André Grabois: um combatente do povo*

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3/7/1973 – Hoje, ZC fez 27 anos. Desejo-lhe mil felicidades e os maiores êxitos como combatente guerrilheiro. Sua mãe deve estar apreensiva pela falta de notícias, mas, sem dúvida, deve orgulhar-se dele".
Do diário da Guerrilha do Araguaia, de Maurício Grabois1.
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Grabois, de óculos, em festa de formandos do Ginásio Dom Orione

ZC, ou José Carlos, comandante do Destacamento A das Forças Guerrilheiras do Araguaia, era o nome de guerra adotado por André Grabois, militante do Partido Comunista do Brasil.

Filho de Maurício Grabois - dirigente histórico do Partido Comunista do Brasil e comandante das Forças Guerrilheiras do Araguaia - e Alzira da Costa Reys, nasceu em 3 de julho de 1946, no Rio de Janeiro.

Ele fez o curso primário na Escola Municipal Pedro Ernesto e o ginásio no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói. Desde muito cedo, graças ao convívio com destacados militantes do movimento comunista no Brasil, interessou-se pelas questões políticas.

Em 1964, devido às perseguições movidas contra seu pai, teve que abandonar os estudos e, com apenas 17 anos, foi viver na clandestinidade. Em 1967, viajou para o exterior, visitando a China e a Albânia, onde participou de cursos de formação política e militar.

Foi um dos primeiros militantes do Partido Comunista do Brasil a chegar à região do Araguaia, indo para a localidade de Faveira no início do ano de 1968. Antes morara em várias cidades da região: Rondonópolis, Tocantins e outras.

Era alegre e brincalhão e rapidamente conquistava a simpatia das pessoas. Gostava de música popular, em particular do samba, que aprendera nos morros cariocas, e era grande apreciador de futebol. Também era um bom nadador.

À noite, enquanto ouvia o rádio, gostava de desenhar cartuns sobre os acontecimentos políticos ou alusivos a acontecimentos da região e aos companheiros.

Via com grande tristeza o fato das crianças do Araguaia não conhecerem brinquedos.

Era casado com Criméia Almeida, com quem teve um filho – João Carlos Grabois – que nasceu na prisão e a quem não chegou a conhecer.

Foi o comandante do Destacamente A – Helenira Resende – até sua queda em combate, em outubro de 1973. Era um dos combatentes mais capazes da Guerrilha do Araguaia.

Em seu diário da guerrilha, Maurício Grabois destaca alguns traços do comandante do Destacamento A: "Todos querem combater. Muitos combatentes se destacam e os mais atrasados vão se adaptando à nova vida. No DA, ZC (José Carlos) mostra-se um combatente tranquilo e equilibrado".

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Um homem de ação

Aplicado no estudo e na formação militar, preocupado com o desenvolvimento da Guerra Popular e da ligação do partido com as massas, realizava intensa propaganda revolucionária sempre que era possível. Em julho de 1972, Maurício Grabois anotou em seu diário: "Realizando propaganda revolucionária armada, duas equipes do destacamento, comandadas, respectivamente, por ZC (José Carlos) e Piauí, atingiram mais de 170 pessoas".

Em outra ocasião, seu destacamento organizou uma grande assembleia popular que contou com a presença de mais de 200 camponeses, que confraternizaram com os guerrilheiros, assim registrou o comandante das Forças Guerrilheiras do Araguaia:

"Quase todo o Destacamento A esteve na corrutela de Bom Jesus durante os festejos do Divino. Foram calorosamente recebidos pelo povo. ZC, Piauí e Pedro Carretel discursaram para uma massa de mais de 200 pessoas. Os moradores cantaram em louvor do comandante José Carlos. Todos os combatentes confraternizaram com os habitantes do vilarejo e visitaram várias casas. Um elemento do INCRA, que estava no local, desapareceu como que por encanto".

Em setembro de 1973, sob o comando de José Carlos, o Destacamento A empreenderia um arrojado ataque contra um posto militar. Após a exitosa ação, o comando do destacamento emitiu o seguinte comunicado:

"Ao povo de Marabá, S. Domingos. S. João do Araguaia, Apinagés e Brejo Grande:

A todos os lavradores!

