Alto Comando militar e Bolsonaro reúnem-se para discutir após soltura de Luiz Inácio

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Foto: Fernando Souza/AFP

Uma reunião sigilosa ocorreu, no dia 9 de novembro, entre Bolsonaro e os generais Fernando Azevedo (ministro da Defesa), Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira (secretaria de governo), Augusto Heleno (ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional), o comandante da tropa Edson Leal Pujol, além dos comandantes da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, e da Marinha, almirante de esquadra Ilques Barbosa Junior. Além deles, participaram assessores mais próximos. A reunião ocorreu imediatamente após a soltura de Luiz Inácio/PT.

A informação foi confirmada pelo monopólio de imprensa e pela revista Sociedade Militar. A reunião só entrou na agenda oficial do governo horas antes, o que é tido como incomum.

Segundo a revista militar, a reunião provocou questionamentos de que tal encontro poderia resultar em “alguma ação mais contundente no sentido de atender a pleitos que se ouve nas ruas e redes sociais sobre ‘fechar o Supremo Tribunal Federal (STF)’ ou ‘fechar o Congresso Nacional’”. Segundo deu a entender a revista, aparentemente com acesso a fontes próximas aos personagens envolvidos, o assunto foi a situação política.

A revista, que circula nos meios militares, afirmou que “os comandantes” das Forças Armadas “são taxativamente contra qualquer ação que vá minimamente contra a Constituição federal e defendem veementemente a não intromissão entre os poderes”, ao contrário da outra ala, mais radical, que defende “ações mais contundentes no sentido de atender a ala bolsonarista mais radical, aquela que segue a linha olavista”.

Segundo a revista, que ouviu um militar em anonimato, os generais são contrários a uma ação abertamente golpista, pois “o próprio presidente do STF tem se manifestado no sentido de indicar que se a sociedade acredita que a lei é injusta, branda demais, deve exercer seu papel de forçar o parlamento a atualizá-la”. Ou seja, Dias Toffoli, segundo o militar e a revista, pode ceder às pressões.

Quando refere-se à “não intromissão dos poderes” e ser contra “ações contrárias à Constituição”, os generais e comandantes militares, que conformam junto a outros a direita militar e civil [1], prosseguem o seu plano de promover um golpe de Estado passo a passo por dentro da via institucional, produzindo tensões, chantagens, ameaças e pressões no sentido de conduzir as instituições na aplicação de várias medidas políticas contrarrevolucionárias preventivas [2]. Hoje, os generais do “Grupo do Haiti” estão até mesmo tutelando o governo de Bolsonaro, controlando os postos-chaves da ação do Estado.

Dias Toffoli, conforme temos analisado, embora seja originalmente tendente à centro-direita [3], é vulnerável e cede facilmente às pressões da direita militar e civil. Isso fica comprovado na própria fala do militar anônimo.

Recentemente, o próprio Dias Toffoli disse que “a nação brasileira é devedora das Forças Armadas para a construção do Brasil e para a unidade nacional” e criticou o “radicalismo”, referindo-se aos discursos de Luiz Inácio e, tacitamente, referindo-se a Bolsonaro. Ele disse ainda que o judiciário “saberá agir no momento certo”. Basta recordar que o STF tem o poder de convocar uma "intervenção militar" em caso de "caos" ou "desordem" (artigo 142) e tal possibilidade chegou mesmo a ser aventada durante a crise institucional de abril [4].

A revista prossegue e afirma ainda que, apesar dessa divisão entre os reacionários, “os movimentos” populares “continuarão a ser monitorados cada vez mais de perto pelos órgãos de inteligência e as Forças Armadas estarão, como sempre, prontas para ações de garantia da lei e da ordem se assim for necessário”.

Já Bolsonaro e sua trupe de extrema-direita [5], continua a revista, deve manter-se com discurso radical. “O presidente, por sua vez, ainda que seja aconselhado a se manter sóbrio, segundo pessoas mais próximas, tende a assumir uma postura mais beligerante. ‘É o seu estilo e as eleições do ano que vem estão batendo às portas, ele quer conquistar uma base nos estados e não pode deixar que o discurso da esquerda novamente se torne hegemônico’, diz o mesmo militar”.

Em outro texto da revista no qual é tomado o depoimento de um militar que saiu recentemente do governo, tal militar disse: “Com o passar do tempo ele [Bolsonaro] vai voltar com a polarização olavista porque isso alimenta, ajuda no sentido de gerar popularidade”.

E disse mais: “Eu acho que ele vai atender em parte a ala olavista e vai começar a criticar o ex-presidente Lula. É o grande contraponto que vai acontecer”. E conclui: “Bolsonaro vai dar respostas explosivas”.


Notas:

[1] A direita militar e civil é o núcleo do establishment: a maioria do Alto Comando das Forças Armadas, o grupo seleto de procuradores da “Lava Jato” e outros mais, donos de grandes corporações do agronegócio, do setor industrial e banqueiros, cabeça do monopólio de imprensa, tudo monitorado pelo imperialismo ianque (Editorial AND 227).

[2] Refere-se às três tarefas reacionárias: “1) medidas econômicas para recuperar a economia para impulsionar o decadente capitalismo burocrático através do corte de direitos, superexploração da força de trabalho e maior entrega da Nação ao imperialismo; 2) instaurar um novo regime político através da reestruturação do velho Estado, impondo um regime de centralização absoluta do poder no Executivo e restringir os demais “poderes” para assegurar total controle e unificação das ações do Estado; e 3) incrementar a repressão e endurecer a lei penal contra a luta popular para conjurar o perigo de revolução e esmagar a rebelião popular” (Editorial, AND 227). Em última instância, o plano dos generais é, com tais medidas, produzir uma centralização de poder nas Forças Armadas (governo militar secreto), que maquinarão-o por trás de "governos legítimos".

[3] “Embora Toffoli e alguns dos outros ministros do STF (Carmén Lúcia, Alexandre de Moraes, Celso de Mello e outros) estejam aquartelados pelos generais e cedam mais ou menos facilmente às pressões da ofensiva contrarrevolucionária, o nicho e a posição política dessas figuras é a centro-direita e a defesa medíocre de um desidratado ‘Estado democrático de direito’” (Editorial AND 227).

[4] "Diante de tal cenário, Toffoli contou que 'um dos generais próximos ao presidente chegou a consultar um ministro do Supremo para saber se estaria correta a sua interpretação da Constituição, segundo a qual o Exército, em caso de necessidade, poderia lançar mão das tropas para garantir ‘a lei e a ordem’'. Para tornar mais claro, a reportagem sintetiza: 'Em outras palavras, o general queria saber se, na hipótese de uma convulsão, teria autonomia para usar os soldados independentemente de autorização presidencial'" (Crise militar é escancarada: General consultou STF sobre intervenção militar, AND 226).

[5] Extrema-direita: grupo de Bolsonaro guiado Olavo de Carvalho, tropas de suboficiais e sargentos das Forças Armadas reacionárias, chefes de igrejas neopentecostais e outros (Editorial AND 227).

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