Entrevista: Juca Kfouri - "Estamos vendo casos de remoções que lembram práticas nazistas"

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Segundo o urbanista Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ e entrevistado na edição 90 de AND, até agora, 80 mil pessoas já foram removidas em todo o Brasil em função dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Outro grande crítico das remoções de favelas para os mega-eventos é o cientista social e comentarista esportivo Juca Kfouri. Ele diz que não é a toa que o Brasil é o país ideal para receber os mega-eventos.

Receber esses eventos no Brasil é uma oportunidade rara de você fazer um anúncio do Brasil. E é um anúncio que você faz do seu país durante um mês, correndo o risco de fazer um mal anúncio. Se você pegar a história recente, verá, por exemplo, que as Olimpíadas de Barcelona, em 92, foi um excelente anúncio da Espanha moderna, da Espanha pós-franco. Já a Grécia, foi um péssimo anúncio fartamente responsável pela dívida grega que mergulhou a Grécia na crise em que ela está. São países cujas regras de investimentos institucionais são frágeis, onde a corrupção é inadministrável e onde a dona Fifa, portanto, pode auferir todas as benesses que desejar — diz.

Kfouri também explica porque alguns dos estádios que estão sendo construídos para a Copa do Mundo de 2014 são considerados elefantes brancos*.

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O Brasil está construindo, no mínimo, cinco elefantes brancos. Em Cuiabá, em Brasília, em Natal, em Manaus e em Recife. Com excessão de Recife, são cidades onde nem futebol de primeira divisão existe. Os empresários falam que são "arenas multiuso". Aí eu pergunto para qualquer morador dessas regiões: os grandes artistas internacionais fazem shows nessas cidades? Certamente, não. Nós vamos reproduzir, sem tirar nem pôr, o que foi feito na África do Sul, onde já se discute a implosão desses estádios porque as prefeituras não têm condições de arcar com a manutenção — conta.

Além disso, o cientista social diz que os principais prejudicados com a dinheirama derramada em função dos mega-eventos são os pobres. Kfuri destaca a forma violenta como essas pessoas estão sendo removidas de suas casas e expulsas para as regiões metropolitanas das grandes cidades brasileira.

Nós estamos vendo casos de remoções manu militari**. Estamos vendo casos de remoções que lembram práticas nazistas, onde as casas são marcadas em um dia para serem demolidas no dia seguinte. Gente passando com os tratores por cima das casas — conclui. 

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*Elefante branco é uma expressão idiomática para uma posse valiosa da qual seu proprietário não pode se livrar e cujo custo (em especial o de manutenção) é desproporcional à sua utilidade ou valor. O termo é utilizado na política para se referir a obras públicas sem utilidade.

**Manu militari ou mão militar é expressão latina utilizada para designar aquele que impele o cumprimento de uma ordem ou obrigação com a ajuda militar, com a força armada ou com o poder de polícia em seu auxílio.


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