A sede move o povo: falta d’água gera protestos

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Moradores de Paulista, no Grande Recife, fecharam a rodovia PE-22 em protesto contra a falta de água no dia 28/12. Os manifestantes colocaram fogo em entulhos e pneus como forma de protesto.

A trabalhadora autônoma Francisca dos Santos Lopes, de 35 anos, afirmou em entrevista que a comunidade de Engenho Maranguape, na qual vive, enfrenta a falta de água já há 15 dias. Várias ligações foram feitas para a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) e nada foi feito.

A companhia, em nota, diz que “o sistema que abastece o bairro está em manutenção e que a previsão de volta é segunda, às 17 horas”. Ainda em entrevista a autônoma diz: “Passamos natal sem água, vendo lanches e não consigo trabalhar”. 

Por meio de pesquisas feitas pelo AND constatou-se recentes protestos em outros bairros e cidades, todos com as mesmas queixas por parte de moradores. Em Moreno, por exemplo, local que chegou a ficar quatro meses sem água, um protesto, realizado às 9h20 do dia 09/07, paralisou a BR-232. 

Silvia Santana, comerciante que esteve na manifestação em Moreno, afirmou: “Estamos há quatro meses sem água, estou dividindo uns caminhões pipas com uns amigos, mas agora a comunidade se reuniu para tomar alguma providência”.  

E, como sempre, a empresa de abastecimento envolvida divulga a mesma nota: que está no local efetuando vistoria e que em breve normaliza a distribuição de água. As promessas, muitas vezes não se cumpre, e o povo vai às ruas protestar em busca de seus direitos.

Falta água ao povo, mas não ao latifúndio

Em outubro de 1998, um artigo no portal da Fundação Joaquim Nabuco, intitulado “Água no semiárido nordestino: contradições nas ações de uso”, demonstra que existe no Nordeste um volume de água suficiente para acabar com a escassez.

“A intenção é mostrar que há água suficiente para abastecer a população, não há é igualdade na distribuição para os moradores. Segundo as Organizações das Nações Unidas (ONU), a situação mínima para não haver um quadro de escassez hídrica crônica é de 1.000 metros cúbicos/pessoa/ano, com isso podemos ver que apesar do Nordeste há décadas apresentar problemas com falta de água, não enfrenta só a escassez e sim a má distribuição da água existente para a população da região”, afirma o artigo. 

Muitos estudos já feitos apontam que há grande existência de volume de água na região, volume suficiente para dar maior e melhor qualidade de vida ao seu povo. Assim, fica-se claro que o maior problema enfrentado é uma política que beneficia os latifundiários e não os proletários e camponeses.

“O governo federal ainda assim insiste no discurso de que não há garantia hídrica no Nordeste, resultando com isso em propostas de grandes projetos de engenharias, como exemplo o polêmico projeto da transposição do rio São Francisco que, ao contrário do que muitos imaginam, visa prioritariamente garantir o uso das águas para o agronegócio (irrigação, uso industrial, criação de camarões entre outros)”, afirma o artigo. Assim, as políticas visam tirar a água do pequeno agricultor e beneficiar o latifundiário.

Um bom exemplo é a Ceará Still siderúrgica que desde 2016 atua no porto de Pecém, próximo a Fortaleza. O empreendimento foi projetado para demandar volumes de água equivalentes ao consumo de uma cidade de 90 mil de habitantes. Prova que a água está sendo utilizada para fins econômicos e não para beneficiar a população de modo geral. 

Moradores protestam após ficarem quatro meses sem água em Moreno/PE. Foto: Reprodução.

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