Turquia e USA planejam partilha de território na Síria e criação de uma zona militar conjunta

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Veículos de guerra dos Exércitos ianque e turco, em território sírio, 2018. Foto: Ministério da Defesa da Turquia

Após três dias seguidos de pugnas e conluios entre os dois países, USA e Turquia chegaram ao acordo de criarem e administrarem uma “zona de segurança” no Norte da Síria. O acordo avança na partilha do território da nação síria pelas forças imperialistas do USA, Rússia e pelo expansionismo da Turquia, com ocupação militar do país.

O acordo entre Turquia e USA evita, ou pelo menos posterga, a ofensiva militar turca em território sírio que hoje é ocupado por forças curdas financiadas pelo USA e que detêm uma fração do país, na fronteira com a Turquia. Ainda com poucos detalhes, a proposta não informa, por exemplo, quão profunda seria essa zona para dentro das fronteiras sírias: enquanto a Turquia afirma que pretende construí-la com 40 quilômetros a fundo, o USA fala em apenas 10.

O USA propôs o acordo precisamente quando a Turquia decidiu intensificar o envio de tropas ao longo da sua fronteira ao sul, que compartilha com a Síria. O Norte da Síria, mais principalmente o Nordeste, encontra-se atualmente sob controle territorial de grupos armados ligados às Forças Democráticas da Síria (FDS), em sua maioria liderados por organizações formadas por curdos, como é o caso das Unidades de Proteção Popular (YPG). Esses grupos foram altamente financiados e armados pelo USA nos últimos anos, em uma aliança que colocou os curdos na linha de frente para cumprir diretrizes ianques. 

Utilizando-se das forças mercenárias curdas, foi possível para os ianques avançar sobre a nação síria e repartir o território, debilitando o governo Assad (serviçal da Rússia) sem necessidade de uma intervenção militar direta, ou seja, evitar colocar suas “botas no terreno”, expressão que eles sempre utilizam. O uso de paramilitares contratados pelo USA tem, inclusive, se tornado algo frequente nas últimas guerras, como forma de não “sujar” o nome do país com suas políticas imperialistas de intervenção e agressão em outras nações.

O conflito entre os curdos e a Turquia está na ligação entre o YPG e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um partido clandestino, porém com ideologia eclética burguesa, organizado dentro da Turquia, a favor da criação de uma nação curda, o Curdistão. O PKK é considerado uma organização terrorista pelo governo turco, especialmente desde que lançou uma campanha armada contra o Estado turco há quatro décadas. Utilizando-se desse pretexto, Erdogan (à cabeça do velho Estado semicolonial turco) busca avançar a expansão do território turco, invadindo a Síria, em nome da “segurança nacional”.

Leia também: Trump anuncia retirada do USA da Síria

Apesar de acordar a criação da “zona de segurança”, o USA não tem nenhum compromisso efetivo com a autodeterminação do povo curdo. O financiamento de tais grupos pelos ianques se deu a contragosto da Turquia, seu aliado na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). 

Por enquanto, o USA mantém seu jogo duplo com os dois aliados, Turquia e os curdos, porém parece estar, pouco a pouco, abrindo mão dos curdos e de seu papel como mercenários de guerra. No fim de 2018, por exemplo, os ianques anunciaram a retirada de suas tropas da Síria, abandonando os curdos sem qualquer resguardo. O próprio Secretário de Defesa do governo Trump, chefe do Pentágono, renunciou de seu cargo em protesto. Na ocasião, ele afirmou que a retirada das tropas “não demonstra respeito para com os aliados”, ou seja, às FDS, ao YPG e outros grupos similares. 

A Síria e a disputa territorial

A “zona de segurança” criaria, então, uma espécie de barreira militar que consolida a usurpação do território no Norte e Nordeste da Síria. As fronteiras perdidas do antigo Império Otomano são um grande motivo de ressentimento para o velho Estado semifeudal e semicolonial da Turquia, que tem demonstrado intenção de reconquistá-las.

Dessa forma, a “zona de segurança” representa para o USA o controle territorial sobre uma fatia da Síria, mesmo que ainda seja, por ora, partilhada com a Turquia. Assim, o plano do imperialismo ianque segue adiante, como já anunciado em edições do AND, ao dividir e fracionar os territórios no Oriente Médio, e minguar a influência de qualquer “potência regional” que possa surgir, como é o caso do Irã, mas também da Turquia.

Enquanto a guerra prossegue na Síria, ao que, por enquanto, ganha a fração de Assad, apoiada pela Rússia e à sua disposição, o povo e os interesses nacionais sírios seguem sendo soterrados e massacrados por todos os lados da disputa interimperialista. No fim das contas, a guerra continua, pois ainda não se encerrou a partilha do território da Síria, essa negociata que é feita há anos no lombo de suas massas e sua nação.

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