Cúpula do regime militar foi cúmplice do tráfico de drogas, apontam dossiês

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João Batista Figueiredo e Pedro Pedrossian. Mato Grosso do Sul, 1980. Foto: Reprodução

Atualmente, os saudosistas militares e civis do regime militar-fascista e a opinião pública reacionária se vangloriam em palavras para afirmar que, nos anos de ditadura, as “coisas eram diferentes”, pois, entre outros problemas, o “tráfico de drogas era combatido”. O “combate ao tráfico” é um dos maiores pretextos utilizados para justificar a repressão ao povo pobre nas favelas e bairros pobres em todo o país e o atual governo de Bolsonaro e dos generais prometem medidas rígidas contra a criminalidade.

No entanto, certos fatos são ocultados em relação ao período de 1964-1985. 

Em reportagem publicada pelo portal The Intercept Brasil no dia 8 de julho de 2019, assinada por Lázaro Thor Borges, dados reveladores são expostos sobre o envolvimento de políticos ligados ao regime militar com o tráfico de drogas, em particular no Mato Grosso do Sul.

Leia também: O governo, as Forças Armadas e o tráfico de drogas

A reportagem, elaborada com dados de documentos secretos do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) tornados públicos em 2005, ligam pela primeira vez políticos do regime ao tráfico de drogas. Os dossiês compilados pelo SNI “incluem cópias de investigações, relatos de policiais federais, descrições de prisões e apreensões, documentos e observações dos próprios agentes”. 

Pedro Pedrossian, ex-governador de Mato Grosso do Sul de 1966 a 1971 e antigo membro do Partido Democrático Social (PDS, que sucedeu a reacionária Aliança Renovadora Nacional – Arena) tem o nome citado por ter como aliado o deputado federal Gandi Jamil Georges, que, por sua vez, era um aliado do regime militar. Segundo os arquivos do SNI, Gandi, sem o menor transtorno, cruzava a fronteira com o Paraguai, na cidade de Ponta Porã, num Opala preto com o porta-malas carregado de armas e drogas, sendo que o carro tinha placas do Poder Legislativo Federal.

Gandi é irmão de Fahd Jamil Georges, traficante de alto coturno popularmente conhecido em Ponta Porã como o “Rei da Fronteira”. Este, segundo a reportagem, “desenvolveu seu império durante a ditadura”, sem nenhum constrangimento. Preso em 1980, ele recebeu a visita do então senador José Benedito Canellas (PDS) e do próprio Pedrossian.

Porém, Fahd só seria condenado décadas depois, em 2005, por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e sonegação. Além disso, ele entrou na lista da Casa Branca como um dos maiores traficantes de drogas do mundo. Ou seja, conclui-se que durante o regime militar não só havia tráfico com o consentimento do governo militar, como este era um dos maiores esquemas do planeta.

Figueiredo visita o estado

A reportagem de Lázaro Thor Borges vai além e aponta que “não só a alta cúpula do governo militar sabia quem era Fahd Georges, como o próprio presidente João Batista Figueiredo foi alertado sobre a atuação do traficante”.

Figueiredo, que presidiu a repressão do regime militar de 1979 a 1985, fez sua primeira visita ao Mato Grosso do Sul em 21 de janeiro de 1981. The Intercept diz que “o SNI preparou um dossiê que cita Fahd como alguém ‘desaconselhável’ para o presidente se aproximar” e que “na época, a visita de Figueiredo serviria também para abafar as críticas da oposição no estado, que condenava a proximidade do governador Pedrossian com o traficante”.

O SNI alertou ainda o general Figueiredo sobre a proximidade de políticos do PSD, partido aliado ao regime militar, com o “Rei da Fronteira”. O órgão afirmou que o traficante financiou campanhas eleitorais de deputados ligados ao PSD com o dinheiro do tráfico de drogas e de armas.

Em seguida, a reportagem cita trechos de documentos do SNI que apontam:

“O relacionamento de amizade de Pedrossian com Fahd Jamil, o qual é conhecido como um dos maiores contrabandistas da área, explorador de cassino e do chamado jogo do bicho, é um aspecto altamente negativo [...] Este relacionamento além de estar desgastando o PDS tem refletido também negativamente na área federal. Já por algumas vezes servidores do SNI foram indagados ‘se o Serviço Nacional de Informações não vê isso.’”

Assim, durante o regime, os traficantes atuavam com liberdade. Um trecho do relatório diz: “Todos os fatos [do funcionamento do tráfico] são do conhecimento de autoridades e órgãos do governo estadual que, entretanto, não atuam devido às injunções políticas que giram em torno da questão, ou até mesmo de seu envolvimento direto no acobertamento de tais ilícitos”.

A corrupção nas entranhas dos serviços de repressão fica mais patente quando aponta-se o fato de que os chefes militares sabiam que o tráfico atuava com a negligência ou participação direta de membros da Polícia Militar e da Polícia Civil do estado, incluindo três delegados. 

A matéria de Lázaro Thor Borges para o Intercept é concluída com outros fatos relevantes. O ex-deputado Gandi Jamil Georges foi procurado, mas não respondeu sobre a citação de seu nome. Fahd Georges e Luiz Duim Neto (que também foi citado na reportagem) não foram localizados, porém sabe-se que Fahd vive até hoje em Ponta Porã e ficou foragido até ser absolvido pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em 2009.

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