RJ: Ocupação urbana Vila Canaã é ameaçada de despejo

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Giovanna Schaidhauer/A Nova Democracia

Pelo menos 140 famílias que lutam pelo direito à moradia estão sendo ameaçadas de serem lançadas à rua, em plena véspera de natal. Essa é a situação daqueles que vivem na Vila Canaã, em São Cristóvão.

O terreno, ocupado após o pretenso dono acumular milhões de reais em impostos e décadas de abandono, é pequeno, se comparado à quantidade de pessoas que lutam por moradia ali. 

Vivem no acampamento aproximadamente 180 pessoas, entre elas 80 crianças, há aproximadamente um ano e três meses. Quando chegaram não existia nada: o local, baldio, era utilizado por usuários de crack e pequenos delinquentes como esconderijo. O saneamento básico todo foi construído pelos próprios trabalhadores.

A Vila Canaã, é, para algumas famílias, a terceira ocupação seguida, pois também nas outras duas  anteriores, Hain e São Jorge, nenhuma medida foi tomada pelo velho Estado brasileiro para garantir moradia ao povo. Após despejá-los em uma das oportunidades, o prefeito, Marcelo Crivella, declarou que, como “enviado de Deus”, iria cuidar das pessoas e providenciar teto para os moradores. Nada foi feito.

Giovanna Schaidhauer/A Nova Democracia

O desemprego, o abandono e a persistência

O perfil da maioria dos moradores coincide com a de dezenas de milhares que perdem seus empregos e são lançados à própria sorte.

Luciana de Andrade Rocha (39 anos) e Flávio dos Santos Souza (41) são dois dos trabalhadores que vivem na Vila com sua família. Vítimas do desemprego que destruiu famílias inteiras nos últimos anos, ambos trabalham como vendedores ambulantes de sorvete. Pais de uma jovem que sofre com lúpus e uma série de outras doenças, eles vendem ainda pele, água e cerveja para pagar os custos do tratamento farmacêutico, que não é mais custeado pelo governo, como deveria. Eles ainda movem uma campanha de solidariedade para ajudá-los a salvar sua filha.

Eles, que moravam no Morro do Turano, na Tijuca, ficaram sem opções de moradia em 2019, quando ficaram desempregados repentinamente, ao mesmo tempo em que houve uma alta generalizada no preço dos aluguéis na região, que passou de R$ 350 a R$ 700. 

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Flávio, que tirava R$ 1,5 mil mensais, teve sua renda reduzida a zero em março de 2019, enquanto Luciana, que ganhava R$ 650 trabalhando numa famosa rede de lanchonetes, também foi demitida após uma série de assaltos fazerem o dono da loja a fechar as portas sem pagar os devidos direitos trabalhistas, no fim de 2018.

Endividada, a família trabalhadora viu-se completamente desorientada. Fazendo bicos e trabalhando como ambulantes, acabaram por acumular dívidas. Em abril, foram expulsos pela dona da casa, no Turano. Flávio e Luciana entraram na ocupação em abril de 2019, sem nenhum móvel além de sua cama, fogão e geladeira. Todo o resto foi vendido ou descartado.

Antes, ambos tinham uma pequena casa em Belford Roxo. De lá foram obrigados a se distanciar, pois Flávio trabalhava no Turano, em 2012, enquanto Nova Aurora era controlado por um grupo de paramilitares rival aos que dominam a favela na Tijuca. Intimidados, ambos decidiram vender sua casa em Belford Roxo, por R$ 5 mil, e arriscaram tudo comprando um terreno no Turano para construir a casa própria, que depois descobriram se tratar de um golpe, pois o terreno era inutilizável para construção da moradia.

Hoje, Flávio e Luciana, juntos, conseguem tirar uma renda mensal que varia entre R$ 700 a R$ 1 mil, enquanto que, antes, tiravam uma média de R$ 2,5 mil.

Um pouco da ocupação

Patrícia da Conceição, 43 anos, uma das coordenadoras da ocupação, conta que após mais de três meses tentando arranjar algum recurso para moradia, as famílias da Hein, que se encontrava perto da avenida Brasil, foram despejadas, se juntando à ocupação São Jorge, próxima ao Largo da Cancela que, mais tarde, também foi despejada. Ambas as ocupações somaram-se e estão onde hoje denominou-se Vila Canaã. 


