Bloco VI da UFMS é ocupado em resposta ao projeto 'Future-se'

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Na noite do dia 25 de setembro, mais de 80 estudantes articulados em 11 cursos decidiram, em assembleia estudantil e por unanimidade, ocupar o Bloco VI da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

A ocupação do bloco se deu como uma resposta dos estudantes que não apoiam a aderência ao projeto “Future-se”, e os estudantes exigem que a reitoria se manifeste negativamente em relação ao projeto. 

Uma reunião do conselho universitário entre acadêmicos e a reitoria ocorreria no dia 27 para tratar do assunto, mas a reitoria, prevendo manifestações contundentes, adiou o compromisso para o dia 31.

Além de protestarem contra o novo projeto, os estudantes também protestam contra os cortes de verbas e bolsas. A UFMS é apontada como a segunda universidade com o maior corte entre as instituições de todo o país, calculando-se em torno de R$ 80 milhões a menos para a universidade apenas este ano.

Na ocupação, estão sendo organizadas agendas que promovem debates, exibição de filmes, diálogo com os professores e com o restante da comunidade acadêmica. Todos estão comprometidos em alguma função interna, desde cozinhar para toda a ocupação, até cuidar da limpeza do bloco, demonstrando estarem bastante disciplinados e rigorosos com os cuidados.

É importante ressaltar que vários cursos e centros acadêmico tiveram peso na decisão e construção da ocupação, e que o movimento está sendo tocado por vários estudantes indignados com o rumo que está seguindo a educação pública. Portanto, não se trata de uma ocupação de um grupo só ou puxada por apenas um centro acadêmico. 

A UFMS como a lança e o laboratório do "Future-se"

Professores e estudantes sustentam a hipótese de que a UFMS estaria servindo de laboratório e embrião do projeto “Future-se”. Os indícios dos fatos que sustentam esse argumento começaram na 71º Encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), evento que aconteceu no final de junho deste ano. 

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A universidade sediou um dos maiores eventos de ciências do país, mobilizando verbas astronômicas para o investimento na estrutura de um evento de suporte gigantesco. Na ocasião, o vice-ministro da Educação esteve presente no dia da abertura, posicionando-se a favor do “Future-se” e fazendo falas que mais pareciam uma propaganda do projeto do que saudações ao encontro.

Na mesma semana da SBPC, a reitoria emitiu uma portaria anunciando à luz do dia a nomeação de uma agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para assessorá-la, sendo a primeira instituição de ensino a publicitar tal contratação de serviço. 

A notícia escancarada de que uma agente da Abin participaria a partir daquele momento da vida acadêmica da UFMS não surpreendeu o corpo discente e docente, tendo em vista que não é novidade alguma as universidades usarem da prática de espionagem dentro de suas imediações. Porém, o anúncio em público dessa assessoria poderia representar algo: um prelúdio para a implementação do “Future-se”; uma maneira de amedrontar os futuros insurgentes contra o projeto e um jeito de dizer que “a partir de agora a universidade tudo vê e tudo sabe”.

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A segunda evidência dessa hipótese é a postura do reitor Marcelo Turine e os rumos que a universidade estava tomando antes mesmo do “Future-se” ganhar formatos. Antes do encontro da SBPC, Turine já estava dialogando com os negociantes do projeto “Future-se”, promovendo um conselho de professores para tratar da discussão da privatização da universidade, demonstrando ser um dos primeiros indicativos de uma possível abertura da universidade para qualquer tipo de projeto privatizador. 

É evidente que seu posicionamento está alinhado com o governo reacionário de Bolsonaro e dos generais, mas, em certos momentos, ele assume duas facetas de negociação, ora negociando timidamente a favor dos estudantes, ora a favor dos urubus carniceiros que rondam a universidade. Esse posicionamento pendular, ambíguo, de querer agradar a gregos e troianos e não se posicionar de fato, é, na realidade, uma estratégia política: a reitoria quer primeiramente monitorar os estudantes e professores que não apoiam o novo projeto, acompanhando o movimento para se ter experiências estratégicas de como se dará essa implementação passo a passo, para depois poder exportá-las para as demais universidades.

A UFMS, ao não se posicionar para bater o martelo final da aderência ou não ao “Future-se”, está agindo para que se tenha mais tempo para que a implementação do projeto ocorra sem gerar muito tumulto entre a comunidade acadêmica, além de ser também uma estratégia de abafar e desmobilizar o movimento estudantil. 

As práticas de perseguições políticas também podem começam a entrar em jogo. Alguns estudantes estão receosos de receberem processos e cartas de intimação, já que na última combativa ocupação ocorrida no dia 13 de maio alguns foram intimados. Um fato curioso é a ocupação não estar recebendo o apoio massivo dos professores como recebera a última do dia 13 (ocupação anterior a SBPC). Alguns estudantes, ouvidos pela equipe de AND, suspeitam que os professores estão com as mãos amarradas pelas ameaças da reitoria. 

Foto: Comitê de Apoio ao AND - Campo Grande (MS)

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