Povo haitiano promove protestos por dois meses consecutivos

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Há dois meses as massas haitianas se levantam em uma grande rebelião contra a miséria, o governo de turno corrupto e lacaio do imperialismo Ianque de Jovenel Moïse, e em reação à brutal repressão das forças de “segurança” do velho Estado. Os protestos, que começaram com a crise de combustíveis no país, no dia 15 de setembro, perduram até hoje, quando, ao total, 19 pessoas foram assassinadas pela polícia.

No dia 4 de novembro, barricadas de pedras e de pneus em chamas foram observadas em diversas estradas nacionais, nas províncias e em vários lugares da capital, incluindo no cruzamento das estradas do Aeroporto Internacional de Porto Príncipe (capital) e Delmas (cidade ao noroeste da capital).

No município de Delmas continuava, no dia 4, um tiroteio que havia começado no dia 3 de novembro, de origem desconhecida, mas que especula-se que fosse entre manifestantes e policiais. O tiroteio havia começado na manhã do dia 3, e teria continuado até o dia 4 de novembro, com intervalos. 

Jornalista executado impulsiona mais protestos

Já, no dia 2 de novembro, um funeral, na praça pública da cidade de Mirebalais, do jornalista Néhémie Joseph, assassinado na noite de 10 de outubro, se tornou um grande protesto contra os assassinatos cometidos pelo velho Estado, segundo informações colhidas pela imprensa local AlterPresse.

Pelo menos sete pessoas foram baleadas e feridas no início da manhã do dia 02/11, durante e depois do funeral do jornalista assassinado. Muitas rajadas de armas de fogo foram ouvidas ocasionalmente, enquanto barricadas, feitas de pneus em chamas, foram vistas pela cidade de Mirebalais. Os manifestantes entraram em confronto com a Unidade Departamental de Aplicação da Lei (Udal), que dispararam gás lacrimogêneo contra as pedras lançadas pelos manifestantes. As massas enfurecidas por séculos de opressão e exploração também bloquearam quatro vias de acesso ao local do funeral.


Manifestante haitiano é espancado pela Polícia Nacional do Haiti. Foto: AFP

“A partida de Neemias José não deve desencorajar a juventude na busca da luta pela mudança. Nosso Neemias não teve tempo para desempenhar seu papel como construtor. Agora cabe a nós construir o futuro, com o qual ele sonhou e pelo qual sacrificou tudo”, disse um dos presentes no funeral.

Uma grande marcha já havia acontecido no dia 17 de outubro, na cidade de Mirebalais, para exigir que o assassinato de Neemias José fosse investigado. O jornalista, que mantinha um programa de rádio onde comentava sobre política, foi marcado por políticos (em especial, um senador) como um jornalista que “alimentava os protestos na cidade de Mirebalais”, e já havia denunciado tal senador por planejar assassiná-lo.

Trabalhadores e serviços públicos mobilizados

No dia 31 de outubro, em Carrefour (ao sul da capital, Porto Príncipe), centenas de professores, junto de pais e alunos, se manifestaram pela saída do presidente Jovenel Moïse, de acordo com a imprensa local AlterPresse.

Devido aos grandes protestos que acontecem quase que diariamente há dois meses no Haiti, a abertura das escolas e a presença dos alunos ficam incertas e, diante disso, a comunidade escolar diz: Jovenel Moïse deve partir, para que a escola possa voltar!

“O setor educacional não aceitará que Jovenel Moïse continue sacrificando o futuro de vários milhões de crianças, impedindo-as de ir à escola”, disse Georges Wilbert Franck, coordenador da União Nacional de Professores Educadores do Haiti (Unpeh), que participou da manifestação.

Também, no dia 31 de outubro, aconteceu uma mobilização em Porto Príncipe em homenagem à Charlemagne Péralte, líder nacionalista haitiano que lutou contra a invasão de tropas ianques no país, no dia que marcava 100 anos de seu assassinato.

No dia 30 de outubro, profissionais do setor de saúde do Haiti (médicos, enfermeiras, auxiliares, socorristas, motoristas de ambulância, etc.) marcharam nas ruas da capital, Porto Príncipe, de acordo com informações pela imprensa local AlterPresse. A marcha, destinada a exigir uma mudança radical no sistema político e econômico do país, começou em frente às instalações do Hospital Universitário Estadual do Haiti.

