Para 'adiar o fim do mundo': os literatos de cocar (Parte 2)

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Munduruku protestam contra mineração em terras indígenas em Jacareacanga (PA), 2019. Foto: povo Munduruku

Dissemos na Parte 1 desta matéria que enquanto o fascismo bolsonarista prega o ódio ao saber, ao trabalho intelectual, à pesquisa e à palavra escrita, os povos indígenas brasileiros trilham um caminho oposto e luminoso: estão registrando sua sabedoria em livros, como aquele que foi um dos mais procurados na última Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP): Ideias para adiar o fim do mundo, de autoria de Aílton Krenak.

Conforme o professor Carlos Augusto Novais, da UFMG, um marco importante deu-se em 1980, ano de publicação do considerado primeiro livro de autoria indígena no país, intitulado Antes o Mundo não Existia, de Umúsin Panlõn e Tolamãn Kenhíri, pertencentes ao povo Desana, do Alto Rio Negro (AM).

Por mais de 5 séculos sem ter chance de se expressarem, os índios brasileiros estão, cada vez mais, escrevendo seus pensares e contares com qualidade insuspeita, pois colecionam elogios e prêmios. Entre eles, nos últimos anos, estão Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Cristino Wapichana, Marcia Kambeba, Olívio Jekupé e seu filho Jeguaka Mirim (MC Kunumi ou MC Curumim),Tiago Hakiy e Adão Karai Tataendy (falecido).

DANIEL

Etnia: Munduruku; sudoeste do Pará (pequenas aldeias às margens do rio Tapajós);somam mais de 13 mil pessoas (sobreviventes de uma epidemia de sarampo que quase dizimou a tribo na década de 1940); autodenominação Wuyjuyu ou Wuy Jugu; língua do tronco tupi. De forte tradição guerreira, iniciaram em 2014 a autodemarcação de seu território ancestral, em protesto contra a imobilidade da gerência federal. Agora, em 2019, realizaram com sucesso a quinta etapa da autodemarcação. Em outubro os mundurukus bloquearam o acesso a Jacareacanga (PA), em ato contra a mineração em terras indígenas predicada por Bolsonaro e seu governo de generais. Um comunicado emitido pelos índios afirmou: “Temos nosso próprio governo e todos têm que respeitar. Não vamos parar esta luta, até solucionar os nossos problemas”.

Fazeres: Daniel fez mestrado em Antropologia Social pela USP;doutorado em Educação pela USP; pós-doutorado em Literatura pela UFSCar; escreveu 52 obras literárias, a maioria infantojuvenil; recebeu a comenda do Mérito Cultural; vários prêmios no Brasil e exterior: Jabuti, da Academia Brasileira de Letras, Érico Vanucci Mendes (CNPq), Tolerância (UNESCO); nasceu em 1964. É tido como referência pelos demais artistas/intelectuais índios.

Falares: ”Ao dominar a natureza, o homem ocidental pensa que pode chegar à felicidade. No contexto da sociedade indígena, no entanto, a felicidade é posta em outro lugar e os esforços são investidos em outros campos. A natureza não é objeto para ser simplesmente explorado. Nessa atitude de respeito, as sociedades indígenas chegaram a um equilíbrio perfeito, utilizando uma tecnologia que, comparativamente à do Ocidente, é muito simples.”

Alguns livros: Você lembra, pai? / A caveira-rolante, a mulher-lesma e outras histórias indígenas de assustar / Catando piolhos contando histórias / O homem que roubava horas.

ELIANE

Etnia: Potiguara; de língua tupi, ocupava áreas de estados nordestinos no século XVI, somando naquele tempo cerca de 90 mil pessoas. Foi uma das etnias tupis que resistiu por mais tempo aos invasores portugueses, no entanto foram eles que mais deram provas de heroísmo no apoio solicitado por Portugal nas Batalhas de Guararapes, na guerra contra os holandeses. Hoje sua população gira em torno de 19 mil pessoas, nos estados do PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE e norte da Bahia, vivendo em complexo quadro de mescla com população não-indígena, tendo adotado inclusive religiões cristãs, notadamente evangélicas. Com toda essa interação que já vem de séculos, a população potiguara há muito é bastante heterogênea e de aparência miscigenada, existindo índios por vezes louros ou com feições negroides, frutos de séculos de mestiçagem com povos colonizadores, invasores, trazidos ou migrados - franceses, holandeses, portugueses, negros e, por último, cidadãos vindos de regiões limítrofes.

