Chuvas no sudeste: ‘desastre’ é desculpa para omissão do velho Estado

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Cidade de Porciúncula, noroeste do estado do Rio de Janeiro, totalmente alagada. Foto: Ascom Porciúncula

Fortes chuvas atingiram várias regiões dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, neste início de ano. Em Minas Gerais, estado mais afetado, já contam mais de 57 pessoas mortas e 18 desaparecidas, isso em apenas três dias de chuva (dia 24 a 27 de janeiro). Até o momento, 14 cidades mineiras tiveram mortes confirmadas, ocasionadas por afogamento, deslizamentos e soterramentos. 

Em Minas Gerais, a situação é drástica. A capital Belo Horizonte, com 13 mortes; Betim, com seis mortes e Ibirité com cinco são as que mais perderam trabalhadores para a situação caótica. O estado conta ainda com 196 cidades em situação de emergência, riscos de deslizamentos e soterramentos, sendo que pelo menos 8.157 pessoas estão desabrigadas e 38.703 estão desalojados até o momento, segundo a Defesa Civil.

Outro estado que está sendo bastante afetado pelas chuvas de início de ano é o Espírito Santo, onde nove pessoas já morreram e 10 mil estão fora de casa por perigo de deslizamentos e por conta de enchentes, desde o dia 17 de janeiro. Para piorar, o número de vítimas deve aumentar, pois 49 municípios estão em situação de alerta, o que representa 62% das cidades de todo o estado. 

As cidades mais atingidas do ES estão no sul do estado. Em Alegre, cidade com mais desabrigados, o número de pessoas fora de suas casas e que não têm para onde ir bate já 2.372. Uma parte dessa massa foi obrigada a sair de casa por conta do “alerta vermelho” emitido pelo governo do estado, baseado no risco da barragem Francisco Gros (mais conhecida como São João) se romper.

O governo federal reconheceu o decreto de calamidade pública, requisitado pelo governo do estado, para quatro cidades do estado. São elas: Iconha, Alfredo Chaves, Vargem Alta e Rio Novo do Sul. Somente nessas cidades, 22 comunidades estão isoladas, pontes e casas estão destruídas, e os moradores estão sem abastecimento de água, comidas, medicamentos e outros suprimentos.

Para piorar ainda mais a situação dos moradores do estado, a Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan) suspendeu o abastecimento de água nos municípios de Marechal Floriano, Domingos Martins e no distrito de Santa Isabel. Segundo a empresa, não há previsão para o restabelecimento do sistema.

No norte e noroeste do estado, há ainda um alerta para o aumento do nível do rio Guandu e do rio Doce, fato que pode inundar as cidades circunvizinhas aos rios. 

Até o momento já são, no total, 5.668 pessoas desalojadas e 3.246 estão desabrigadas em todo o ES, além de nove mortes e alertas máximos para alagamentos e deslizamentos de terra.

No Rio de Janeiro, a chuva que atingiu o norte e noroeste, no dia 24, já deixou oito cidades inundadas e 6 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Para piorar a situação, três rios que cortam a região transbordaram: os rios Carangola, Muriaé e Pombo. A cidade mais atingida até o momento é Porciúncula, no noroeste do estado, onde uma pessoa já morreu por conta das inundações. A prefeitura da cidade decretou situação de emergência. O município tem 340 pessoas desabrigadas e 4,5 mil desalojadas. Somente no bairro Operário, 340 casas ficaram com água até o teto depois do trasbordo do rio Carangola.

Em Itaperuna, outra cidade atingida, um jovem de 20 anos foi arrastado pela correnteza do rio Muriaé e está desaparecido. Na cidade, segundo a prefeitura, ocorreram ainda dez deslizamentos de terra. “Itaperuna normalmente quase todos os anos sofre com essas cheias. E, em 2019, a nossa cidade passou por uma grande obra que não foi concluída e causou vários transtornos no comércio, no trânsito da cidade. E essa obra foi feita justamente para acabar com os problemas”, relatou um morador durante entrevista ao monopólio G1.

Para aumentar a desgraça das massas, na cidade de Bom Jesus do Itabapoana, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio (Cedae) interrompeu o abastecimento, e os moradores já estão há quatro dias sem água.

‘Tragédias’ que deveriam ser evitadas

Já se tornou comum em nosso país a ocorrência de “tragédias” como estas, principalmente nos primeiros meses do ano e em estados do sudeste. Para os governadores, prefeitos e representantes do governo reacionário é muito cômodo colocar a culpa na natureza, ou falar que a chuva é algo divino.

Mas, na realidade, cientistas e estudiosos já vêm alertando e dando soluções há anos para acabar ou diminuir os efeitos da chuva. O que falta é vontade dos governos em resolver o problema, fato que escancara mais uma vez a total falta de preocupação do velho Estado para com o povo mais pobre.

Pegando como exemplo o estado do Espírito Santo, o Serviço Geológico do Brasil, emite desde 2011 alertas sobre áreas de riscos. Nos relatórios apresentados os cientistas apontam os principais problemas nas áreas de riscos e as principais soluções a serem tomadas para evitar “desastres”.

Sobre o assunto, o professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pós-doutor em Recursos Hídricos, Antônio Sérgio Ferreira Mendonça, acredita que os “desastres” já eram uma tragédia anunciada, e que vai continuar ocorrendo se o velho Estado não tomar medidas sérias e definitivas.

Segundo o professor, vários municípios tem um Plano Diretor de Drenagem Urbana que, se colocados em prática, evitariam muito os danos causados. No entanto, os documentos não são executados e são feitos apenas para garantir que as cidades consigam verbas do governo federal.

Segundo Antônio Sérgio, o velho Estado poderia facilmente resolver o problema e acabar com o sofrimento anual do povo se adotasse medidas estruturais como diques, galerias de águas fluviais, sistema de bombeamento de águas e outros recursos. E, mais importante: resolvendo o problema da moradia, para que as pessoas não precisem mais construírem suas casas em áreas de risco.

Corpo de jovem de 17 anos foi encontrado no Beco do Fagundes, no bairro Jardim Teresópolis, em Betim. Foto: Danilo Girundi/TV Globo

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