Trabalhadores se demitem como protesto em hospitais do Amapá

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Os trabalhadores que atuam como administradores dos maiores hospitais da rede pública do Amapá emitiram uma nota denunciando a precarização dos serviços de saúde e, como protesto, anunciaram demissão coletiva dos seus cargos na penúltima semana de maio.

Essa situação caótica já foi denunciada em outros atos, como o que ocorreu no dia 26 de abril, quando trabalhadores e pacientes denunciaram que os procedimentos só são realizados quando o paciente compra o material necessário. No mesmo mês, os trabalhadores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) paralisaram suas atividades devido às macas utilizadas para transporte estarem sendo usadas como leitos improvisados no Hospital de Emergência de Macapá, conforme já denunciamos em nosso portal.

Os trabalhadores que atuam como diretores nos hospitais - de Clínicas Dr. Alberto Lima (Hcal), da Mulher Mãe Luzia (HMML), de Emergência (HE) de Macapá, Estadual de Santana (HES) e da Criança e do Adolescente (HCA) - denunciam também que a Secretaria Estadual de Saúde não busca soluções efetivas para a situação.

Na nota, os trabalhadores denunciam que os hospitais enfrentam um caos devido à estrutura precária, falta de insumos hospitalares, falta de medicamentos, falta de alimentação para acompanhantes e falta de trabalhadores. Esse cenário é constatado de maneira cruel com altos índices de mortalidade dos trabalhadores que buscam atendimento.

Em outro trecho da nota, os trabalhadores da saúde denunciam que há cobrança diária pelos outros trabalhadores do hospital por melhores condições de trabalho, sendo que em muitos momentos falta o básico. Com o intuito de evitar mais mortes, trabalhadores e pacientes realizam a compra de materiais que deveriam estar em quantidade suficiente na unidade de saúde. Todos estão cansados de se expor e disfarçar a situação caótica atual. A nota é finalizada com a afirmação: “talvez os índices crescentes epidemiológicos possam fazer vossa senhoria refletir”.

Pacientes também denunciam situação caótica

No Pronto Atendimento Infantil (PAI), em Macapá, trabalhadoras denunciaram, no início de maio, que as crianças só conseguem receber a medicação adequada quando podem comprar, pois na unidade é constante a falta de medicamentos, até mesmo os mais simples.

De maneira improvisada e inadequada, as crianças ficam em cadeiras plásticas, situação que agrava ainda mais o seu estado de saúde. Silsie Brito, que estava com a filha de 8 anos internada no início do mês de maio, denunciou que a menina está mal de saúde também devido à falta de estrutura hospitalar. Desde que chegou ao hospital, o seu quadro só teve alguma melhora graças ao fato de ela ter comprado remédios que faltavam. “Eu tinha o dinheiro naquele momento para comprar, mas nem todo mundo pode fazer isso”, expõe.

Já no HE, ainda no início de maio, trabalhadores denunciam que há muitos meses o resultado do exame de raio X só é recebido por telefone, pois não há material para impressão do exame. Quem não possui WhatsApp fica sem acesso aos resultados. Outros exames de imagem não estão sendo realizados.

Além desse grave problema, atualmente a alimentação é fornecida apenas aos pacientes, enquanto que os demais trabalhadores ficam sem alimentação. Uma paciente, que preferiu não se identificar, denunciou: “É preocupante. Não tem tomografia e na sexta-feira [3 de maio] os acompanhantes e funcionários que fazem plantão também não receberam alimentação”.

Também no HE, trabalhadores filmaram o momento em que o cabo de um bisturi pegou fogo durante o atendimento de um trabalhador. Outros trabalhadores do HE ajudaram a apagar o fogo e ninguém ficou ferido. Em outras fotos, os médicos e enfermeiros mostram a situação de cabos elétricos encobertos com esparadrapo para que os pacientes não sofram com choques elétricos.

Em todos os hospitais do Amapá, o fornecimento de alimentação está sendo liberado apenas para os pacientes; os demais trabalhadores ficam sem alimentação. Essa situação já acontece há muitos meses, conforme denunciou recentemente a trabalhadora Greicy Kelly, que acompanhava sua mãe no Hcal. Segundo ela, quem não pode comprar nada acaba passando fome: “Vejo tudo isso como uma falta de sensibilidade. Há pessoas que estão vindo de muito longe, passam horas, deixando até de trabalhar para acompanhar um parente. Eu ainda tive como comprar algo para passar a fome, mesmo sendo uma despesa inesperada. Agora, imagine quem não pode?”.

Em abril, o laboratório do Hcal emitiu um ofício suspendendo as análises por conta da falta de materiais básicos. Essa suspensão atingiu a maioria dos hospitais do Amapá, além de diversas unidades de saúde. No ofício, os trabalhadores cobram uma solução para o problema que ocorre há muitos meses. “Aguardamos uma posição dos setores competentes para resolução da situação”.

Incubadora improvisada de plástico em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI) no município de Santana

Falta de recursos atinge ala para tratamento de câncer

Em março, usuários com câncer tiveram seus tratamentos interrompidos devido à falta de medicamentos. A professora Marcicleide Pantoja denuncia que sua mãe iniciou em janeiro seu tratamento para um câncer de estômago no Hcal, porém, na segunda sessão, foi informada que a última não tinha previsão para ocorrer. “Na segunda sessão de quimioterapia que ela fez, o enfermeiro comunicou a gente que não poderia ser feita a terceira porque não havia medicação e não tinha previsão para chegar. A gente já não está acreditando mais que a cirurgia vai acontecer, por conta dessa falta de medicamento. Me sinto muito frustrada com tudo isso, em ver como o povo é tratado”.

Já a trabalhadora Josiane Teixeira iniciou um tratamento para câncer de mama há cerca de 2 anos, contudo, ainda necessita de medicamentos para conclusão. Sem eles, a doença pode até mesmo retornar, situação que causa desespero, segundo relata. “Quando eu vim tomar a minha injeção em janeiro, eu fiquei desesperada porque não tinha. A gente logo pensa que vai adoecer de novo e regredir todo o tratamento que fizemos. Só quem já passou sabe o quanto é difícil o câncer”, protesta.

Já a trabalhadora Léa Learte, que também realiza tratamento para câncer de mama há cerca de 2 anos, denuncia que essa falta de medicamentos e outros materiais pode até matar. "À morte. É nisso que essa falta dos remédios pode levar a nós, pacientes. É nossa vida que está em jogo e ninguém parece se preocupar com isso. Não tem remédio, não tem agulha, não tem papel higiênico, não tem copo descartável. A gente tem que tirar R$ 120 do nosso bolso para comprar a agulha".

Em Santana, no interior do estado, no final de abril, durante uma vistoria dos conselhos regionais de medicina e enfermagem, foi constatada uma incubadora improvisada de plástico em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI). Esse improviso é inadequado para todos, mas principalmente para os recém-nascidos, podendo até mesmo ocasionar a morte da criança. A trabalhadora Selma Viegas, que acompanhava sua filha, denunciou: “É ruim a situação. Não só pra mim, mas para todas as mães que estão aqui”.

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