MS: Estudantes relatam militarização da UFGD a pedido de interventora

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Agentes da Força Tática da PM no Conselho Universitário. Um dos policiais carrega uma câmera no peito. Foto: Movimento estudantil da UFGD

Publicamos a seguir na íntegra o relato feito por estudantes dos últimos episódios ocorridos na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), em Mato Grosso do Sul, denunciando o processo de militarização na instituição. A universidade hoje tem como reitora a interventora Mirlene Damázio, nomeada pelo Ministério da Educação de Weintraub e Bolsonaro.


Após grande pressão da comunidade acadêmica, foi convocada uma reunião do Conselho Universitário (Couni) para último dia 26 de setembro para discutir questões importantes como o posicionamento da universidade em relação ao “Future-se” e a cobrança de taxas nas pós-graduações.

A interventora Mirlene Damázio - nomeada pelo MEC em junho desse ano para ocupar o cargo de “reitora pró-tempore” -, temendo o protesto dos estudantes e professores que se mobilizaram para dizer não ao projeto privatista, convocou guardas municipais para “garantir a segurança”. Após intimidarem estudantes e agredirem verbalmente um professor, os guardas foram expulsos do prédio da unidade I da UFGD por um protesto.


Agentes de repressão no Couni. Foto: Movimento estudantil da UFGD

A interventora, se recusando a participar do Couni alegando “riscos a segurança”, se trancou em sua sala e se reuniu a portas fechadas com outros representantes da direção. Ao mesmo tempo, chamou reforço policial alegando que a universidade estaria ocupada por estudantes e professores. Sua postura antidemocrática ficou patente ao chamar a polícia para intimidar estudantes e professores que queriam participar de um Conselho Universitário que, por seu regulamento, é aberto ao público acadêmico.

Dessa forma, fora os 4 agentes da Guarda Municipal enviados, outros 7 da Força Tática da Polícia Militar entraram na universidade, se posicionando de guarda ao redor da sala da interventora. Logo em seguida, também chegou uma comitiva da Polícia Federal fazendo o papel de “intermediação” enquanto mapeava os estudantes presentes. Como foi visto numa nota do monopólio de imprensa local, toda essa “operação de guerra” para garantir a ordem foi orquestrada no dia anterior a pedido da própria interventora em uma reunião com o capitão da Guarda, justificando que havia uma ameaça de invasão do campus.


Policiais militares e guardas minicipais em frente a reitoria durante reunião do Conselho. Foto: Direto das Ruas

DELEGADO DA POLÍCIA FEDERAL COAGE ESTUDANTES

Em determinado momento, o Delegado da Polícia Federal adentrou no campus com os homens da Força Tática com a clara intenção de intimidar os estudantes e professores presentes.

Enquanto representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), professores e estudantes dialogavam com o delegado da polícia, este passou a ameaçar os estudantes que filmavam a conversa. Depois de ordenar repetidas vezes que os estudantes parassem de filmar, passou a intimidar um deles (lembrando que esta é uma medida de segurança pessoal, usada em manifestações e situações de confronto, principalmente contra as forças de repressão) e o coagiu exigindo seu nome e documento. Como o estudante se recusou a entregar e vendo o rechaço dos demais sobre tal atitude, o delegado desistiu, alegando que apenas fez isso para “mostrar que tinha o direito”, que “tinha autoridade para tal”.


Guarda Municipal na reitoria. Foto: Reprodução/Movimento estudantil da UFGD

Nessa situação, mais uma vez o oportunismo eleitoreiro demonstrou ser o mais fiel defensor da velha ordem. Enquanto estudantes se indignavam diante da coerção do delegado e do grave ataque contra a autonomia universitária e a liberdade de organização, o oportunismo censurou o estudante que havia continuado filmando, apontando que devia ter obedecido a ordem do policial, que este estava com razão ao exigir seu documento e mesmo ao absurdo de defender que tal estudante deveria ter sido preso.

