Colômbia: Farc anuncia que voltará à ‘luta armada para a autodefesa’

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Diante dos assassinatos sistemáticos de ex-guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), assim como várias outras violações dos “acordos de paz” do governo colombiano, um grupo se arrependeu e anunciou, no dia 30 de agosto, que voltará à luta armada.

Iván Márquez, líder dissidente da Farc, diz no vídeo divulgado que a guerrilha “não tem como alvo soldados nem policiais respeitosos dos interesses populares”, mas “essa oligarquia excludente e corrupta, mafiosa e violenta que acredita que pode continuar a atravancar a porta do futuro de um país”, referindo-se à fração das classes dominantes obstinada em assassinar ex-guerrilheiros.

No mais escancarado reformismo típico dessa organização, Iván assegura às classes dominantes locais que procurará “o diálogo com empresários, pecuaristas, comerciantes e pessoas abastadas do país, buscando assim sua contribuição para o progresso de comunidades rurais e urbanas”.

Após entregarem as armas, a Farc se tornou um partido político que hoje está representado no Congresso colombiano em dez cadeiras, todas garantidas como parte do “acordo de paz”. Seus representantes no velho Estado se colocam contra a volta à luta armada: “A decisão que eles tomaram é um grande erro. Há uma desconexão com a realidade que o país vive atualmente", disse Iván Gallo, senador pela Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc, convertida em partido eleitoreiro). “Embora seja verdade que existem vários argumentos com fundamento sobre descumprimentos do acordo, a via armada não tem cabimento na Colômbia”, afirma, tentando desencorajar os que pretendem retornar à guerrilha. 

Além disso, um ex-líder da Farc, Rodrigo Londoño, agora presidente do partido que surgiu dos “acordos de paz”, disse: “Sinto vergonha por todas as pessoas que nos acompanharam de fora. Quero reiterar à Colômbia, a Cuba, à Noruega [os países verificadores], às Nações Unidas e a toda a comunidade [internacional] que nosso compromisso permanece acima das dificuldades”.

As ilusões dos acordos de paz e sua inevitável traição pelo velho Estado

Um artigo publicado pelo periódico internacional El Diário, apresentando uma crítica às negociações de paz, pontuou que “contrariamente ao que se acredita, a versão moderna das negociações não surgiu de critérios políticos democráticos e pacifistas. Foi estruturada como parte de uma concepção estratégica do USA, cujo objetivo fundamental foi derrotar os grupos subversivos do continente”.

E acrescenta: “É sob a administração de Ronald Reagan (1981-1989) que se institucionaliza o emprego da negociação de paz como instrumento contrarrevolucionário. O conceito da negociação se insere como elemento principal da estratégia contra-insurgente norte-americana conhecida com o nome de Conflito de Baixa Intensidade, que os norte-americanos estruturaram em 1981 para torná-la aplicável em todo Terceiro Mundo”.

Como dito na edição 177 do jornal AND, do ano de 2016, na Colômbia, os “acordos de paz” já foram aplicados em outros momentos, sem resultados. 

Em 1984 declarou-se o “ano da paz”. Naquele ano, velho Estado chegou a um acordo de trégua com a Farc (Acordo de La Uribe) que se estendeu até 1987. Em março de 1985, a Farc lançou um partido político legal para participar de eleições, a célebre União Patriótica (UP) e, em poucos anos, a cifra de assassinatos de militantes desse partido por forças militares e paramilitares superou pelo menos 3,5 mil pessoas.

No mesmo texto disponível em AND (Acordos de paz: a continuação do oportunismo da Farc por outros meios) coloca-se que “desde os primeiros combates em Marquetalia e no seu primeiro programa Agrário, a guerrilha expressou desenvolver a via da luta armada de forma ‘forçada’, ‘obrigados’, por não ter ‘espaços legais’; mas desejando a possibilidade de participar de forma pacífica nos diferentes níveis da velha sociedade. Essa ilusão, claro está, não constitui uma ingenuidade pueril, mas é fruto de que, no fundo, o projeto político que sempre defenderam não supera, no essencial, o marco do projeto imposto pelo velho Estado”.

O caminho democrático e revolucionário

A Organização Maoista para Reconstituir o Partido Comunista da Colômbia, em seu texto Diálogos de paz são parte do caminho burocrático do Estado, publicado em 2013, afirmou: Quando a Farc teve a oportunidade de transformar as relações sociais e de produção e de gerar nova cultura, não o fez. Em vez de formar bases de apoio onde se construiria novo Poder e onde as massas tomariam em suas mãos as rédeas da nova sociedade, aplicou políticas como a cobrança de impostos a latifundiários, narcotraficantes e multinacionais, que em nada servem para resolver os problemas sociais e ambientais que estas geram. Tampouco promoveu de fato a produção nacional em detrimento do lucro imperialista, muito menos melhorou a educação e a saúde nas vastas zonas sob seu controle militar”.

E acrescentam: “O que a Farc busca é reformar a democracia burguesa para poder participar com maiores dádivas na farsa eleitoral. Revisa permanentemente os princípios do marxismo, enquanto se jacta em ser o representante do povo, e carece de uma análise de classe que permita-lhe identificar com clareza amigos e inimigos. As aspirações dos dirigentes não são as aspirações da grande maioria. Limitam-se a reformas, em suas próprias palavras: ‘o que se trata é de ser sérios, de propor coisas sensatas, de ser pragmáticos e aspirar tão somente o que a oligarquia está disposta a conceder’ (Farc-EP, comunicado do Secretariado Central do Estado, 22 de setembro de 2012)”.

Os maoistas colombianos declaram que esta suposta paz “corresponde ao caminho burocrático da reação, do imperialismo e do revisionismo, que serve para reestruturar o Estado e para desviar o povo do caminho da guerra popular. Enquanto isso, tanto a recessão, como aumento de impostos, de concentração de riquezas têm levado a maiores protestos dentro e fora do país”.

Os revolucionários colocam a necessidade de um partido verdadeiramente revolucionário do proletariado que possa ser o guia das massas rumo à vitória. “A Organização Maoista sabe que tem sido a luta e não a conciliação que tem permitido ao povo melhores condições, não tem sido de nenhuma maneira presente das classes dominantes. Rechaçamos que se usem reivindicações das massas para corporativizá-las com fins eleitoreiros. Sem o Partido Comunista militarizado, no entanto, não se logrará a transformação revolucionária da sociedade. Lutemos por reconstituir, sobre a base das lutas e da experiência do nosso povo, o Partido do proletariado que dirija as massas até sua libertação”.

A organização reivindica o marxismo-leninismo-maoismo e os aportes de validez universal do pensamento gonzalo, e declara que confia “que o povo colombiano, temperado através de tanto anos de dura luta, contraporá, ao caminho burocrático da reação e do revisionismo, o caminho democrático, e nos anos que virão, levantará novamente seu punho armado para transformar a sociedade enferma, através da guerra popular dirigida por seu Partido Comunista, que erga, defenda, aplique e desenvolva o marxismo-leninismo-maoismo”.

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