81 anos da Revolta Camponesa em Pau de Colher

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Em janeiro de 2019 farão 81 anos do massacre ordenado pelo regime fascista encabeçado por Getúlio Vargas contra cerca de mil camponeses organizados em torno da comunidade Pau de Colher, no município de Casa Nova na Bahia, fronteira com Piauí e Pernambuco.

O massacre – perpetrado pelo Exército Brasileiro, Polícia Militar e pistoleiros – foi, como de costume, relembrado mais uma vez no último dia 13 de dezembro pelas comunidades camponesas que atualmente estão ao entorno do que outrora foi Pau de Colher. Neste dia ocorreu a campanha final de cerco e aniquilamento contra o último movimento messiânico do nordeste. Nessa batalha, o Estado Novo fascista usaria de pistoleiros (então regionalmente chamados de “apenados”), policiais e tropas do Exército, que dispararam com metralhadoras e até bombardeios aéreos contra os combatentes camponeses, que armaram-se com armas tomadas de seus inimigos e de seus bastões feitos com a árvore que dava nome à sua comunidade, o Pau de Colher.

A pequena vila surgiu junto à comunidade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no município de Crato, Ceará. Enquanto a Caldeirão era uma pequena comunidade produtiva, de trabalhos coletivos, Pau de Colher tinha caráter de centro de iniciação religiosa para então introduzir novos devotos treinados para Caldeirão. Lá, camponeses, a maioria sem terra, eram apresentados às práticas religiosas oriundas da interpretação do cristianismo feita pelos beatos locais. Esta incluía o vegetarianismo estrito, estudos coletivos orais das chamadas “parábolas” religiosas, prática constante da oração e até a autoflagelação. Historiadores acreditam que os camponeses organizados pelo messianismo usavam não da Bíblia para conhecer a tradição cristã-católica, mas da interpretação oral de vários beatos da “Missão Abreviada”, pequena versão portuguesa resumida do novo testamento. Mais do que apenas a instrução ideológica-religiosa, o campesinato em Pau de Colher eram introduzido também à prática da vida e dos trabalhos coletivos.

No ano de 1937, tropas do governo de Vargas atacaram a comunidade de Caldeirão, onde acredita-se que cerca de 700 pessoas morreram. Existem relatos de que Vargas chegou até a usar de bombardeios aéreos contra a comunidade camponesa. A ONG “SOS Direitos Humanos” do Ceará, que tentou levantar uma investigação responsabilizando o Exército reacionário pelo massacre, acredita que os militares fizeram uma extensa campanha de ocultação dos corpos dos camponeses vitimados, algo semelhante ao feito após a Guerrilha do Araguaia, só que em maior escala.

Ao invés de dissolver-se intimidada pelo massacre de Caldeirão, a comunidade camponesa reunida em torno de Pau de Colher arrefeceu-se. Segundo Filipe Pinto Monteiro, mestre em História Social pela UFRJ, em artigo publicado na Revista de Estudos da Religião da PUC-SP, a crença religiosa adaptou-se à destruição da comunidade-mãe, reunindo ainda mais massas camponesas em torno de Pau de Colher. José Lourenço, o beato fundador de Caldeirão, desaparecido após o ataque, assumiu figura quase profética cujo retorno, semelhante a um Messias, significaria o início de uma nova era em que os "pecadores" seriam punidos e os "fiéis" recompensados. O retorno de Padre Cicero, morto em 1934, também teria este efeito nas mentes daqueles camponeses.

No centro desse mito, a comunidade de Caldeirão seria reconstruída e os trabalhos coletivos naquele pedaço de terra retomados. A descrição feita por Monteiro da quase herética religiosidade de Pau de Colher, junto à entrevistas coletadas por diversos acadêmicos e jornalistas de sobreviventes daquela comunidade, ressalta aos olhos à centralidade da luta pela produção de maneira coletiva, fosse ela a real praticada na própria Pau de Colher, ou à quase sagrada feita no “paraíso perdido” de Caldeirão. Em uma entrevista feita em 2003, Maria Ferreira dos Santos, uma sobrevivente do massacre à comunidade, falou sobre as pregações em Pau de Colher: “Eles diziam que a gente ia voltar rico e novo lá no sítio Caldeirão junto com Padim Ciço, lá era o lugar onde não faltava nada”.

O pensamento messiânico, por si só fruto da miséria e isolamento do campesinato nordestino, se modifica com o fim de Caldeirão e a crescente pressão sobre a suposta comunidade de “fanáticos”. Trajando roupas negras ou azul-escuras, representando luto, as massas de Pau de Colher partem para uma ofensiva contra fazendeiros locais. Registra-se que o primeiro ataque atribuído aos chamados "caceteiros" (armados com porretes de madeira) foi em 4 de janeiro de 1938. Em 8 de janeiro, a imprensa local anunciava que os “fanáticos” havia derrotado cerca de 30 pistoleiros num ataque a um “proprietário”. Os mesmos jornais atribuíam também ao movimento a morte de dois crianças. O capitão Optato Guedes, militar pernambucano responsável pela derradeira destruição de Pau de Colher, relataria que os supostos “fanáticos” estavam realizando verdadeira campanha guerrilheira na região, dividindo-se em grupos e realizando emboscadas de noite.

No dia 10 de janeiro, um pequeno destacamento policial seria destruído pelos “caceteiros”. O ataque aos policiais é a gota d'água para o velho Estado, que organiza quatro expedições diferentes contra Pau de Colher. A primeira a chegar e montar o cerco à comunidade foi a expedição da brigada militar pernambucana, liderada por Optato Guedes. O cerco dura do dia 19 ao dia 21 janeiro. O revoltoso campesinato resistiu, fossem homens ou mulheres, com seus porretes à mão contra as armas automáticas e semi-automáticas da polícia; sobreviventes relatariam mais tarde cenas de um chão vermelho banhado no sangue do povo.

A Comissão Pastoral da Terra, em visita à comunidade nas comemorações de 80 anos da batalha, relatou que onde era a sede da comunidade agora há uma vala comum com cerca de 400 corpos. Acredita-se que morreriam cerca de 1 mil pessoas de fome e doença junto às mortes violentas como resultado da repressão. Vargas afogou em sangue as aspirações do campesinato nordestino.

Apesar de serem acusados de “comunistas” pelo regime fascista de Vargas, os caceteiros de Pau de Colher estavam longe disso. Tinham uma ideologia bruta, eclética e obscurantista vinda de algumas das tradições mais feudais do pensamento nordestino. No entanto, aquele campesinato desesperado – vendo o massacre de seus semelhantes pela seca, fome, doença, pelo latifúndio ou polícia – fez surgir, em Pau de Colher, uma prática social e um mito (quase um novo cristianismo) que, por pouco tempo, levou o caminho da rebelião ao camponês.

Para relembrar os 80 anos do massacre, camponeses carregam caixão simbólico - foto/CPT 2018.

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