Cerâmica Tupi: Estudo confirma repasse oral durante 5 mil anos

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Mãe ensinando filha na aldeia Koatinemo Foto: Historiador Francisco Silva Noelli 

Pesquisas recentemente finalizadas por estudiosos brasileiros comprovaram que a tão comentada transmissão oral de conhecimentos de uma geração a outra, por tribos indígenas, foi uma prática de extraordinária eficiência, de repetição meticulosa, e que funcionou durante milênios.

Foi o caso das cerâmicas dos povos Tupis. Foi demonstrado que essas nações nativas eram ceramistas desde 5 mil anos atrás. Palavras de seu idioma, que correspondem às vasilhas cerâmicas “de cozinhar” já existiam na fase mais antiga, a do Proto-Tupi (isso conforme o professor Aryon Rodrigues, por meio de reconstruções fonéticas feitas por ele usando a Linguística Histórica Comparada).

A persistência da transmissão marcadamente homogênea desse saber artefatual, por tão longo tempo, foi considerada notável, pois se tratavam de milhões de pessoas, subdivididas em cerca de 70 grupos de falantes tupi, e moradoras de num vastíssimo território no Brasil e América do Sul.

Parte do trabalho dos especialistas, encerrado agora em dezembro de 2018, começou há 30 anos e incluiu um levantamento de 1826 vasilhas inteiras ou semi-inteiras em 150 coleções públicas e privadas (museus, etc.) no Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Áustria, Inglaterra e Holanda (a Bolívia possui um acervo que ainda não foi analisado).

Em breve será feita a publicação de um catálogo com a imagem de todas as vasilhas registradas, os dados métricos sobre morfologia, tratamento de superfície e espessura, e os mapas com a sua distribuição geográfica.

No grupo dos especialistas (áreas de arqueologia e história, principalmente) atuaram Francisco Silva Noelli, José Proenza Brochado, Ângelo Alves Corrêa, Fabíola Andréa Silva.

Saindo do atraso

Estudiosos informam que a cerâmica é o registro arqueológico mais conhecido e acessível de pesquisar no presente. E que ela é vista, ainda hoje, como um marcador que materializa a presença Tupi. Para a arqueologia já existem quase 6 mil sítios tupis registrados no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia.

A partir do estudo das cerâmicas dos Tupi, padrões de assentamento e subsistência, de sua distribuição/dispersão no tempo-espaço, e de sua língua, “verificamos tanto as continuidades quanto as transformações culturais vivenciadas por esses povos na longa duração (de milênios). Além disso entendemos que os povos tupi do passado estão conectados aos povos tupi do presente, e suas histórias específicas nos permitem apreender a notável persistência estrutural entre cultura e língua”.

O historiador Noelli e a arqueóloga Fabíola (pesquisadora e professora da USP) dizem que “a melhor interpretação dos contextos arqueológicos Tupi implica na articulação de dados linguísticos, etnológicos, históricos e arqueológicos”. Isso consta no seu artigo Arqueologia e Linguística: Construindo as trajetórias histórico-culturais dos povos Tupi publicado em revista Crítica e Sociedade, em 2017.

E complementaram, observando que “hoje é fácil falar da relação entre arqueologia e linguística no Brasil”, embora ela ainda esteja engatinhando. Segundo eles, no fim dos anos 1980 tal coisa, porém, era quase uma heresia. Pois dominava o pressuposto de evitar a interdisciplinaridade e toda a pesquisa era resumida na descrição do registro arqueológico.

Conforme ambos, isso afastou a arqueologia brasileira de participar dos avanços internacionais que se experimentavam em vários continentes naquela época, em razão do crescimento da presença das populações locais no desenvolvimento dos projetos de pesquisa. “Dessa forma temos um legado de atraso a ser vencido”, sublinharam.   

Para exemplificar as qualidades da interdisciplinaridade revelaram uma interessante novidade na análise de episódios arqueológicos ligados a povos indígenas. “Recentemente pesquisas arqueológicas, históricas, antropológicas e linguísticas demonstraram como os povos das terras baixas estariam em redes de interrelações sociais para além das fronteiras regionais, étnicas ou linguísticas”. Em paralelo, essas pesquisas mostraram “como estilos cerâmicos, uma língua franca, o comercio/troca de bens materiais, participação em rituais ou movimentos indígenas têm interligado, ao longo do tempo, povos de vastas regiões”.

E arremataram: “ Propõem-se então que se olhe para as populações arqueológicas não como povos reificados, empurrando-se uns aos outros pelas terras baixas, confinados em aldeias isoladas entre si, mas (sim) interligados por um sistema de relações e processos comunicativos e sujeitos também a processos de etnogênese”.

Cerâmica guarani: palavra feita de barro

Além do estudo sobre as vasilhas Tupi, outra parte do trabalho dos especialistas foi sobre a cerâmica guarani, executado de uma maneira diversa. Sua realização deu-se por meio de um inventário de textos de jesuítas dos anos 1600.

A eficiência da transmissão oral indígena dos conhecimentos também foi verificada na cerâmica dos guaranis. Mas tal verificação foi feita através de palavras. Isto é, do estudo de dicionários jesuíticos de 400 anos atrás.

