçava invadir as cidades vizinhas, organizando a população à maneira militar. Os coronéis, preocupados com o ajuntamento de gente armada, pediram ao governo uma solução, acusando José Maria de monarquista.

Pacificamente, levantaram acampamento e foram para Irani, então no Paraná. Quando, em Curitiba, o governador soube, boatos haviam distorcido a história. Não eram religiosos agrupados, mas catarinenses invadindo as terras paranaenses para garantir sua posse através do utis-possidetis. Mandou imediatamente uma tropa com 60 homens, uma metralhadora e 11 cavalarianos, liderados pelo coronel João Gualberto, para dispersar o grupo. Mal sabia ele que iriam enfrentar mais de 200 sertanejos. A vitória dos rebeldes foi enfática, com todo o material bélico do exército caindo em suas mãos. Mas José Maria morreu no combate. Os crentes abandonaram o local, e quando novas forças do governo chegaram lá, deram por encerrado o assunto.

Pelados

Na primavera do outro ano, houve uma nova reunião em Taquarussú. José Maria havia avisado que morreria no primeiro combate, mas voltaria com um "exército encantado". Chefiava-os agora o fazendeiro Euzébio Ferreira dos Santos, que chamava a população de todos os redutos para adentrar a "cidade encantada de Taquarussú".

Nesse reduto, mais de 300 sertanejos e suas famílias viviam sob normas religiosas rígidas, com punições físicas para os divergentes. Os homens raspavam cabeça e barba com navalha, o que deu ao conflito o apelido de "guerra dos pelados". Várias crianças, induzidas por um Conselho, afirmavam ter visões de José Maria. Euzébio, em agosto de 1914, enviou ao governo do Rio uma Carta Aberta à Nação, cheia de ameaças à República, que não havia feito nada de bom para esse povo. Logo tropas surgiram para acabar com o agrupamento. O primeiro ataque foi um desastre, com deserções e falhas estratégicas. O segundo foi um massacre, com quatro dias e quatro noites de bombardeios. Os sertanejos, sorrateiramente, foram fugindo, indo se reunir em Caragoatá.

Multiplicação

O reduto de Caragoatá foi o mais organizado de todos. Era chefiado por Elias de Moraes. Havia fartura alimentar, com um boi carneado por dia. Ocorreram mais batalhas contra as tropas do governo, com duas vitórias dos rebeldes, que passaram então por um período de euforia que resultaria numa nova etapa da guerra.

Marcou essa nova etapa a morte de um general, Mattos Costa, depois de um ataque sertanejo à Southern Lumber. Venuto Bahiano, um refugiado que adentrou nos pelados, matou-o e depois foi morto pelos próprios companheiros, pois Costa era considerado um importante aliado da causa sertaneja.

Foi o início das divergências. Personagens mais aguerridos, como Adeodato Ramos e Chico Alonso, começaram a formar seus próprios grupos, assaltando fazendas e queimando cartórios — ato simbólico contra as novas leis agrárias. Foi o momento de maior expansão dos rebelados, ocupando uma área do tamanho de Alagoas, com mais de 20 mil adeptos.

Paulo Ramos Derengoski cita o relatório do general Demerval Peixoto como o que melhor define a estratégia de guerrilha dos rebeldes: "os matutos só aceitam o combate em certas condições, em vai-e-vens, avanços e recuos, esgueirando-se nas dobras das selvas, contornando rincões, (...) mas fugindo sempre — e na fuga levando de vencida os soldados que se esfalfavam em terreno adverso... são exímios transformadores em defesa natural dos acidentes do solo... (...) preferem combater a tiro durante a noite (n: do alto dos pinheiros)."

Aniquilamento

Até o dia em que o governo federal resolveu jogar pesado. Iniciava-se 1914. Sob o comando do general Setembrino de Carvalho, sete mil homens bem equipados, organizados em quatro colunas, objetivavam um cerco lento, progressivo, a fim de vencer pelo cansaço. Pela primeira vez no mundo foram usados aviões em um conflito civil, atirando granadas nos redutos. Agora a guerra era um levante separatista que queria "um Estado dentro de um Estado", segundo Derengoski. Após um ano de batalhas só o reduto de Santa Maria da Boca do Monte, protegido pela geografia, resistia, passando fome. Adeodato Ramos era o novo líder, com mais de dois mil homens armados. A cidade-santa tinha virado um inferno nas mãos de Adeodato, apelidado "O Flagelo de Deus", e a rigidez das normas dentro do reduto foram reforçadas. Velhos, mulheres e crianças eram expulsos por serem "bocas inúteis".

Mas, em abril de 1915, Santa Maria era invadida pelo exército, sem um único disparo. Destruída, porém deserta. Os sertanejos haviam se escondido nas encostas da serra e, com a chegada da noite, passaram a varar a cidade com tiros de carabina. Potyguara, o capitão, pediu apoio a outras colunas, que fizeram 358 prisioneiros — uma fração dos combatentes. As tropas, cansadas da longa batalha, iniciaram a retirada, concluindo sua missão. Caberia às milícias locais extirpar seus últimos vestígios. Isso porque o grosso dos rebeldes já havia se reagrupado — ainda sob a liderança de Adeodato, prestigiado, mas enlouquecido pela guerra, chegando a matar a mulher e a sogra por reclamarem demais.

Mercenários deram o golpe final nos sertanejos. Com apenas algumas dezenas de vaqueiros, Lau Fernandez comanda uma invasão ao agrupamento e facilmente prende a todos. Adeodato, paranóico, reprimia tanto seus seguidores, que esqueceu de tomar medidas de proteção externa. Esqueléticos, doentes, esfarrapados, centenas de fanáticos se apresentavam nas vilas. Alguns eram executados.

Hoje, João Maria ainda é reverenciado por fiéis em toda a região, cujo desenvolvimento após a guerra não trouxe novas resistências. Como conclui Oswaldo Cabral: "o homem é o mesmo — e a crença é a mesma. Se o perigo não existe é porque as condições sociais que levaram ao desencadeamento da luta desapareceram."


*Léo Laps é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.
Bibliografia
Queiroz, Maurício Vinhaz de — Messianismo e Conflito Social, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966.
Cabral, Oswaldo R. — A Campanha do Contestado, Florianópolis, Lunardelli, 1979.
Derengoski, Paulo Ramos — Guerra no Contestado, Florianópolis, Insular, 2000.
As fotos são do arquivo de Nilson Thomé, professor da Universidade do Contestado, em Caçador

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