Superprodução e disputas territoriais

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Foto ilustrativa

A troca de hostilidades alfandegárias e cambiais entre China e EUA expressa uma disputa por mercados motivada pela iminência de crises de superprodução nos dois países.

Tal combinação ocasionou duas guerras mundiais. A única razão para não haver a terceira é o potencial destrutivo das armas atômicas, que poderiam levar ao fim da vida na Terra – mas não há certeza de que a oligarquia estadunidense se importe muito com isso.

A capacidade produtiva das economias centrais (EUA, Alemanha, França, Japão e China) supera a capacidade de consumo desses países e de suas áreas de domínio além-fronteiras. A tendência é que a brecha aumente, pois o crescimento da produtividade do trabalho (isto é, da capacidade de cada trabalhador produzir riqueza) caminha lado a lado com a redução do poder de compra dos salários. Aumentando a produtividade e mantendo-se a jornada de trabalho, cai o número de trabalhadores necessários para produzir a mesma riqueza e aumenta o desemprego, que pressiona para baixo os salários. Essa queda do poder de compra obstrui o escoamento da produção.

Mas, como apontam os economistas Fabio Magalhães e José Martins, a “queda das encomendas à indústria alemã quer dizer que estão faltando consumidores individuais? Longe disso. Basta que os capitalistas alemães abaixem os preços de mercado de suas mercadorias na mesma proporção que caem seus preços de produção para que eles criem milhões de consumidores e aumentem suas vendas com muita facilidade.” Porém, “reduzindo seus preços de mercado para os níveis de seus preços de produção eles estariam registrando instantaneamente em seus balanços de lucros e perdas empresariais aquela enorme queda da taxa média de lucro já ocorrida em seus respectivos ramos de produção”. Esta é a contradição no âmago de tais crises: o aumento da produtividade faz cair os preços unitários de produção, o que permitiria aos industriais ampliar sua taxa de lucro vendendo produtos ao mesmo preço de antes. Porém, não conseguem fazê-lo porque a queda dos custos de produção é também queda da capacidade de consumo, devido à perda de poder de compra dos trabalhadores. A queda dos custos de produção termina, assim, se desdobrando em queda da taxa de lucro. Para evita-la, os industriais resistem o quanto podem a baixar seus preços – inclusive por meio das “inevitáveis guerras comerciais”, com “todos procurando conservar suas insustentáveis taxas de lucro arruinando os vizinho com políticas cambiais, protecionismo, etc.” (https://criticadaeconomia.com/2019/04/alemanha-novo-elo-fraco-da-economia-mundial/).

A superprodução não só atinge os produtos manufaturados como já chegou aos insumos: enquanto a produção industrial alemã cai e a estadunidense alterna altas e baixas, a produção mundial de aço e alumínio, ampliada nas últimas décadas para atender à demanda chinesa, continua crescendo e não encontra vias de escoamento.

Outro complicador é a disputa por matérias-primas (basicamente minerais) que se encontram em territórios dominados pelos EUA (América Latina) e França (África). Ela se soma à necessidade de mercados e joga as potências numa disputa pela reconfiguração geopolítica do mundo.

Quando se chega a essa dimensão, Japão e Alemanha, ocupados militarmente pelos EUA e praticamente proibidos de ter forças armadas desde o fim da 2ª guerra mundial, saem do jogo. Ainda que suas economias sejam mais sólidas que a estadunidense, falta-lhes respaldo bélico.

A base da União Europeia foi a aposta do capital alemão na aliança com a França, potência militar, para consolidar um polo imperialista. Mas, devido à disputa com a China pela África, os franceses se aliam aos EUA e se condenam ao abismo do qual os ianques não sairão. O mesmo acontece com os japoneses e sua milenar rivalidade com a China pelo domínio da Ásia.

Ao renegar o socialismo e o pensamento Mao Tsetung, a camarilha dirigente chinesa reteve deles um valioso ensinamento: o imperialismo estadunidense é um tigre de papel – com um potencial destrutivo enorme, mas sem base econômica sólida.

Há décadas, os EUA têm um déficit gigantesco, “compensado” pela emissão de títulos de dívida e moeda sem outro lastro além do militar, que assegura o controle do comércio de petróleo. A estratégia econômica chinesa mira os dois pilares desse arranjo.

Por um lado, um acordo de compra de petróleo do Irã em ouro ou em sua própria moeda (yuan ou renminbi) quebra o monopólio do dólar nas transações petrolíferas.

Por outro, Pequim tem US$ 1,1 trilhão em títulos da dívida estadunidense. Com isso, controla a relação entre o dólar e o renminbi. Mantendo barata sua moeda – e, portanto, o custo de sua produção industrial face à estadunidense – , retém uma enorme fatia do mercado interno dos EUA, ou seja, escoa sua produção e obtém, via saldo comercial, dólares para realimentar esse instrumento.

As anunciadas medidas protecionistas de Trump são uma tentativa desesperada de reverter essa situação. A dependência dos EUA face aos produtos chineses, porém, já é tamanha que, muito provavelmente, é tarde: taxar componentes chineses encarece a produção de eletroeletrônicos estadunidenses. Esse nó só poderia ser desatado, e não de imediato, pela produção interna de insumos nos EUA – mas os próprios monopólios industriais estadunidenses rechaçam isso hoje.

Taxar bens de consumo leves importados da China teria também um considerável impacto inflacionário: roupas e telefones celulares, por exemplo, não foram incluídos na lista de centenas de produtos chineses a ser tributados. O foco das medidas anunciadas por Trump está dirigido, principalmente, a bens de produção (máquinas industriais), o que, sem a estratégia de incentivo em médio prazo à produção interna que Trump não tem, mais prejudica que beneficia a indústria ianque.

Com os EUA previamente dependentes e fragilizados, a China se lança à disputa territorial via Iniciativa do Cinturão e da Rota (ICR), uma rede de infraestrutura financiada com capital chinês para o escoamento de matérias-primas (sobretudo minerais) para a China e de produtos chineses. Originalmente, para a Ásia, África e Europa, mas, em 2018, o primeiro-ministro chinês, Xi Jimping, oficializou a ampliação da iniciativa declarando oficialmente, por ocasião da 2ª Reunião Ministerial do Fórum China-América Latina e Caribe, que vê a região como “extensão natural” da ICR.

18 países latino-americanos (inclusive Peru e Chile, politicamente alinhados aos EUA) já aderiram à ICR. Bolsonaro é a última cartada dos EUA para evitar que a América Latina passe à órbita chinesa. Em paralelo, os EUA tentam passar à ofensiva promovendo a desestabilização em Hong Kong. Nada indica, porém, que a carta da balcanização da China terá êxito.

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