SC: Incêndio criminoso atinge o Tabuleiro e guaranis reagem

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Graças aos índios guaranis é que o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, consumido parcialmente pelo fogo na primeira quinzena de setembro, poderá voltar a viver. As aldeias do Morro dos Cavalos, Pirá Rupá/Maciambu e Yaka Porã, vizinhas da maior reserva de conservação e proteção natural integral de S. Catarina, reagiram imediatamente e tomaram para si a tarefa de providenciar as mudas de árvores nativas do lugar (notadamente bioma restinga da mata atlântica) e doá-las ao governo do Estado e à comunidade. Além disso denunciaram, em nota, a repetida impunidade de incendiários e a omissão proposital dos governantes.

As 200 mudas entregues pelos índios (araçá, capororoca, pitanga, butiá, ipê amarelo, jerivá, etc) foram plantadas no último sábado, 21 de setembro, Dia da Árvore, por cerca de 150 voluntários, num mutirão que reuniu moradores das redondezas do Parque, ambientalistas, amigos dos índios e membros do Instituto Çaracura (que faz a co-gestão daquela unidade).
Os indígenas, que consideram o Tabuleiro uma área pertencente à sua história e tradição, dormiram na sexta-feira no local, ao ar livre, realizando uma cerimônia “de pedido de cura desta terra machucada pelo incêndio”, explicou ao AND a liderança Eunice Kerexú Yxapyry.

Participantes do mutirão de plantio de mudas de árvores na área incendiada. Foto: Henry Muratore

Na queimada ocorrida no setor da reserva localizado no município de Palhoça, próximo a Florianópolis, entre 800 e 1000 hectares foram destruídos, o equivalente a mais ou menos 6 parques do Ibirapuera (SP). Isso sem contar os muitos animais mortos, principalmente pássaros (que não costumam abandonar os ninhos, mesmo frente a um perigo). Acredita-se que tenha sido o maior incêndio que já atingiu o Tabuleiro em toda a sua história, desde 1975. O Instituto Geral de Perícias prometeu investigar a origem do fogo, mas dando razãos aos índios os bombeiros acreditam que tenha sido criminoso.

“Essa suspeita existe pela quantidade de focos e pela rapidez com que as chamas se espalharam. É possível que tenha sido utilizada alguma forma para alastrar a queimada, como uma técnica que usa mangueiras para espalhar as chamas ou mesmo combustível”, concordou Carlos Cassini, gestor do Parque, em entrevista à mídia monopolista.

NOTAS APONTAM O CRIME

Em 11 de setembro a TI Morro dos Cavalos (incluindo a aldeia Pirá Rupá do Maciambu) divulgou a seguinte nota:

“Hoje começaram os incêndios aqui próximo à nossa aldeia, em Palhoça, Santa Catarina.

São incêndios criminosos, grileiros de terras articulados com a indústria da construção civil e anti-indígenas visam roubar nossas terras e erguer condomínios na área do Parque Estadual Serra do Tabuleiro.

A omissão proposital do governo federal e do governo estadual, a sensação de impunidade devido ao parcialismo do judiciário causaram perdas irreparáveis na fauna e flora do Parque e ameaça os territórios indígenas guarani de Santa Catarina, inclusive nossa aldeia localizada na área do Parque.

Precisamos de organização para nos autodefendermos desses inimigos dos povos indígenas.

Kerexú Yxapyry – líder Guarani do Território Indígena Morro dos Cavalos”

Nota da Comissão Nhemonguetá:

“O incêndio consumiu uma das restingas mais desenvolvidas do sul do Brasil (Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, Palhoça/SC). A Amazônia é aqui! #sosmatatlantica
Gato-do-mato-pequeno, mão-pelada, gato morisco, ratão do banhado, cuíca, cutia, cachorro do mato, capivara, tamanduá mirim, saracura, serelepe, tatu galinha, tatu do rabo mole, ouriço, jacaré do papo amarelo, lontra, anta, cobra coral, cobra dágua, cobra cipó, lagarto, cágados, gambá, furão, mais de 200 espécies de aves…Orquideas, bromélias, butiás, jerivás, tarumãs, araçás, pitangas, grumixamas, camarinhas, baga de bomba, ticum, bacuparis, mangue formiga, erva baleeira, vassoura branca, vassoura vermelha (…) dezenas de espécies de abelhas nativas…”

Grupo de guaranis no Parque, após a doação das mudas. Foto: Henry Muratore

“TAPA DE LUVA”

“Os índios doarem a arborização ao governo foi quase um tapa de luva, mostrando a força e a sabedoria deles. O Estado vive sabotando os guarani. E eles devolvem assim, com uma tremenda generosidade”, comentou um dos ativistas presentes no mutirão.

E ele estava certo. As classes dominantes anti-indígenas sempre contaram com o apoio das gerências do Estado de SC, seus políticos, sua justiça e sua mídia para prejudicarem os direitos da tribo. Existe ademais um incitamento covarde contra os guaranis, que é realizado intensamente em Palhoça e região, junto às camadas médias e ao povo mais pobre/trabalhador. Essa campanha de ódio é efetuada por empresários, políticos (como o vereador Nirdo Artur da Luz, o “Pitanta”, acusado em 2016 de pertencer a uma quadrilha-do-colarinho-branco que desviava dinheiro das crianças excepcionais da APAE) e a imprensa burguesa.

Chegou a existir também um Movimento Contra a Demarcação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, que espalhou mentiras sobre os guaranis aos quatro ventos. Esse movimento foi criado com o incentivo de empresários poderosos do setor de condomínios de luxo, hotelaria e água mineral com o objetivo de tirar os índios daquela área, que a partir disso poderia ser tomada por lucrativos negócios, com o apoio de uma “opinião pública” atiçada contra os guaranis.

ALI ESTÃO AS NASCENTES

O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro,o maior de SC, foi criado em 1975 com o objetivo de proteger a rica biodiversidade da região e os mananciais hídricos que abastecem as cidades da Grande Florianópolis e do Sul do Estado.

O Tabuleiro ocupa cerca de 1% do território catarinense. Abrange áreas de vários municípios, entre eles Florianópolis e Palhoça. Localizado em uma região estratégica, única e muito especial da Mata Atlântica, o Parque possui uma ampla diversidade de habitats. Cinco das seis grandes formações vegetais do bioma Mata Atlântica encontradas no Estado estão ali representadas.

Essencial para a proteção desses ecossistemas e toda sua biodiversidade, o Parque também é de extrema importância por outros motivos. Protegidas pela exuberante vegetação da unidade estão as nascentes de rios como o da Vargem do Braço, Cubatão e D’Una. Esses rios fornecem água para grande parte dos domicílios da Grande Florianópolis e do litoral sul do Estado. A reserva atua ainda, devido a suas características de solo, relevo e vegetação, como um importante regulador climático para essas regiões.

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