Brumadinho: 6 meses de impunidade do crime hediondo e continuado da Vale

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Lira Itabirana 

Carlos Drummond de Andrade, 1984 

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

 

No dia 25 de julho, após o meio dia, o Comitê de Apoio ao Jornal A Nova Democracia de Belo Horizonte foi à Brumadinho dar voz aos familiares das vítimas da Vale. Pudemos ouvir diversos relatos de famílias inteiras destruídas e desoladas, que constantemente são perseguidas pela Vale e seus instrumentos policiais, jurídicos, políticos e de propaganda. Estivemos presentes no marco da cidade de Brumadinho e no Córrego do Feijão, onde a Vale ainda desenvolve intensa atividade. 

Completados 6 meses do crime hediondo cometido pela Vale assassina e terrorista, o rompimento da barragem de rejeitos da mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, moradores, familiares e movimentos populares realizaram um ato na entrada da cidade, com um ato e culto ecumênico em memória das vítimas fatais. Ainda em comoção generalizada, os familiares sofrem pela perda de seus entes queridos. Os dados oficiais dão conta de 248 mortos e ainda 22 pessoas desaparecidas. Muitos dos corpos foram encontrados mutilados e há relatos de pessoas que só puderam enterrar partes dos corpos seus parentes. 

Moradores, familiares e movimentos populares realizam ato exigindo justiça e em memória às vítimas. Brumadinho, julho de 2019. Foto: Comitê de Apoio AND - BH

O Comitê de Apoio ao AND - BH conversou com o sr. Wilson, pai de Camila Aparecida da Fonseca Silva, que trabalhava como camareira na Pousada Nova Estância e foi soterrada pela lama. Camila tinha apenas 16 anos e o sonho de ajudar a família a reformar sua casa. Ao perguntarmos se a Vale tem dado assistência, indignado ele afirmou que:

“Esse salário que eles tão dando pros outros, aí. Da minha menina e do meu menino, eles suspenderam, não tá pagando, esse mês passado eles não pagaram” e que “vem muita gente [da Vale] encher o saco lá em casa. Igual eu falei pra você, esse negócio de mandar psicólogo, não preciso de psicólogo não. Eles não podem trazer minha menina de volta [...] eles falam que tão dando assistência, não tá? Não tem assistência nenhuma. Perguntado pelo Comitê se ele considera que a Vale se arrependeu sobre o feito, ele nos disse: “Eles devem estar arrependidos de não ter arrebentado essa barragem antes, porque isso aí tá dando lucro pra eles. [...] eles tão mandando embora daquele minério que tava enfiado naquela barragem lá e que eles agora não precisam de rancar ele na terra. Agora eles não precisam rancar, que ele já tá rancado aí já, passou por cima do povo, matou, agora eles tão lucrando com isso.” “Aquele diretor da Vale, disse que não conseguiu dormir depois que barragem rompeu. Mentiroso, quem não dorme até hoje sou eu que nunca mais vou ter minha filha de volta” “posso morrer, mas não vou morrer calado”.

Após essas denúncias ele também nos disse que a Vale e o poder do Estado têm atuado juntos para manter a impunidade, nos disse que: “Político tá tudo manipulado, têm uns deputados aí que eu não vou citar nome porque eu não tenho prova. Mas tem uns deputados aí que são chapinha desse Neném da Asa [Prefeito de Brumadinho], rouba junto com ele, tão cheios de fazendas por aí.” e que o prefeito “anda com três capangas, direto e reto, capanga armado ainda”. Ainda afirmou que “Sabe o que a Vale significa pra mim? Significa “cemitério[...] foi premeditado [o crime]. Ela [A Vale] tinha consciência de que ia matar. Ela já tinha dado bolsinha pra deixar documento, igual eles deixou na pousada. Uma bolsa impermeável, pra não estragar documento. Ela sabia, a Vale sabia!”.

A esposa de uma das vítimas, que preferiu não se identificar, também nos deu entrevista e denunciou que “A Vale sabia que isso ia acontecer, porque ele [marido assassinado] comentou comigo, que a Vale ia dar férias coletivas pra todo mundo”. 

Sem que haja qualquer punição aos responsáveis pelo crime e com vítimas desaparecidas, mineração no Córrego do Feijão continua. Julho de 2019. Foto: Comitê de Apoio ao AND - BH

O Comitê de Apoio e Solidariedade aos Atingidos pelos Crimes da Vale (Coasa) afirmou: “A Vale quer que seu crime hediondo, premeditado, anunciado e continuado seja esquecido. Querem dar um cala boca no povo, controlando, esmagando sua luta. Usam todos os monopólios de comunicação para seguir sua propaganda de que sem ela não há desenvolvimento do país. Mentira, ela só explora o Brasil, levando pra fora toda nossa riqueza, deixando pobreza, miséria, rastros de destruição e mortes. Seguiremos prestando nossa solidariedade e denunciando que a Vale é assassina e terrorista! Não deixaremos que esse crime seja esquecido! Os responsáveis por mais esse crime contra o nosso povo e nação devem ser punidos! Seguimos com denúncias através de cartazes, panfletos e debates organizando este comitê entre operários, estudantes, professores e bairros da periferia de Belo Horizonte”

Uma companheira do Movimento Feminino Popular (MFP), também estava presente no ato e denunciou: A Vale faz sua intensa propaganda de que a mineração é sinônimo de 'desenvolvimento econômico para Brasil', é mentira! A história da Vale de toda mineração no Brasil é sinônimo de atraso, escravidão, servidão, exploração e destruição. Esse [o crime de Brumadinho] não foi o primeiro nem será o último assassinato em massa que a exploração mineradora cometeu contra o povo brasileiro. A Vale age como feudo onde exerce sua exploração, controlando a vida das pessoas, manda nos prefeitos, vereadores, forças policiais. Chantageia o povo ameaçando, dizendo que sem ela, não pode haver riqueza. Riqueza para quem? Para os monopólios estrangeiros e pobreza e miséria para nossa nação. Por isso afirmamos: Abaixo o roubo de nossas riquezas! Nacionalização e industrialização dos recursos naturais! Prisão para toda a diretoria da Vale e seus cúmplices nos governos! Pelo fim imediato de todas barragens de rejeitos! Justiça para os assassinados, mutilados, familiares e atingidos pela Vale/BHP Billiton/Samarco em Mariana e Brumadinho! 

Moradores, familiares e movimentos populares realizam ato na entrada da cidade exigindo justiça contra o crime da Vale e em memória às vítimas. Brumadinho, julho de 2019. Foto: Comitê de Apoio AND - BH

Depois do crime hediondo temos visto muitas propagandas da Vale de um suposto “esforço de reparação” e nenhuma medida concreta de punição aos verdadeiros responsáveis pelo crime - a diretoria da Vale e seus cúmplices no governo. Ao contrário, a Vale tem seguido com sua atividade de exploração dia e noite e seus trens seguem levando o minério para fora do nosso país, garantindo os lucros exorbitantes dessa empresa monopolista. Tenta manipular a opinião pública dizendo que está fazendo reparação quando tudo, inclusive as mortes, é parte do cálculo de um lucro que compensa para eles. O Estado reacionário através do executivo, legislativo e judiciário seguem acobertando a mineradora em seus crimes. 

Sem que haja qualquer punição aos responsáveis pelo crime e com vítimas desaparecidas, mineração no Córrego do Feijão continua. Brumadinho, julho de 2019. Foto: Comitê de Apoio ao AND - BH

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