Fazeres: Nascida em 1950 no RJ, Eliane fez Licenciatura em Educação pela UFRJ e é professora; fez uma cartilha de alfabetização indígena dentro do método Paulo Freire com o apoio da Unesco. Foi nomeada uma das "Dez Mulheres do Ano de 1988" por ter criado a primeira organização de mulheres indígenas no país - o Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena) - e por ter trabalhado na elaboração da Constituição Federal. Em 1990 foi a primeira mulher indígena a conseguir aprovar uma petição no 47º Congresso dos Índios Norte-Americanos, no Novo México, para ser apresentada à ONU. Desse modo participou da elaboração da Declaração Universal dos Direitos Indígenas, em Genebra.

No final de 1992 sua obra A Terra é a Mãe do Índio foi premiada na Inglaterra, ao mesmo tempo em que o jornalista Caco Barcelos e ela estavam sendo citados numa lista de "marcados para morrer", conforme informou a Rede Globo.

Em 1995, no Tribunal das Histórias Não Contadas e Direitos Humanos das Mulheres, uma conferência da ONU realizada na China, Eliane narrou a história de sua família que emigrou das terras paraibanas na década de 1920 “por ação violenta dos neo-colonizadores” (OBS: Grandes porções de seu território foram invadidas por burgueses brancos, como a rica família Lundgren, fundadora das Casas Pernambucanas) e as “consequências físicas e morais desta violência à dignidade histórica” de seu bisavô, avós e descendentes. Contou também “o terror físico, moral e psicológico pelo qual passou ao buscar a verdade”, além de “sofrer abuso sexual, violência psicológica e humilhação por ser detida pela Polícia Federal” por defender os povos indígenas. Foi conselheira da Fundação Palmares/Minc e membro do Women´s Writers World. Participou de 56 eventos internacionais, entre eles a Conferência Mundial contra o Racismo na África do Sul, em 2001, e o fórum sobre Povos Indígenas em Paris, em 2004. Integrou o Comitê Consultivo do “Projeto Mulher: 500 anos Atrás dos Panos”, que culminou no Dicionário mulheres do Brasil.

Falares: (Poema Desilusão)

A mim me choca muito esse ambiente
Essa música, essa dança
Parece que todos dizem sim
Sim a quê?
Sim a quem?
Porque concordar tanto
Se o que se tem que dizer agora É NÃO!
NÃO a morte da família
NÃO a perda da terra
NÃO ao fim da identidade

Os livros: A Terra é Mãe do Índio (1989) / Akajutibiro: Terra do Índio Potiguara (2004) / Metade Cara, Metade Máscara (2004) / O Coco que Guardava a Noite (2004) / O Pássaro Encantado (2014) / A Cura da Terra (2015).

CRISTINO

Etnia: Wapichana; estado de Roraima e fronteiras internacionais; língua aruaque; população de cerca de 13 mil pessoas. A extensão do território wapichana, no Brasil, foi abusivamente retalhada para fins de demarcação, ao final dos anos 1980. Foram recortadas pequenas áreas em que os Wapichana viviam em quase confinamento, com suas terras cercadas e invadidas por fazendas de gado.

A ocupação do território wapichana na primeira década do século XX coincidiu ainda com o início da atuação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e, de modo muito mais intensivo, de missionários beneditinos.

