Futebol palestino na linha de fogo de Israel

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Os times palestinos Khadamat Rafah e Balata FC em um jogo na Faixa de Gaza. Foto: AFP

A final da Taça Palestina, campeonato nacional de futebol que reúne times de todo o território palestino, estava marcada para acontecer na primeira semana de julho, porém teve de ser adiada após Israel negar autorização para que a delegação do time Khadamat Rafah, cuja sede é na Faixa de Gaza, pudesse ir até a Cisjordânia, onde o jogo seria sediado.

De acordo com a Associação de Futebol da Palestina, o time de Gaza requisitou, no total, 35 autorizações de viagem para a Cisjordânia, porém apenas quatro foram concedidas pelo Ministério de Defesa de Israel. De todo o time, apenas um jogador recebeu permissão para sair da Faixa de Gaza. 

O episódio não é novidade. Durante 15 anos, o campeonato não pôde ser realizado devido à sabotagem feita pelas “autoridades” israelenses e, mesmo conseguindo realizá-lo desde 2015, após uma intervenção da Federação Internacional de Futebol (Fifa), todo ano se repete a mesma complicação para se conseguir as autorizações de viagem. 

Os dois territórios, da Cisjordânia e de Gaza, são espacialmente separados pelo território de Israel, e para ir de um ao outro é necessário o aval do governo israelense. A Cisjordânia sofre com a ocupação territorial sionista, e está coberta de assentamentos ilegais, enquanto Gaza vive sob o cerco de Israel há já quase 12 anos.  

Vista grossa da Fifa

Apesar de ser fundamentalmente uma instituição reacionária, a Fifa reconhece o Estado da Palestina e considera a Cisjordânia território palestino. Entretanto, a Federação se contradiz com suas próprias regras ao ignorar os absurdos perpetrados contra a competição nacional palestina. Em tese, por ser a mais importante organização do esporte no mundo, era seu dever garantir o direito da Palestina, como um Estado independente, de organizar torneios nacionais e que as competições lá sediadas ocorressem sem entraves.

A vice-presidente da Associação de Futebol da Palestina, Susan Shalabi, afirmou em entrevista à Agence France-Press (AFP) de notícias que “a forma como a Fifa está lidando com os israelenses está incentivando-os a agir com impunidade". 

O futebol reflete o conflito entre Palestina e Israel recorrentemente. Outra problemática que está em pauta há anos é de que Israel possui cinco times de futebol, sob controle da Associação Israelense de Futebol (IFA), com sede no território da Cisjordânia, que nunca foi oficialmente anexado. Assim, segundo seu regulamento, a Fifa não deveria reconhecê-los nem permitir que participem de competições, uma vez que ele determina que uma federação só pode atuar em outros territórios com o consentimento do outro país. 

Recentemente, o próprio presidente da Fifa, Gianni Infantino, compareceu à conferência organizada pelo USA no Bahrein, boicotada pelas organizações pró-Palestina. Sua presença no evento, que tratava de relações econômicas e políticas entre os ianques e o Oriente Médio, demonstra que a tendência da Fifa é de se inclinar ainda mais a favor de Israel, e não resolver as injustiças cometidas contra os times palestinos.

Eduardo Galeano narra, em seu livro Futebol ao sol e à sombra, como o esporte serviu em diversos momentos como expressão da luta contra a opressão e o colonialismo. Conta, por exemplo, que  a Argélia, durante sua guerra de independência contra a França, só pôde jogar por meio da federação do Marrocos, país que acabou sendo desfiliado pela Fifa “por tal pecado”. A Palestina, que luta pelo seu reconhecimento e por sua libertação, luta também pela possibilidade de reproduzir sua cultura, e nisso inclui-se seu futebol. O episódio recente reitera o que Galeano já dizia, que o futebol pode vir para abrir os olhos do mundo, mas serve também como ferramenta que legitima o injusto e invisibiliza o apartheid.

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