Esses lambe botas do velho Estado, que chegaram a colocar que as forças repressivas estavam “do lado dos estudantes”, provavelmente aplaudiriam também caso algum estudante fosse agredido ou morto, defendendo a “autoridade” da polícia de usar a repressão contra estudantes e professores dentro de uma universidade federal. Enquanto apelavam para o legalismo e a burocracia nos diálogos entre OAB e policiais, quase que jurando seu imobilismo e pacifismo, de que “nada estava acontecendo de errado”, “não estamos incomodando”, etc, não apontavam nem um pio sobre o grave ataque à autonomia universitária com a entrada de todo esse aparato de policiais dentro do campus.


Professor e estudantes dialogam com policiais e guardas ao lado de fora do prédio da reitoria. Foto: Direto das Ruas

Em contraposição a esse imobilismo, a Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), junto ao Centro Acadêmico de Pedagogia da UFGD, demarcou uma posição combativa na reunião estendendo uma grande faixa onde lia-se: Abaixo a Privatização da Universidade Pública! Contra a intervenção na UFGD!

Conselho rechaça 'future-se' e intervenção

A partir do momento em que a interventora se trancou em sua sala guardada pelas forças da repressão e não compareceu ao Couni, os conselheiros decidiram dar prosseguimento a reunião do conselho mesmo sem ela. De lá, votam por unanimidade o rechaço ao projeto “Future-se”, além da convocação de uma assembleia geral da UFGD composta por professores, estudantes e técnicos, conforme está previsto no regulamento. No final da reunião, o conselho emitiu nota afirmando não reconhecer Mirlene Damázio como reitora da universidade, “tendo em vista que a lista tríplice da eleição para a reitoria está válida juridicamente”. O Couni também aprovou o envio de ofício ao Ministério da Educação cobrando a nomeação do primeiro nome da lista tríplice das eleições ocorridas no começo do ano.

O Couni afirmou que a manutenção da professora como reitora pró-tempore “não respeita a escolha democrática da comunidade acadêmica”, e prosseguiu:

“Como órgão máximo de uma instituição de educação, o Couni não poderia deixar de expressar que essa indicação representa, também, oposição às premissas basilares de uma instituição educacional comprometida com o processo formativo, crítico e inclusivo, que valorize a diversidade e a pluralidade e que, dessa forma, fomente a construção de uma sociedade, efetivamente, democrática”.


Policiais e guardas municipais em frente a universidade. Foto: Movimento estudantil da UFGD

No mesmo momento em que estava ocorrendo a reunião do conselho, a interventora lançou uma nota cancelando a reunião alegando “a invasão de pessoas com instrumentos musicais, balões e gritos, bem como a falta de segurança necessária para que a mesma ocorresse com regularidade de procedimentos”. A reunião do conselho para o dia 04/10, porém, entidades representativas dos estudantes, técnicos e professores se posicionaram contra tal adiamento defendendo a legitimidade da reunião do conselho realizada no dia 26/09.

INTERVENÇÃO AVANÇA NA UFGD

A justificativa barata do MEC para colocar uma interventora na UFGD foi de que não poderia nomear ninguém da lista tríplice, pois o processo de eleição estava sob “judicialização” que contestava o resultado. Esta justificativa caiu por terra no ultimo dia 13 de agosto, quando o juiz Moisés Anderson Costa Rodrigues da Silva, da 1ª Vara Federal em Dourados, julgou improcedente a ação do MPF contra a lista tríplice, sendo que, assim, a lista passaria a valer.

Porém, a interventora continua no cargo e avança o processo de controle dentro da instituição. No dia 2 de setembro, ela decide por intervir na nomeação dos diretores de todas as faculdades que tiveram processo de eleição, só voltando atrás pela grande pressão de estudantes e professores contra essa investida. Como aponta o monopólio de imprensa local, Mirlene e seu vice chegaram a participar de uma reunião de filiação do PSL, partido do fascista Bolsonaro. Na ocasião, chegou a declarar “não ter prazo para deixar o comando da instituição” e que “segue as orientações emanadas diretamente pelo MEC”.

Os atos do dia 26 só demonstram como a intervenção irá se desenvolver dentro da universidade. Para barrar esses ataques, só a luta combativa dos estudantes e professores, se apoiando na vontade destes e não na falsa legalidade e em métodos burocráticos, impondo o co-governo estudantil passo por passo como forma de ampliar a democracia universitária e defender sua autonomia, derrubar a intervenção e barrar seus projetos privatistas.

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