Fazeres: Nascido na capital Boa Vista, Cristino é um artista polifacetado,fazendo músicas (Ex. de suas composições: Kaimenal, que significa Paz; Kazanda Wyn ,que significa Sonho) e fazendo escritos, vários deles sendo livros premiados. É um ativista e fez parte, durante muitos anos, da coordenação do NEARIN (Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas, criado em 2003). Fez jus aos seguintes prêmios: 2007 - 4° concurso Tamoio de literatura da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (A Onça e o Fogo); 2014 - Medalha da Paz – Movimento União Cultural; 2015 - Prêmio Litteratudo Monteiro Lobato; 2017 - Terceiro colocado no 59.º Prêmio Jabuti (categoria Livro infantil - A Boca da Noite) ; 2018 - Estrela de Prata do Prêmio Peter Pan, da Suécia (A Boca da Noite, traduzido para o idioma sueco).

Falares: “(Por que dou ênfase para a literatura infantojuvenil?) É que há um moleque em mim que sempre está fazendo alguma coisa, portanto, está vivo, sempre ativo, está sempre me convidando para uma aventura, então acredite: é esse moleque ocupado com essas coisas. Com o livro Boca de Noite, eu recebi um prêmio espiritual. Ele chegou e falou que Boca de Noite foi ele que narrou a história e eu simplesmente escrevi depois que ela estava pronta. Meses depois, lembrei que meu pai usava essa expressão, “boca da noite”, e eu tinha o maior medo do escuro. Então, se há uma boca, deve ser uma coisa extraordinária de gigante. O corpo deve ser grandioso. Esse historiador infantil tem a ver com esses tantos de prêmios, mas não é isso o fundamental. Como autor, como artista, isso pode vir de outras maneiras em outras escritas, por exemplo, mas, desta vez, veio com o infantil e fico feliz por isso.”

Os livros: A Onça e o Fogo / Sapatos Trocados / A Oncinha Lili / A Boca da Noite.

OS WAPICHANA E A PALAVRA TRANSFORMADORA (*)

“No começo, dizem os Wapichana, ‘quando o céu era perto, tudo falava, era puri’, magia. Céu e terra eram então indiferenciados, bem como indiferenciados eram os seres que os habitavam, porque sua fala era uma só. Era sobretudo plástico aquele mundo original, e a força de o moldar encontrava-se na palavra: ‘Antes falava e mudava as coisas’. Eficaz, criativa, a palavra provocava transformações contínuas, que deram ao mundo a feição que ele ainda hoje guarda: cachoeiras, rios, montanhas assim se criaram, em batalhas verbais entre os demiurgos.

O mundo de hoje é resultado da ruptura de uma ordem primordial, ruptura que diferenciou o tempo e o espaço e provocou a especiação [diferenciação entre as espécies]. A especiação, por seu turno, repousou sobre uma distribuição desigual da fala: perderam-na muitas espécies, motivo básico pelo qual se tornaram outras espécies - ou, como gostam de dizer os Wapichana, qualidades -, fazendo com que a fala articulada seja hoje atributo quase exclusivo da humanidade, que a distingue dos outros entes que povoam o mundo. Assim, a fala articulada é, aos olhos dos Wapichana, o que os faz humanos.

A respiração é componente pessoal da alma: no ventre materno não a possuímos; apenas a obtemos quando, pela primeira vez, inspiramos. A respiração, em certa medida, acompanha o valor da fala, questão que se apreende com maior nitidez no contexto da magia: soprar e falar são atos homólogos, que surtem o mesmo efeito encantatório, por serem ambos alma.Sopro, fala, o atributo fundamental da alma é a leveza. A alma - sopro e fala conjugados na magia - é o que, no homem, pode ainda restaurar a criatividade da fala original, seu poder de transformar o mundo.

A fala é, ainda, um princípio eminente da razão. Crianças pequenas são ditas madoronan, termo cuja tradução literal é ‘sem alma’, porque ainda não falam. De modo correlato, querem com isso dizer os Wapichana que crianças não têm discernimento – ‘criança não tem juízo’ -, motivo pelo qual se lhes deve perdoar as tolices que cometem.