Escritos pelo líder das missões do Guairá/Guaíra (sul do Brasil e parte do Paraguai e da Argentina), o padre Antônio Ruiz de Montoya, os dicionários inventariados foram verdadeiras enciclopédias sobre os índios guaranis. Que na época, naquela região, eram populações que tinham experimentado pouquíssimo contato com a sociedade colonial espanhola e portuguesa.

Após exaustiva leitura, os pesquisadores brasileiros encontraram 445 palavras e frases sobre a cerâmica da tribo. Através da análise desse valioso material afirmaram que o conteúdo linguístico tinha correspondência na tecnologia cerâmica “sendo possível propor uma teoria de que havia uma uniformização da linguagem da cerâmica em todos os assentamentos Guarani”, disseram Noelli, Brochado e Corrêa em artigo recém divulgado.

O artigo foi publicado em dezembro último (2018) na Revista Brasileira de Linguística Antropológica sob o título A linguagem da cerâmica Guarani: sobre a persistência das práticas e materialidade (parte 1)

Os autores contaram que no presente, entrevistando os guaranis, “rapidamente constatamos que eles ainda mantêm os mesmos nomes para as suas vasilhas emblemáticas em centenas de assentamentos espalhados por vasta área”.

Em seguida explicaram o motivo de ter optado por textos para estudar tal cerâmica: “Escrevemos movidos pela premissa de que os arqueólogos precisam compreender a importância dos conteúdos linguísticos quando investigam sociedades com línguas vivas ou documentadas.  Neste caso a língua é um portal para vários níveis de interesse acadêmico e dos próprios Guarani, sendo possível submergir até as estruturas profundas do conhecimento conservadas e transformadas na longa duração”.

Esclareceram melhor: “Ou seja, (submergir) para reconhecer o legado da transmissão de conhecimentos de uma geração à outra, fixados nas palavras e nos modos de fazer e usar as coisas. Pensamos que foi esse legado que produziu e manteve a cultura material Guarani com características muito específicas, com aparências e funções semelhantes entre os diversos povos falantes de várias das mais de 70 línguas do tronco Tupi”.

Disseram acreditar que a linguagem registrada por Montoya poderia estimular estudos entre os Guarani atuais interessados na cerâmica. “Seria uma oportunidade para reunir experiências do passado e do presente; seria como um sopro poético das tradições passadas insuflando, inspirando vigor, às práticas tecnológicas da atualidade das comunidades Guarani”.

E prosseguiram: “A regularidade da morfologia nas principais classes funcionais encontradas nos sítios arqueológicos da imensa área ocupada pelos Guarani é uma evidência de que a regularidade linguística também ocorria:  se as vasilhas eram feitas e usadas de modos específicos, é provável que conservassem seus nomes e as linguagens afins.

Um exercício de arqueologia reversa comparada, indo das coleções do presente para as coleções do passado, poderia associar à deriva genética linguística com a diferenciação das vasilhas e encontrar os marcadores que possam permitir identificar no passado a autoria do registro arqueológico em nível de língua ou família.

As regularidades linguísticas e arte factuais materializam aspectos da ontologia Guarani; elas são práticas do ñande reko (nosso modo de ser) que lhes permitiu transmitir suas milenares tradições e mantê-las no presente.

Como evidencia o caso dos Guarani, a morfologia da cerâmica não se separa dos corpos das pessoas; tal inseparabilidade entre corpo e objetos, entre os Guarani, simetrizam humanos e não humanos num mesmo plano ontológico.

Daí que, como a mão humana, a vasilha agarra, pega ou toma o conteúdo que se despeja nela.  Os objetos, assim como a linguagem, são feitos para agarrar. Por isso há uma poética, uma beleza que consideramos tocante numa vasilha Guarani: ela é verso encarnado, verbo feito de barro".

Embasando as lutas

Salientaram os estudiosos que as investigações acadêmicas, a exemplo dessas sobre as cerâmicas, ajudam a embasar as lutas indígenas: “A arqueologia se faz também com e por meio de palavras, e foi isto que nos levou a investigar como as similaridades e transformações de conhecimentos permitem evidenciar persistências históricas no tempo (relacionando passado e presente), possibilitando gerar conhecimento acadêmico para auxiliar as demandas dos povos indígenas pela garantia do seu estilo de vida e manutenção ou reconquista das suas terras”.

A principal conclusão sobre a amostragem atual – dizem os pesquisadores – “ é a de que Montoya testemunhou a existência de um conjunto tecnológico e funcional que não é aleatório, considerando que as vasilhas dos distintos assentamentos não apresentam diferenças significativas.

Ou seja, as vasilhas arqueológicas guaranis encontradas em 5 países da Bacia Platina comprovam que houve um padrão tecnológico repetido/replicado a partir de uma estrutura de transmissão de conhecimentos de uma geração à outra”.

Os autores lançarão em breve um catálogo sobre o assunto. “O catálogo que estamos preparando oferecerá informações abundantes para demonstrar que as vasilhas cerâmicas são a objetificação de uma série de conhecimentos tradicionais acumulados e compartilhados entre as ceramistas de várias gerações”. (Obs.: A execução da cerâmica era uma função das mulheres).

E concluem: “Portanto, agora existe mais consistência para propor que a linguagem da cerâmica Guarani registrada no século XVII possa ser aplicada para dar nome às vasilhas encontradas em qualquer um dos 4.815 sítios arqueológicos (deste povo) registrados até o presente”.

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