Ano inicia violento no MS: Índios resistem a dois ataques

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Casa de Reza foi incendiada no dia 1 de janeiro. Foto: Reprodução

Com o incentivo tácito dos atuais gerentes fascistas do velho Estado brasileiro (Jair Bolsonaro e militares), uma série de ações criminosas contra povos indígenas do Mato Grosso do Sul foram executadas neste início de 2020. Em Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante, a Casa de Reza do grupo guarani-kaiowá foi incendiada em 1 de janeiro e tiros foram disparados contra as casas dos índios na madrugada do dia 2.  Já no dia seguinte, 3 de janeiro, o ataque se deu no município de Dourados, com várias pessoas baleadas. Três indígenas foram feridos. Mas um dos pistoleiros (contratados por “donos” de fazendas) também teve que ser hospitalizado.

Apesar da verdeira guerra movida no MS contra as nações nativas, estas resistem bravamente e se recusam a deixar os territórios que sempre foram seus. O latifúndio e o agronegócio cobiçam essas terras e ficam desesperados com a teimosa valentia das tribos. Muitos aldeamentos antigos foram recuperados pelos kaiowás-guaranis, totalizando mais de 24 áreas ocupadas-reocupadas, superando os 8 Postos Indígenas que tinham sido impostos a eles. Nas últimas décadas, os guaranis do MS e seus aliados terenas têm dado grande ênfase às suas reivindicações fundiárias, dentro de “um processo de luta renhida”, informa o Instituto Socioambiental (ISA). Para decepção do latifúndio espoliador, os guaranis-kaiowás não têm medo de morrer. Para todos que quiserem ouvir, “eles dizem que dali não sairão, só mortos” – observou em 2016 a bióloga Maria da Conceição, que realizou um estudo entre eles. “Preferem morrer e ser enterrados ali na sua terra”, completou ela.

FOGO NO TEMPLO-ESCOLA

A Casa de Reza, chamada de “Opy” pelos guaranis, é um templo diferente. Ali se reza sim, porém também se estuda/aprende “a sabedoria de Nhanderu (Nosso Pai) sobre a natureza do mundo e das pessoas”, afirmam os índios. “Para nós é como se fosse a escola da vocês, a universidade de vocês”, costuma explicar o pajé Alcindo Moreira, centenário líder espiritual dos guaranis de Santa Catarina.

Pois bem. Em mais um episódio da ofensiva violenta e contínua praticada contra as comunidades guarani-kaiowá do MS, na madrugada desta quarta-feira, dia 1º de janeiro, uma Casa de Reza foi incendiada no aldeamento de Laranjeira Nhanderu, em Rio Brilhante. E mais: entre a noite e a madrugada da quinta-feira (2), homens não identificados atacaram o local a tiros e invadiram algumas casas (que estavam vazias porque os moradores tinham escapado).

Boatos passaram a circular vinculando os ataques aos próprios indígenas. Fontes policiais chegaram a afirmar que uma briga entre os guarani-kaiowá serviu de motivo ao incêndio e aos ataques posteriores. Mas lideranças indígenas não confirmaram as informações. Sequer que o incêndio tivesse contado com a participação de indígenas evangélicos neopentecostais. Uma outra liderança, pertencente à Aty Guasu, principal organização política dos kaiowás-guaranis, desmentiu os comentários: “Estão dizendo que tem índio envolvido com a queima.É notícia falsa, denúncia errada. Ninguém sabe quem foi (pois era noite e estava escuro).” Outra fonte complementa: “(Mas sim) vimos aqui foi capanga, que a gente chama de pistoleiro, (homem) não indígena. Isso machuca e revolta a gente porque vivemos todo dia o genocídio, a violência, o racismo e sempre procuram um jeito de dizer que isso é culpa da gente mesmo”. Outra fonte denunciou que “não é a primeira vez que incendeiam uma Casa de Reza nossa”.

Alguns índios, por outro lado, comemoraram a rapidez da comunidade em combater o fogo. Poderia ter sido pior. No entanto seguem alertas: “Hoje estamos preparados porque a gente acredita que (eles, os criminosos) vêm de novo. Querem acabar com a gente, matar. Entram nas casas, vasculham estrada. Estamos de guarda aqui...”, diz uma mulher indígena.

Os ataques ocorreram em uma área retomada pelos indígenas no mês de outubro de 2018, na ex-sede da Fazenda Santo Antônio da Nova Esperança, que já está sob a posse dos guarani- kaiowá desde 2007, quando diversas disputas de terra no local e na Justiça tiveram início.

COMBATE EM DOURADOS

Após provocadores terem derrubado uma barraca de acampados kaiowá-guarani na noite de quinta-feira, 2 de janeiro, os índios reagiram, deflagrando-se um conflito envolvendo cerca de 50 pessoas entre indígenas e pistoleiros pagos, com vários feridos à bala. Inclusive um pistoleiro foi hospitalizado.

A “batalha” prolongou-se por toda a sexta-feira, dia 3, com os índios em pé de guerra, dificultando a entrada de tropas policiais e bombeiros na área, localizada em Dourados, a 233 km da capital Campo Grande.   

Grupos indígenas vindos de várias partes de Mato Grosso do Sul estavam acampados nos arredores de lugares apossados por fazendas-sítios desde outubro de 2018. Os povos nativos afirmam que a zona é seu território ancestral, que o estão retomando, e que por isso o denominam de “Retomada Nhu Werá”.  

Tida como a ocorrência mais grave já registrada na área, os tiros da “milícia” dos fazendeiros deixou feridos os índios Modesto Fernandes, Gabriel Vasques e Paulo Gonçalves Rolim. Também ficou ferido o pistoleiro Wagner André Carvalho. Outros guaranis-kaiowás podem estar machucados, conforme imagens de redes sociais.

Foi noticiada por AND uma agressão anterior, na mesma área. Em  4 de novembro, o território de retomada indígena Nhu Werá (ou Verá) foi atacado por pistoleiros de grileiros que invadem territórios tradicionais no MS. O crime deixou um guarani-kaiowá ferido com balas de borracha no tórax, ombro e cabeça. Além disso, foram também queimados os barracos onde viviam os indígenas.

Os pistoleiros chegaram com tratores alvejando todos os presentes. Conforme anteriormente relatado à Procuradoria-Geral da República (PGR), o veículo usado pelos criminosos é um trator adaptado que “possui uma perfuração em uma das laterais, através da qual posicionam uma arma, e uma pick-up preta sem placa. Estes dois veículos se movimentam no interior da tekoha [aldeia], atirando em todas as direções. A defesa por parte dos indígenas foi realizada com fogos de artifício.

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), outro ataque a esse tekoha havia ocorrido há menos de 2 meses. A CPT relata que “um menor indígena de 14 anos de idade, de nome Romildo Martins Ramires, foi atingido por 18 tiros de borracha e tiros de grosso calibre, sendo em seguida atirado vivo a uma fogueira pelos seguranças do ruralista,onde permaneceu até o amanhecer, tendo 90% do corpo queimado’. O jovem não resistiu aos ferimentos e faleceu cinco dias depois”.

O Mato Grosso do Sul concentra grande parte da crescente violência impulsionada por latifundiários contra a luta pela terra e território no Brasil.Em resposta aos ataques, os guarani e kaiowá conclamam: Em memória de Romildo e todos os mártires do povo Guarani e Kaiowá: Avançar as retomadas e destruir o latifúndio!

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