Ambos, fala e discernimento, desenvolver-se-ão concomitantemente no processo de socialização do indivíduo, culminando em plena sociabilidade. Assim, em seu auge, a faculdade de falar perfaz o homem, aquele que é capaz de dialogar com seus semelhantes. A fala é princípio estritamente pessoal: ‘Para formar uma criança, os pais ajudam com o sangue; (mas) o sopro e a fala são dela mesmo’. O potencial de fala precisa ser desenvolvido socialmente: às crianças, evidentemente, se ensinam a falar. Este fato, que poderia passar por corriqueiro aos nossos olhos, para os Wapichana se reveste de alto valor simbólico, dada a equivalência entre a fala e a alma: ensinar a falar é processo de humanização, que só ocorre no interior de plena sociabilidade.

Pensadores refinados, os Wapichana não postulam que a alma habite suporte ou recipiente corporal, nem que se localize - imagem a que estamos habituados - em uma parte específica do corpo, seja coração ou cabeça. Udorona é o princípio vital propriamente dito, força que, por si, nos movimenta e anima. Indissociável do corpo, udorona é o princípio dinâmico que lhe confere movimento, autonomia e vontade. Sua realidade é ainda apreendida na sombra forte que projetamos ao sol.

(Quanto ao acesso ao conhecimento) ‘você não conhece o mundo” - é a resposta que escutam invariavelmente os mais jovens quando tentam opinar sobre assuntos considerados graves ou que, no mínimo, escapam à sua alçada. A frase bem resume o modo pelo qual os Wapichana concebem a aquisição do conhecimento. Amazada, o mundo, é noção que enfeixa espaço e tempo e, assim, a frase tem duplo sentido: de um lado, significa que alguém que ainda não correu o mundo não o conhece; de outro, significa que alguém ainda não viveu tempo suficiente para conhecê-lo.

Conhecer espaços mais amplos do que a própria aldeia de origem constitui fator respeitável de conhecimento. É de praxe que rapazes solteiros viajem pelas outras aldeias no Brasil ou na Guiana, ou a trabalho, em fazendas e garimpos que se espalham pelo território wapichana; comumente trazem na volta a esposa e o conhecimento de curas espetaculares, bem como um repertório expressivo de narrativas aprendidas à noite em volta das fogueiras.

No entanto, para os Wapichana, o acesso ao conhecimento, à sabedoria, encontra-se sobretudo associado ao tempo, à idade. A associação do conhecimento à idade não significa (porém) que os mais jovens não possuam repertórios de narrativas; ao contrário, meninas e meninos impúberes, que permanecem, quase sempre, discretos e silenciosos durante a narrativa dos mais velhos, depois são capazes de repeti-la ou mesmo variá-la. Ocorre que, ainda que dominem um determinado repertório, os jovens não se sentem autorizados a veiculá-lo, pois esta autoridade é socialmente reconhecida como atributo da idade.

Os mais velhos, ‘aqueles que sabem as histórias’, sábios, são chamados kwad pazo, termo que os Wapichana letrados traduzem por historiadores. Outros, por associação à letra, usam a metáfora ‘bibliotecas das aldeias’ para se referirem a eles, reconhecendo-os, assim, como detentores de um conhecimento especializado.

Há que marcar uma diferença crucial em relação a outras sociedades amazônicas: o conhecimento entre os Wapichana, associado à idade, é um canal aberto e, em tese, acessível a todos, posto que a velhice é um processo inescapável, que chega inexoravelmente a cada um de nós. Os kwad pazo, por vezes, são chamados, bem como se auto-intitulam, jocosamente, “restos de kotuanao” [antigos/ancestrais], porque, além de narradores, são igualmente co-participantes de um passado cuja memória os mais jovens não partilham.

Colorário da velhice, o conhecimento avança à medida que declina o vigor físico, em particular a atividade sexual e reprodutiva. Tal se explica pelo fato de que, para os Wapichana, a aquisição do conhecimento, afeto à esfera da alma, encontra-se na razão inversa da reprodução dos corpos. A velhice iguala homens e mulheres,fazendo deles mais alma do que corpo.”


(*) Fonte: Instituto Socioambiental – ISA. Síntese/adaptação por R. Bond.

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