Jirau: operários presos, torturados, humilhados e desaparecidos

http://www.anovademocracia.com.br/91/05a.jpgNesta edição de AND, publicamos uma entrevista exclusiva com Raimundo Braga, ex-operário da Camargo Corrêa na Usina de Jirau. Raimundo foi preso, torturado e ficou incomunicável por 45 dias. Ele foi acusado de incendiar os alojamentos da usina no dia 04 de abril. A prova do crime: um isqueiro e uma carteira de cigarros. Inocentado, agora o operário exige justiça e direitos trabalhistas.

Raimundo é o retrato dos milhares de homens que trabalham nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O rapaz de 22 anos saiu de Luzilândia, no Piauí, onde trabalhava como ajudante de pedreiro e agricultor para tentar uma vida melhor nas grandes obras do governo.

AND: Como você foi trabalhar na Usina de Jirau?

Raimundo: Tinha um agenciador que cobrava R$500, mas eu não tinha o dinheiro. Ele dizia "chegando lá, vocês já estão contratados, só precisarão entregar a carteira de trabalho no SINE". Ele levou muita gente, mas não havia emprego. Comigo isso não aconteceu porque eu vim depois, sozinho. Mas quando eu cheguei, a Camargo Corrêa não estava contratando e eu passei um mês fazendo diárias em Porto Velho.

AND: Como eram o trabalho e as condições de vida na Usina?

Raimundo: A comida era cheia de salitre, era só para encher o estômago. Os alojamentos eram de madeira, no pé ficava roído pelos bichos. Na usina havia lojas e lanchonetes. O trabalhador tinha o BigCard (vale-alimentação), mas com dois lanches já acabava o dinheiro porque tudo era caro. Para ir à cidade era longe. Para Jacy-Paraná dava pra ir todo dia, para Porto Velho só tinha ônibus à tarde.

AND: Nós levantamos alguns acidentes de trabalho com vítimas fatais na Usina.

Raimundo: Lá todo mundo usava equipamento de segurança, mas você sabe que quando uma pessoa cai de uma estrutura, ela chega ao chão morta. Mas lá eles retiram o corpo e levam pro hospital e depois vem a notícia de que o operário morreu no caminho de Porto Velho.

AND: A greve aconteceu por causa dessas condições?

Raimundo: A greve foi por causa da condição dos alojamentos e do salário miserável. Eu ganhava R$800. Para ganhar mais, tinha que fazer muita hora extra. Todo mundo entrou em greve. Logo ficou cheio de polícia lá dentro. Era arma para todo lado, você comia, dormia e acordava debaixo de armas e para a polícia você não podia falar nada, que eles já espancavam.

AND: Como foi a sua prisão?

Raimundo: Eu estava parado, conversando com um colega, perguntando pelos outros porque eu queria voltar ao Piauí com eles. Eles me pegaram e meus colegas reagiram, disseram que eu não tinha nada a ver com o fogo. Eles me prenderam porque eu tinha um isqueiro e minha carteira de cigarros nas mãos. Quando me colocaram na viatura, já começaram a me dar soco no estômago, dizendo "vamos vagabundo, agora você vai ter que dizer quem foram seus companheiros" e eu respondia "senhor, me solte, eu não fiz isso, eu jamais faria isso".

AND: E você foi torturado?

Raimundo: Eles me levaram para o alojamento dos encarregados e das mulheres e me jogaram num quarto. Havia sempre dois policiais me espancando. Era tapa na cara, chute nas coxas, murro na boca do estômago. Eles jogaram spray de pimenta nos meus olhos. Lá pelas 6h, entrou alguém e mandou parar de me espancar. Então, me levaram pra fora e perguntaram se me haviam espancado. E eu respondi "não senhor", debaixo de um monte de arma. Foi aí que me levaram pra delegacia de Nova Mutum.

AND: E quanto tempo você ficou na delegacia?

Raimundo: Fiquei alguns dias. Depois o delegado me disse que haviam achado o colchão e que havia sido eu mesmo que havia incendiado, e que por isso teria que me mandar para o Pandinha. Quando o delegado saiu, veio o pessoal da Camargo Corrêa, dizendo que eu havia sido demitido por justa causa. Mas eu me recusei a assinar a demissão, eu sou inocente.

AND: E como te trataram no Pandinha?

Raimundo: Quando eu cheguei, me deixaram só de short e me jogaram no castigo com mais sete pessoas. Fiquei 15 dias lá. A comida era passada por um buraco. A água pra beber escorria pela parede e não havia qualquer tipo de higiene pessoal. A cela tinha 3x1m. Ninguém dormia. Depois fui para outras celas, mas em nenhuma delas havia colchão ou coisas do tipo. O banho era de 1 minuto e a comida era péssima.

