130 anos de Cora Coralina, uma das mais importantes poetisas do país

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No dia 20 de agosto de 1889 nascia Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, mais conhecida pelo povo goiano como Cora Coralina. A escritora, de origem simples, trabalhou como doceira durante boa parte de sua vida na cidade de Goiás, antiga capital do estado de Goiás. Cora Coralina teve seu primeiro livro publicado em 1965, de título Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, quando já tinha 76 anos, apesar de ter começado a escrever seus versos na adolescência. O livro foi eleito por um júri especializado, organizado pelos principais jornalistas de Goiás, como uma das 20 obras mais importantes do século XX.

Alheia a modismos literários, Cora Coralina desenvolveu um estilo próprio, com linguagem simples e que ressaltava o cotidiano dos habitantes do interior do estado. A própria ausência de conhecimento sobre as normas gramaticais rebuscadas de sua época, fez com que seus poemas valorizassem mais a mensagem do que a forma, tornando suas obras acessíveis para o grande público.

Cora Coralina morreu aos 95 anos, na cidade de Goiânia, tendo escrito diversos livros e poemas e recebido significativas homenagens em vida, como o título Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás e muitos outros postumamente, como a Ordem do Mérito Cultural.

Para contemplar a obra desta grande autora, reproduzimos seu poema intitulado Todas as Vidas:

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.

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