Operações de guerra nos Complexos do Alemão e Maré aterrorizam moradores no Rio

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Corpo de Wellens dos Santos sendo transportado em um carrinho de mão por parentes à UPA do Itararé. Foto: Fabiano Rocha/O Globo

Na manhã do dia 18 de setembro, moradores do Complexo do Alemão acordaram com tiroteios, bombas e granadas, resultado de uma nova operação de guerra da Polícia Militar (PM) na região. Até agora, cinco moradores foram executados e sete pessoas ficaram feridas.   

As principais vias de acesso à comunidade foram fechadas por policiais. Um dos mortos é Wellens dos Santos, de 18 anos. O jovem trabalhava como mototaxista e foi baleado no tornozelo e esfaqueado de forma brutal durante a operação. Parentes do rapaz o levaram num carrinho de mão para Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Itararé, mas Wellens não resistiu e veio a falecer. Segundo uma mulher que acompanhava-o na UPA, em entrevista ao Extra: “Isso é coisa dos policiais. Não é só porque moramos em comunidades que devemos ser tratados assim. A gente mora aqui porque precisa!”.

Os tiros puderam ser escutados antes mesmo das 6 horas da manhã e moradores relatam o desespero de sair para trabalhar ou deixar os filhos nas escolas no entorno do Complexo. “As pessoas têm medo de sair, porque eles chegam sem avisar. Eles não vêm mais à noite, agora é de manhã. As pessoas têm medo de ir trabalhar e sair pra estudar”, relatou um morador à reportagem de AND

Segundo moradores, policiais do Batalhão de Ações com Cães (BAC), do Batalhão de Polícia de Choque, do Grupamento Aeromóvel (GAM), do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e das UPPs participaram da operação, causando terror e promovendo intensos tiroteios. Casas foram destruídas e moradores foram agredidos e esculachados pela polícia ao longo da operação. 

São mais de quatro caveirões e helicópteros blindados circulando pela região promovendo o terror. Os helicópteros, como prática recorrente, passam dando rasante nas casas de moradores atirando e lançando bombas contra as casas da população. Um morador ainda relata que se sente “na guerra do Iraque” e afirma que quando os helicópteros passam dando tiros, as casas chegam a tremer.

Os tiros foram tão intensos que puderam ser escutados em bairros relativamente distantes como Cachambi e Méier. Além disso, os transportes que circulam na região foram afetados e tiveram seu trajeto modificado, impedindo que trabalhadores e estudantes pudessem chegar aos seus destinos. Mais de 14 escolas foram fechadas devido à operação. 

Moradores postaram no aplicativo “Onde Tem Tiroteio” relatos sobre as operações desta manhã. Um morador relata que sua esposa perdeu uma entrevista de emprego por conta das constantes operações policiais e um outro questiona: “Por que a polícia só faz operação nas favelas do Comando?”, em referência ao grupo delinquente alvo preferencial das operações, sugerindo conivência das “autoridades” para com as demais. Afirmam ainda que esta megaoperação em curso visa retirar as bases da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) de dentro das favelas, para implantar bases blindadas em locais estratégicos no seu entorno, assim como ocorreu no Jacaré. 

Foto: Fabiano Rocha/O Globo

Investimento bélico para matar o povo das favelas

Um morador da região, em entrevista ao AND na manhã da operação, relatou a covardia feita diariamente contra o povo nas favelas: 

“Tá visível que o Witzel tem um plano muito claro de manter o trabalhador com medo, tá ligado? Se antigamente nós tínhamos o fascismo mascarado [da PM], hoje todos eles estão com os dentes da cara visíveis, rindo da gente”, afirmou. 

“E dá pra ver que o investimento da polícia está cada vez maior. E de onde está saindo esse dinheiro, né? E de onde está faltando? Por que falta dinheiro para tudo, né? Mas os carros da polícia são todos novos, armamentos novos, contratações novas. Para que, né? E o resultado disso: eles indo nas favelas, principalmente nas favelas de uma das facções, como o Chapadão, Maré, aqui no Alemão, Cidade De Deus, para se vingar,, pra botar terror. Porque a operação não é contra o tráfico de drogas, a gente sabe qual é o verdadeiro objetivo deles”.

Ele ainda relata o terrorismo promovido pela polícia na região atiçado pelo próprio governador. Revistas abusivas em mulheres e toque de recolher são algumas das práticas recorrentes.  Os casos de violência e esculachos diários causam na população rancor, medo e problemas psicológicos. “Teve um caso, em uma das operações passadas, que uma senhora morreu de ataque cardíaco porque tomou um susto com os tiroteios perto da casa dela”, conta.

Witzel promove o terror pela cidade inteira

Foto: OTT-RJ (Onde Tem Tiroteio)

Na mesma manhã, 18/09, no Complexo da Maré, moradores acordaram com tiroteios promovidos pela PM. Em situação parecida com a do Complexo do Alemão, moradores e estudantes foram feitos de alvos pelos helicópteros da polícia. 

Relatos de moradores afirmam que os helicópteros sobrevoavam as escolas da região, disparando diversas vezes em seu entorno. As aulas de diversas escolas da Maré, assim como no Alemão, foram canceladas. Crianças de uma escola ficaram assustadas com tamanha violência policial e tentaram se esconder. Mães relatam o desespero de não conseguirem buscar os filhos nas escolas devido ao terror promovido pela polícia. 

Os tiroteios na Maré foram escutados por estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão, e as principais vias da região foram fechadas, como a Linha Vermelha e a Linha Amarela, que contornam a região da Maré. 

População carioca repudia ações terroristas da PM de Witzel

Nas últimas semanas os muros da zona norte da cidade foram tomadas por pichações com os dizeres Witzel assassino e terrorista!, além de uma importante manifestação no Complexo do Chapadão contra os crimes de guerra da PM de Witzel. 

Leia mais: Moradores do Chapadão protestam contra operações de guerra da PM

O governador deixa claro sua política anti-povo não apenas em suas entrevistas, mas na prática também. Na última semana a Cidade de Deus (CDD) foi tomada por uma megaoperação da PM, já denunciada em AND. Escolas foram fechadas e moradores relatam os abusos e truculências promovidos pela polícia. 

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