AND: E como você conseguiu ser liberado?

Raimundo: Depois de mais de um mês, eu encontrei um colega de Jirau. Eu achava que havia sido o único preso. Eles me disseram que havia um advogado, o Dr. Ermógenes. Mas eu não queria, tinha medo que minha mãe soubesse e tivesse um infarto. O advogado havia procurado todo mundo, mas eu não fui encontrado porque estava sozinho no processo. Quando eu cheguei, não me deixaram ligar para ninguém. Depois de 45 dias presos, eu recebi a visita do advogado. E só uns dez dias depois é que me mandaram um defensor público.

AND: E como foi sua audiência?

Raimundo: No meu julgamento, o policial que testemunhou contra mim disse ao juiz que não tinha me visto colocando fogo. O encarregado da empresa também disse que não havia visto. Eu já estava preso há dois meses, mas fui solto nesse mesmo dia.

AND: E quais são seus planos agora?

Raimundo: Eu só quero o que é meu, quero meus direitos. Eu não recebi nada da empresa. No dia 28 de maio eu saí da cadeia. No dia 30, eu fui à Usina buscar minhas coisas. Quando eu cheguei lá, queriam me obrigar a assinar a justa causa. Eu me recusei e me jogaram na portaria, como um cachorro. Aí voltei lá com a polícia, mas tudo que era meu havia sumido, minhas roupas, meus documentos, tudo. Eles prometeram dar passagem e nos retribuir para nossa terra quando acabasse o trabalho, mas me jogaram na rua para virar mendigo.

AND: Como você se sente após ter sido inocentado?

Raimundo: Eu estou muito magoado, se soubesse que seria assim jamais teria saído da minha cidade para trabalhar lá. Agora meu nome está sujo pela polícia. Eu sempre fui um trabalhador de roça e nunca tive problema com a polícia. Agora pode ter várias obras do governo, que eu não piso em nenhuma delas. Sair para passar o que eu passei, eu prefiro ficar tranquilo trabalhando na roça. Lá tem seca, mas ainda é melhor do que Jirau. A gente sofre menos no Piauí do que em Jirau. O que eu passei em Jirau foi só humilhação.

Funcionários da ESBR atacam camponeses
Com informações da CPT-RO
No dia 13 de junho, funcionários da ESBR – Energia Sustentável do Brasil - atacaram cerca de 20 famílias camponesas que estavam acampadas em uma área rural de Mutum Paraná, a 100km de Porto Velho. As famílias ocupavam uma área que havia sido adquirida pela ESBR, mas há indícios de que a área seja pública.

Os funcionários da ESBR apareceram acompanhados de policiais e portando motosseras. Pediram que a área fosse desocupada, mas os acampados exigiram ver a ordem de despejo do local. A resposta dos funcionários e da polícia foi a violência. Começaram a derrubar os barracos de lona. Quando perceberam que alguns acampados registravam a ação com seus celulares, os policiais revidaram. As famílias acabaram saindo da área e acampando à beira da estrada. A ocorrência foi registrada na delegacia de Mutum Paraná.


Doze operários desaparecidos e dois continuam presos

Segundo o advogado Ermógenes Jacinto, que está defendendo alguns operários acusados pelo incêndio na Usina de Jirau, doze deles ainda continuam desaparecidos. Eles constam como réus presos, mas até agora não foram localizados no anexo Pandinha, do Urso Branco, e em nenhum outro presídio de Porto Velho. Há documentos que relatam que os operários chegaram a ser ouvidos na delegacia de Nova Mutum, mas a Justiça ainda não informou o paradeiro de: João de Lima Fontinele, Cicero Furtado da Silva, Antonio Luis Soares Silva, Lucivaldo Batista Moraes Castro, Antoni Silva Almeida, Elielson Silva do Nascimento, Sebastião da Silva Lima, Leonilson Macedo Farias, José Ribamar dos Santos, Silvan Oliveira dos Santos e Antonio Genilson Machado da Silva.

Os operários Jhonata Lima Carvalho e Carlos Moisés Maia da Silva continuam presos no Anexo Pandinha, do presídio Urso Branco. Jhonata era funcionário da Enesa e foi uma das lideranças da última greve. Carlos Moisés era representante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Os pedidos de habeas corpus dos dois operários foram negados pelo juiz, num claro indício de perseguição contra os operários. Dez operários conseguiram habeas corpus e responderão o processo em liberdade.



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