Já no dia 29 de outubro, um grupo de advogados da Ordem dos Advogados de Porto Príncipe organizou uma concentração no Champ de Mars (a principal praça pública da capital) com a mesma exigência: a renúncia de Jovenel Moïse à presidência. 

E, no dia 28, várias centenas de trabalhadores saíram às ruas da capital, respectivamente, para exigir melhores condições de trabalho, e exigindo a renúncia de Jovenel Moïse. A manifestação dos trabalhadores começou na área do parque metropolitano (em Porto Príncipe) da Sociedade Nacional dos Parques Industriais, ao norte da capital.

Em uma fala durante a manifestação em frente à sede do Escritório Nacional de Seguridade Social, os trabalhadores manifestantes exigiram explicações sobre o que se faz com as contribuições, retiradas de sua remuneração mensal e pagas ao órgão. Centenas de pessoas, principalmente estudantes da Universidade Estadual do Haiti (Ueh), também se manifestaram no dia 25 de outubro, nas ruas do centro da cidade da capital.

Essas são só algumas das mobilizações que aconteceram no Haiti, manifestações que ocorrem quase que diariamente desde a metade do mês de setembro. O povo haitiano luta heroicamente contra a miséria do país, tão saqueado e explorado pelo imperialismo, assim como seus governantes de turno lacaios.

A escassez de combustível, estopim da revolta, tem assolado o empobrecido país caribenho desde meados de agosto. Por sua vez, o presidente, Jovenel Moïse, não é capaz de enganar as massas, desmoralizado que se acha por várias acusações de corrupção que enfrenta desde que assumiu o cargo em fevereiro de 2017. Durante sua campanha eleitoral, Moïse prometeu “comida em cada prato e dinheiro em cada bolso”, mas a taxa de inflação de 20% (dados de julho de 2019) aprofundou ainda mais a miséria do povo. O Haiti é um dos países mais pobres do mundo. Cerca de 60% de sua população de 11 milhões de habitantes vive abaixo da linha de pobreza de 2 dólares por dia.

A repressão tenta, em vão, aplastar a rebelião popular

De acordo com dados anunciados pela “Organização das Nações Unidas” (ONU) no dia 1° de novembro, pelo menos 42 pessoas morreram, 19 das quais foram mortas pela polícia desde meados de setembro no Haiti, quando grandes protestos populares irromperam. 

“Pelo menos 42 pessoas morreram e 86 ficaram feridas na escalada das tensões desde o início da última onda de manifestações de 15 de Setembro, segundo informações verificadas pelo nosso gabinete”, disse uma porta-voz da ONU, Marta Hurtado, de acordo com informações coletadas pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. 

Em seu relatório, a Anistia Internacional afirma que “policiais, equipados com armas semiautomáticas, dispararam munição viva durante as manifestações, violando assim o direito internacional aos direitos humanos e as normas sobre o uso da força”.

A Anistia Internacional também condena a “utilização indevida de granadas de gás lacrimogêneo, disparos contra manifestantes pacíficos a partir de um veículo policial em movimento, e o disparo repetido a curta distância das chamadas balas de baixa letalidade”.

Já no dia 28/10, um novo caso de homicídio envolvendo a Polícia Nacional Haitiana (PNH) foi denunciado após um vídeo de câmera de vigilância filmado nesse dia ser compartilhado nas redes sociais. O vídeo mostra um carro blindado passando por cima de uma barricada, atrás da qual um homem não identificado acabara de se refugiar. Após alguns minutos, o corpo inanimado, parcialmente coberto pelos escombros de seções da barricada, foi movido por moradores locais que tentaram, em vão, socorrer a vítima.

Menos de duas horas após o assassinato do manifestante, ocorreram confrontos entre a polícia e os moradores locais: "Dois policiais foram baleados e feridos nos pés e tornozelo enquanto tentavam mover barricadas na área de Torcel na segunda-feira, 28 de outubro, por volta das 18:10", anunciou a PNH, à noite. "Os moradores locais atiraram e atiraram pedras contra os policiais, que retaliaram", disse uma segunda mensagem à agência de notícias AFP.

Em meados da data do vídeo, a polícia havia anunciado que uma operação de limpeza de barricadas seria realizada nesta área da periferia da capital.

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