RJ: Investigação revela laços entre grupos delinquentes e o Batalhão de Operações Especiais da PM

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Traficantes varejistas tiram foto com fuzis ao lado do 'caveirão' da PM na Serrinha, zona norte do Rio. Foto: Reprodução

Grampos telefônicos divulgado pelo jornal Extra, no dia 7 de outubro de 2019, mostram conversas entre um policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar (PM) e um traficante varejista de nome Walace de Brito Trindade, conhecido como "Lacoste", chefe do varejo de drogas no Complexo da Serrinha, em Madureira, na zona norte do Rio. Nas mensagens eles planejam a execução de um oficial do 9° Batalhão da PM (Rocha Miranda), combinam a venda de armas e trocam informações sobre operações.

As conversas estavam no aplicativo BlackBerry Messenger e aconteceram entre 2014 e 2015. Elas foram descobertas pela Polícia Federal (PF) que, com autorização judicial, grampeou o telefone de Lacoste. 

No dia 13 de novembro de 2014, o agente do Bope - batalhão da PM propagandeado como a mais “eficaz” e “honesto” no “combate ao crime” - diz ao traficante: “Bom dia, meu rei. Tudo tranquilo, ou esse brocha do XXX tá zoando a comunidade?” (referência ao policial do 9º Batalhão da PM cujo nome não foi revelado). O traficante responde: “Tá meu rei, nem fala”. O PM então continua: “Pô, meu rei, manda buscar ele em casa sem levantar suspeita. No sapatinho, manda levantar onde ele mora e manda pescar. É o único jeito, ou então espera esse arrombado sair, que já tá perto”. “Manda ver onde mora e quando ele for sair de casa, forja um assalto e rasga ele”, completou o agente.

Uma semana mais tarde, no dia 20/11/2014, o agente do Bope volta ao assunto: “Tem que ser longe daí”. E continua: “Glock com silenciador e carregador goiabada de 100 tiros, , vai brincar com ele. Esse cara tá com marra de brabo, manda ele pro caralho”. O traficante responde: “Correto, vou ver. Tinha que arrumar uns caras pra fazer essa parada, meu rei”. “Não é difícil, não”, responde o agente. Eles não voltam a tocar no assunto.

Vazamento de operações do Bope para o traficante

Em conversas entre os dias 24 e 25 de novembro de 2014, o agente avisa ao traficante varejista que o Bope vai ocupar a Vila Aliança, em Bangu, na zona oeste do Rio, favela dominada pelo grupo delinquente Terceiro Comando Puro (TCP), o mesmo que controla a Serrinha.

Pô, meu rei, tá rolando um papo que mataram o irmão de um oficial aqui do Bope. Vai tampar a Vila por tempo indeterminado até pegar o Mano”, escreveu o policial. “Mano”, a quem o policial se refere, é o traficante Rafael Alves, conhecido como "Peixe", chefe do tráfico varejista na Vila Aliança.

O agente do Bope, preocupado com o chefe do tráfico, aconselha ao integrante do TCP a sair da favela. “Tem que mandar o Mano ir pra bem longe, porque vão fazer carga lá até pegar ele”, sugeriu.

No dia 25 de novembro daquele ano, por volta das 6h da manhã, o agente avisa ao traficante sobre uma operação do serviço reservado do batalhão. “Meu rei, a brasa tá quente, dá mole aí não. Fica ligado que a P2 do Bope está indo para a rua fazer operação”. Eles ainda chegam a combinar a entrega da “Meta”, nome usado para se referir à propina paga pelos delinquentes aos policiais. O agente do Bope responsável pelas mensagens ainda não foi identificado, segundo a Corregedoria da PM.


Aliança entre policiais e varejistas começou a ser investigada em 2014 pela PF. Foto: Reprodução

PM leiloa fuzil e drogas para varejistas e ‘milicianos’

A mesma investigação descobriu que a ligação de policiais do 9° Batalhão da PM com traficantes varejistas da Serrinha era bem mais forte do que se pensava. No dia 20 de março de 2015, o Bope apreendeu um fuzil, munição e drogas na comunidade. Logo após, em mensagens trocadas novamente pelo aplicativo BlackBerry Messenger, um policial oferece o fuzil apreendido a um varejista da própria Serrinha. O homem, conhecido como “Coelhão”, seria o braço direito de Lacoste. 

O policial diz: “O pó e o AK ele tá vendo porque o maluco da milícia lá de Campo Grande quer pagar R$ 45 mil na mão e o pó tem um cara lá querendo pagar porque eles estão falando que é puro” [sic], em conversa datada do dia 21 de março de 2015.

O policial ainda disse ao traficante que a equipe que apreendeu o fuzil e as drogas não era a dele e que, por isso, queria vender o material aos traficantes da Serrinha. “Mas o ‘zero um’ me jurou que amanhã vai resolver. Porque agora eles estão indo para o Complexo do Alemão, mas amanhã vou na direção deles e vou resolver isso sem falta para vocês”, afirmou o PM.

Quatro dias após a conversa com “Coelhão”, o policial oferece um fuzil a um traficante conhecido como “Gordão”, do Complexo da Pedreira, em Costa Barros. A arma teria sido apreendida no Complexo do Chapadão. Os dois complexos (Pedreira e Chapadão, ambos na zona norte) são dominados por grupos rivais, porém, na mensagem, o traficante responde ao policial que R$ 45 mil, segundo ele, “está puxado”.


Grampos revelaram a negociação para venda de fuzil. Foto: Reprodução

A falência de um Estado narcotraficante

As conversas, apesar de flagrar especificamente um policial, revela a própria essência da PM: um bando conformado e temperado na prática do banditismo, sadismo e na prática lúmpen degenerada.

Formada na lógica da guerra às massas e da ausência completa de valores populares, a corporação é educada no sentimento de ódio profundo às massas pobres e trabalhadoras; na cultura do saque aos bens públicos e do povo, e na relação íntima com a delinquência da qual faz parte. A posição de “autoridade pública” confere-lhe o privilégio de extorquir a população, aplicar a violência quando bem entende e humilhar os jovens e trabalhadores das favelas.

Os grampos tornam evidente, além disso, que a tal “guerra às drogas”, longe de sê-la, é uma política para prejudicar determinados grupos delinquentes em benefício de outros, aos quais as “autoridades” são mais ligados e de quem tiram mais proveito. O resultado da aplicação dessa política é promover as operações de guerra em favelas habitadas por milhares de operários, trabalhadores e estudantes, cujo saldo é, até julho de 2019, mais de mil mortos só no estado do Rio de Janeiro.

Já aqueles magnatas e grandes financiadores do tráfico de drogas, certamente conhecidos e, até quem sabe, íntimos das “autoridades”, não são incomodados com operações policiais e tampouco têm afetados os seus lucros astronômicos conseguidos com tal negócio.


Homens com fuzil tiram foto fazendo sinal de uma facção criminosa ao lado de viatura da PM. Foto: Reprodução

 

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