O 1º Destacamento das Forças Guerrilheiras do Araguaia – Destacamento Helenira–, no dia 24 de setembro realizou com pleno êxito uma operação militar contra o posto policial da rodovia Transamazônica, localizado no entroncamento da estrada que liga a S. Domingos e Apinagés.
Os militares que guarneciam aquele posto, sob o pretexto de identificar os viajantes, extorquiam dinheiro dos lavradores, apreendiam qualquer arma de uso pessoal, e até mesmo facas, facões e canivetes; humilhavam pais de famílias, desrespeitavam moças e mulheres, cometiam toda espécie de abusos e arbitrariedades contra os moradores da região. Diante disso, o 1º Destacamento decidiu punir os soldados da ditadura que cometiam tais crimes conta o povo.
Um grupo de combate do Destacamento, no amanhecer daquele dia, cercou o posto policial e intimou os ocupantes a se renderem. Não obtendo resposta, abriu fogo e incendiou a casa. Então, os soldados se entregaram sem oferecer resistência. Os prisioneiros tiveram um tratamento humano. Não sofreram maus tratos e nem humilhações. Foram libertados depois de aconselhados a abandonar a Polícia Militar do Pará, a não servir de instrumentos de um governo de bandidos, inimigo da liberdade, que prende, tortura e assassina patriotas, oprime trabalhadores, protege os tubarões e os poderosos.
Realizada a operação militar, os guerrilheiros retiraram-se em ordem, levando, como presas de guerra, fuzis, revólveres, fardas e outros objetos de utilidade. Assim, o 1º Destacamento aumentou seu poderio de fogo à custa do inimigo.
Com a operação contra o posto policial da Transamazônica, o povo foi vingado.
O Destacamento Helenira concita a todos os lavradores e moradores da região a apoiar as Forças Guerrilheiras do Araguaia e a ajudá-las a levar adiante a luta pelos direitos do povo, contra o Exército e a Polícia, contra o INCRA e os grileiros, pela derrubada da ditadura militar e por um governo efetivamente democrático e popular.
O povo unido e armado vencerá!
Terra para o povo viver e trabalhar!
Abaixo a odiosa ditadura militar!
Viva o Brasil livre e independente!
Viva as Forças Guerrilheiras do Araguaia!
Em um ponto qualquer das matas do Araguaia, 25 de setembro de 1973.

José Carlos, comandante do 1º Destacamento das Forças Guerrilheiras do Araguaia – Destacamento Helenira
Lino Piauí – Vice-Comandante".

Erro fatal

Pouco mais de um mês depois, Maurício Grabois recebeu notícias, para ele, "particularmente terríveis".

"No dia 13 (de outubro), um grupo chefiado por ZC, composto por Nunes, João (Araguaia), Zebão e Alfredo, dirigiu-se a um depósito para apanhar farinha. No dia anterior, Alfredo e outros combatentes insistiram junto ao comandante para se matar 3 porcos do destacamento, que estavam numa capoeira abandonada. ZC repeliu com energia a proposta, dizendo que ela afetava a segurança e que "não se devia morrer pela boca". Por isso, só iriam buscar farinha. No entanto, no meio do caminho, sob pressão de alguns combatentes, deixou-se convencer de apanhar os porcos. E o grupo enveredou capoeira adentro. Então, foram cometidas uma série de facilidades: os porcos foram mortos a tiros, acendeu-se o fogo, não se deu importância ao helicóptero que sobrevoava o local e permaneceu-se demasiado tempo na capoeira. Ainda estavam os guerrilheiros dedicados à tarefa de tratar os porcos quando foram surpreendidos pelo inimigo. João procurou fugir e ouvir descargas de metralhadora. Mas obteve êxito. Foi ele que relatou o ocorrido. Em sua opinião, os outros 4 combatentes, que não apareceram no acampamento, foram mortos".

Dias depois, outros combatentes precisaram as informações acrescentando que "quando o inimigo os surpreendeu, na primeira rajada de metralhadora, sucumbiram logo Nunes e Zebão; José Carlos ainda conseguiu apanhar o fuzil e disparar 3 tiros".

"Assim, o DA foi duramente golpeado. Perdeu seu comandante, homem capaz e um dos mais puros revolucionários. Estava ligado ao Partido desde os 16 anos e ainda podia dar muito à revolução. Era excelente comandante. O primeiro erro que, no entanto, cometeu, lhe foi fatal. Tinha 27 anos e seu verdadeiro nome era André Grabois".

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*Com informações do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964 -  Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Instituto de Estudo da Violência do Estado / Grupo Tortura Nunca Mais - RJ e PE e do Diário da Guerrilha do Araguaia de Maurício Grabois.

1 Recentemente foi publicado o que foi anunciado como o diário de Maurício Grabois, com suas anotações sobre a Guerrilha do Araguaia de 30 de abril de 1972 a 25 de dezembro de 1973. O que se diz desse documento é que ele foi copiado, à mão, por militares e posteriormente publicado, e também que o relatório original foi destruído, o que nos impede de atestar sua completa autenticidade.


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