Patrícia, coordenadora da ocupação, conta a luta para conquistar a casa própria. Foto: Giovanna Schaidhauer/A Nova Democracia

Muitos deles pagavam aluguel em casas nas favelas, como Luciana e Flávio, porém, o preço dos aluguéis que só subiam, com a alta do desemprego e das demissões em massa provocaram uma situação insustentável, na qual eles foram obrigados a abandonar suas casas.

Jorge Rodrigues, jovem pedreiro de 27 anos, conta que, após a ocupação São Jorge da qual participou e foi despejado, ele e sua tia pensavam em ocupar o local abandonado, no qual hoje fica a Vila Canaã.

“Eu vim morar na Barreira do Vasco com a minha tia, pois eu estava sem condições de pagar aluguel, e lá, minha tia já pensava em ocupar esse terreno. O lugar era foco de drogas, um matagal abandonado, cheio de ratos, totalmente degradado o terreno. Aí encontramos o terreno sem cadeado, as portas abertas, olhamos para um lado, olhamos pro outro, vimos várias pessoas precisando de moradia, debaixo de chuva, muitos também tinham vindo da vila São Jorge, aí decidimos ocupar o lugar”.


Jorge Rodrigues, 27 anos. Foto: Giovanna Schaidhauer/A Nova Democracia

Ele conta que todo o saneamento básico de Canaã e o sistema de luz da ocupação foi construídos pela própria comunidade: “Cada um deu o que tinha. Colocamos tudo direitinho. Dá para sobreviver com isso atualmente, mas para nós podermos sobreviver melhor, nós precisaríamos apoio da prefeitura, porque nós temos direito a moradia que é negado”.

Patrícia disse que as tábuas usadas para construir as casas, os canos, foram frutos do trabalho da comunidade, que passava dias procurando os materiais na rua: “Quando a gente veio pra cá, dormia em plástico, lona, os barracos foram sendo construídos aos poucos”.

Ela também denuncia que os donos do terreno, após a ocupação, alegam que estava tudo limpo, que contratavam seguranças, para não caracterizar abandono da sua função social. Ela rebate: “Nós temos fotos que mostram esse terreno antes vazio, cheio de desmanches de carro. O que os donos contam é mentira. O portão estava aberto, nós só ocupamos o espaço”.

Eles condenam também o completo descaso do velho Estado com as leis que ele mesmo cria. Flávio conta que a verba para a Moradia Popular e ao Fundo de Combate à Pobreza estão garantidos na constituição, mas que, entretanto, na prática nada disso é investido. “O que a gente vê é a verba para o ‘Caveirão’ entrar aqui e sair destruindo tudo”, conta o morador, revoltado.

Luciana conta que eles buscam visibilidade ao processo a ocupação. “O prefeito promete e, quando chega a hora, ele joga todo mundo para fora. Se resistir, mata, e fica por isso mesmo. Aqui não tem bandido, traficante, aqui tem pessoas de bem, trabalhadores, pessoas que estão buscando seu lugar ao sol. Nós não vamos sair, vamos resistir!”, protesta ela.

“Se desocuparem, vai acontecer outra ocupação, porque eu mesma não tenho para onde ir. Ele vai botar pra fora? Vai haver resistência! Não é só ele colocar meia dúzia de tratores ali fora, policiais dando tiro de bala de borracha inconsequentemente, pensando que não vai haver resistência. Porque dinheiro para massacre eles têm! Eles não querem armar a Guarda Municipal? A polícia não está andando de carro novo, blindado, equipado?”, denuncia a moradora.

Giovanna Schaidhauer/A Nova Democracia

Patrícia conta que cada vez mais as ocupações estão aumentando, mas não ganham recurso algum do velho Estado brasileiro e que, inclusive, nas audiências dos processos, não estavam presentes nenhum funcionário da prefeitura: “O que eles nos oferecem é ordem de despejo, pagam algum juíz aí, que também não está nem aí para o povo, não se preocupam com se a gente tem moradia ou não. Eles não nos dão dignidade para morar bem. Eles não nos escutam, e as pessoas sofrem muito. É muito sofrimento”.

Ela acrescenta que, apesar da possibilidade das famílias, com idosos, mulheres grávidas, crianças, doentes e deficientes físicos serem despejadas perto do natal, sua expectativa é a vitória. “A gente não tem que temer, porque esse não é nem o primeiro despejo”, conta.

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