Auditório fica lotado na USP para ouvir lideranças camponesas, quilombolas e indígenas

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Fotos: Comitê de Apoio ao AND

No último dia 03/09/2019, como parte da programação do XII Encontro Nacional de Pós-graduação em Geografia (ENANPEGE), ocorreu a importante mesa Com a palavra os povos: diálogo com os sujeitos e seus lugares, organizada pelos pesquisadores Fábio Alkmim (USP) e Gustavo Cepolini (Unimontes/USP) e que contou com a presença de lideranças indígenas, camponesas e quilombolas.

Compuseram a mesa lideranças indígenas do Território Indígena Sete de Setembro; da etnia Suruí e do Território Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, ambos em Rondônia; representante da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas e Sul da Bahia; liderança do Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca, localizado no Vale do Ribeira, estado de São Paulo e liderança do Território Indígena Tupinambá de Olivença, no Sul da Bahia. Mais de 250 pessoas lotaram o auditório Milton Santos, na Universidade de São Paulo, ouvindo atentamente, durante mais de duas horas, os relatos, denúncias e a avaliação sobre a situação política daqueles que lutam diária e concretamente pelo direito à terra e seus territórios, particularmente no atual cenário político em que se aprofunda a repressão do Estado contra a luta pela terra, promovida pelo gerenciamento latifundista de Bolsonaro, tutelado pelo Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) e a serviço do imperialismo, principalmente ianque.

O público do evento, além de perguntar sobre questões específicas abordadas pelos palestrantes, foi unânime em parabenizar a organização do XII ENANPEGE por promover tal espaço, enfatizando a carência de debates na academia com a participação daqueles que lutam por suas terras, territórios e seus direitos no campo, que enfrentam diariamente a mentirosa propaganda do “agro-pop”, a repressão policial/militar e dos grupos paramilitares a serviço dos latifundiários. É importante destacar que esta mesa, realizada em um dos mais importantes eventos acadêmicos da área de Geografia no país, ocorreu no mesmo momento em que os latifundiários, insuflados pelos discursos reacionários da extrema-direita bolsonarista, incendeiam a Amazônia Legal como justificativa para ampliar a militarização da região com envio de tropas das Forças Armadas reacionárias para debelar as labaredas da luta pela terra desenvolvida por camponeses, comunidades remanescentes de quilombolas e povos indígenas na região, como denunciou a chamada de capa da última edição de AND: Latifúndio bolsonarista incendeia Amazônia para militarizar o campo.

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As lideranças indígenas de Rondônia, Awapy Uru Eu Wau Wau e Walelasoetxeige Paiter Bandeira Surui, destacaram os recentes ataques às Terras Indígenas por madeireiros e latifundiários, cujas ameaças são cotidianas e possuem respaldo nas manifestações públicas de ódio ao povo e entreguismo, cometidos por Bolsonaro e seus aliados estaduais. As lideranças apresentaram ainda algumas imagens e vídeos que revelam a invasão das Terras Indígenas e o permanente conflito na região, que é alvo dos incêndios criminosos dos latifundiários bolsonaristas. Awapy Uru Eu Wau Wau mencionou que já estão tentando lotear parte da Terra Indígena e, por isso, estão na resistência para denunciar e buscar apoio nacional e internacional para assegurarem seus direitos.

Já a liderança do Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca (São Paulo), Nilce Pontes, apresentou uma eloquente análise sobre o papel da universidade, sobremaneira, da ciência geográfica do debate e construção comum, ou seja, como romper com as estruturas coloniais para assegurar voz e direitos aos quilombolas que seguem em luta e falam por si! “Nós por nós” construindo nossas territorialidades para libertar cotidianamente nossos territórios em várias dimensões.

O representante da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no Sul da Bahia, Casé Angatu, iniciou a atividade com uma manifestação das lutas que perduram 519 anos, ou seja, nunca saíram da luta! Trata-se de um resgate histórico sobre o lugar dos indígenas na construção de uma “soberania” que violenta os povos originários, bem como os quilombolas, camponeses, entre outros. Dentre as indagações expostas pela Comitiva Tupinambá ficou evidente a perseguição em curso e alguns caminhos para organização dessa resistência.

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A representante da LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia traçou um panorama histórico sobre a luta pela terra desenvolvida por camponeses, quilombolas e indígenas desde a colonização portuguesa. A representante da Liga enfatizou os vários exemplos de luta e heroísmo do povo brasileiro, evidenciando como a questão agrária, da luta pela destruição do latifúndio e a distribuição das terras para os camponeses, quilombolas e indígenas está no centro da atual crise econômica, politica, social, moral e institucional que se arrasta no país nos últimos cinco anos. Nesse sentido, a representante do movimento afirmou que as declarações de guerra contra a luta pela terra, cometidas diuturnamente por Bolsonaro, e medidas como o decreto que legaliza a posse de armas de fogo em todo o perímetro dos latifúndios, representam ações desesperadas de um governo latifundista comandado pelos militares frente ao inevitável crescimento e radicalização da luta pela terra, no rastro do inevitável agravamento da crise no país, como parte da crise estrutural que abala todo o sistema imperialista mundial.

Trata-se de um debate fundamental para a Geografia brasileira, sobretudo, num evento que congrega os pesquisadores da pós-graduação de todo o país e também do exterior. Esse debate urge para resistir e construir alternativas frente à reacionarização do velho Estado e o crescimento do fascismo. Dessa maneira, os participantes foram questionados e tensionados para agirem frente esse cenário conflitivo. Por isso, enfatizamos que é um debate para ganhar as ruas! Os conflitos por terra e território revelam a face mais perversa desse capitalismo putrefato e desse velho Estado que há séculos violenta e massacra os indígenas, quilombolas, camponeses, entre outros povos e comunidades tradicionais. Por isso, a semente da resistência segue germinando aqui e acolá. Vamos à luta!


Nota

*Gustavo Henrique Cepolini Ferreira é professor do Departamento de Geociências – Unimontes, Coord. Didático do Curso de Geografia - Bacharelado - Unimontes e Coord. do Núcleo de Estudos e Pesquisas Regionais e Agrários – NEPRA – Unimontes.

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