PA: Camponeses protestam contra ‘agronegócio’ em Abaetetuba

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Foto: Reprodução/Redes Sociais

Os camponeses que moram no entorno do igarapé Curuperé-Grande, localizado na divisa entre os municípios de Abaetetuba e Igarapé-Miri, no Pará, iniciaram, no dia 28 de abril, uma série de atos contra os crimes ambientais praticados pela multinacional do agronegócio Minerva Foods. Atualmente, a empresa de capital comprador, que atua em vários países da América Latina, tem o príncipe da Arábia Saudita como um dos seus sócios e no Brasil é uma das maiores exportadoras de carne.

O latifúndio está no local há sete anos e possui cerca de 25 mil cabeças de gado. Sua posição geográfica é de declive em comparação às comunidades no entorno do rio, posição ideal para lançamento dos excrementos nos igarapés. Na região vivem cerca de 200 famílias ribeirinhas e quilombolas. Desde sua chegada no local, nunca houve nenhum tratamento dos excrementos dos animais, que são apenas direcionados “in natura” para o rio Curuperé, um dos principais da região.

De acordo com os camponeses, além do rio, pelo menos três igarapés (Igapó-açu, Bacuri e Cataiandeua) são atingidos diretamente com toneladas de excrementos, sem qualquer fiscalização por parte dos órgãos do velho Estado.

Os camponeses denunciam que esse crime ambiental acabou matando a fauna e a flora da região atingidas pelos excrementos, prejudicando diretamente a vida de todas as famílias que dependem da pesca de subsistência. Além disso, os camponeses, sem saneamento básico na região, se veem obrigados a utilizar a água contaminada para beber, cozinhar e tomar banho. Esse contexto está ocasionando o adoecimento de vários camponeses, sendo as crianças as mais afetadas.

Um dos camponeses denunciou que, ultimamente, morar na região tem se tornado um tormento. Os rios, que antes eram cheios de vida, hoje não passam de um líquido pastoso e fedorento. Temendo represálias, os camponeses não se identificam. “O forte odor de fezes e urina é insuportável, se sente a quilômetros de distância. Não existe mais nenhum tipo de vida no local. Onde antes havia peixes, onde as pessoas retiravam água para beber e tomar banho, hoje não passa de um líquido pastoso e esbranquiçado".

A presidenta da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama), Socorro Burajuba, denuncia que essa situação já dura vários anos e nenhum dos órgãos do velho Estado - e tampouco os latifundiários do agronegócio - está interessado em resolver a situação. Com isso, o número de camponeses atingidos só aumenta.

“O povo está há sete anos sofrendo o desastre. A Minerva está acabando com tudo o que é deles. São três comunidades afetadas, cerca de 400 famílias. A fazenda deles pega todo Rio Curuperé. O povo está humilhado, massacrado. Eles viviam da agricultura, da pesca, da roça, são quilombolas e ribeirinhos. A água deles acabou. Ali está só fezes de boi. Empresa não os recebe, os trata pior do que os animais. Já denunciamos muitas vezes, mas os juízes têm que olhar pra nós com outros olhos, somos produtor de fauna e flora. Eles são um povo pobre, muito sofrido e tem o direito de cobrar a vida deles de volta, não querem nada da Minerva, nenhum boi, não querem emprego, querem o rio”, aponta.

Após tanto tempo praticando o crime ambiental, ao longo dos últimos três anos os efeitos se agravaram, prejudicando diretamente a vida de vários quilombolas e indígenas, denuncia Socorro Burajuba. “Quem ia para os balneários começou a sofrer coceira, dor de estômago e as pessoas se afastaram pelo fedor na água muito forte. Aquilo é fonte de renda, ponto turístico, as pessoas sobreviviam daquilo. Estão sem água para beber, água pra tomar banho. Essa empresa descarta, dentro do rio, fezes e xixi há mais de 7 anos. É um impacto grande para uma comunidade muito humilde”.

Outra liderança comunitária também denuncia que esse crime ambiental interfere diretamente na vida de todos os indígenas e quilombolas. “O Curuperé é um rio navegável e a degradação ambiental também impacta o modo de vida da comunidade que depende do rio como fonte de renda”, denuncia.

Cansados de promessas, da negligência do velho Estado e da truculência da empresa, no último dia 28 de abril, cerca de 200 camponeses bloquearam, com barricadas de galhos e pedaços de pau, a rodovia PA-151, na porta de entrada do latifúndio, exigindo a saída da empresa da região. Na manhã do dia 29, os camponeses decidiram manter o bloqueio e acampar na porta do latifúndio até que a empresa saia. Desde o dia 28 nenhum caminhão entra ou sai do local.

Os camponeses, temendo serem assassinados, preferem não se identificar, mas denunciam também que, desde o início do bloqueio, vários capangas e pistoleiros contratados pelo latifúndio estão realizando diversas ameaças, inclusive de morte, às lideranças.

Assassinatos de camponeses na região ocorrem há muitas décadas

Em março de 2018, Paulo Sérgio Almeida Nascimento, que exercia a função de segundo-tesoureiro da Cainquiama, foi assassinado durante a madrugada no Ramal Fazendinha, localizado em Barcarena, município próximo ao latifúndio da Minerva. Antes, em dezembro de 2017, Fernando Pereira (outro dirigente da associação) também foi assassinado a tiros. As lideranças intensificaram desde 2015 as denúncias dos crimes ambientais praticados na região pelo latifúndio e as mineradoras, além de outros conflitos fundiários, que até hoje não tiveram conclusões investigativas ou punições, indicando conluio dos órgãos do velho Estado com os latifundiários (incluído aí o “agronegócio”).

A dirigente da Cainqueama, Clea do Couto Melo, denuncia que Paulo Sérgio estava muito envolvido nas manifestações realizadas desde a criação da associação. Até onde se sabe, o nome dele não constava na lista de ameaçados de morte. “Ele era um homem de luta, muito envolvido nas manifestações. Deixou a esposa e um filho de 12 anos”, conta.

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