Chile: Após protestos estudantis, vestibular é suspenso em 64 lugares

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Estudantes Chilenos protestaram contra o vestibular, e impediram que as provas ocorressem em 64 lugares do país. Foto: EFE

Protestos estudantis massivos afetaram a realização da Prova de Seleção Universitária (PSU) no Chile em 64 lugares, durante os dias 27 e 28 de janeiro. Os estudantes, revoltados contra a forma de seleção (onde apenas os estudantes mais ricos, que puderam pagar por instituições de ensino privadas a vida inteira, conseguem ingressar ao ensino superior), construíram barricadas próximas aos locais da prova, bloquearam o trânsito e protestaram inclusive dentro dos estabelecimentos da prova.

Diante da incansável luta da juventude chilena por melhorias nas condições de vida e pelo fim do sistema de exploração e opressão, que acontecem desde outubro de 2019, com a certeza de que protestos aconteceriam, o velho Estado chileno formulou um protocolo que permitiria aos carabineros (Polícia Militar chilena) agir dentro das instalações de aplicação do PSU em caso de “crime flagrante ou desordem pública”. Durante o acontecimento da prova 81 manifestantes foram detidos “por delitos de desordem, danos e usurpação não violenta”.

Desde o início do dia 27, instituições de ensino em todo o país foram tomadas por estudantes determinados a protestar contra a realização do vestibular, inclusive com a queima de provas.

Em Puente Alto, cerca de 150 alunos protestaram à noite em frente ao colégio Arzobispo Crescente Errázuriz, local onde antes acontecera a aplicação do PSU. Os estudantes enfrentaram à truculência policial com pedras e incendiaram barricadas.

Juventude Chilena não se intimidou diante a pesada repressão policial. Foto: Banco de Dados AND

A educação no Chile

O ensino superior em muitas universidades "públicas" no Chile só começou a ser gratuito há dois anos atrás, em 2018. Isso acontece pois, em 1981, o fascista Augusto Pinochet havia privatizado o ensino superior em todo o Chile: as reformas implementadas desmembraram as antigas instituições públicas em várias faculdades, e permitiram ainda a formação de novas universidades privadas, que se proliferaram pelo país. 

Entretanto, apesar da lei de gratuidade daquele ano, as dívidas milionárias de estudantes e famílias inteiras para com as então faculdades privadas do Chile, não foram suspendidas.

Em 2015, um estudo apresentado no Fórum Econômico Mundial (FEM) mostrou que a educação superior no Chile é a 4.ª mais cara do mundo, quando tomada proporcionalmente aos salários das famílias. O cálculo do FEM mostrava que, em média, 73% da renda familiar acabava sendo destinada a bancar os custos de matrícula e manutenção dos estudantes – um número que superava até mesmo o de países de primeiro mundo conhecidos por suas altas taxas de ensino, como os Estados Unidos (onde a proporção ficou em 53%) e o Reino Unido (42%). “Isso significa que as famílias chilenas precisam se paralisar financeiramente para pagar as taxas das universidades”, afirmava o estudo. 

Essa situação criou muitos casos como o de Guillermo e Gunther, jovens entrevistados em 2019 pelo monopólio de imprensa AFP, que deviam milhões de pesos em mensalidades da faculdade: Guillermo Jobia, um advogado de 24 anos recentemente formado, disse à AFP que pagou para estudar o equivalente a um imóvel, sendo estagiário.  “Estou com dívidas de até 20 milhões de pesos (cerca de 27 mil dólares) e acho que não vou terminar de pagar”, declara.

A maioria dos jovens chilenos trabalha durante a graduação, mas em empregos precários e mal remunerados, em um país onde o salário mínimo é de aproximadamente 420 dólares.

Gunther Birchmeier, 30 anos e que trabalhava como garçom à noite e nos fins de semana, não pôde juntar os 550 dólares por mês que seus estudos custavam. “A universidade me bloqueou e eu não pude continuar estudando”.

Ele pagou os empréstimos que recebeu, mas ainda lhe restavam outros. “O problema são os juros porque uma coisa é o que eles emprestam e a outra são os juros. Me emprestaram 10 milhões de pesos (cerca de 13 mil dólares) e estou pagando uns 20 milhões, 100% a mais”, calcula. Empregado em uma empresa de segurança cibernética, Gunther economiza tudo o que pode. “Estou de mãos marradas. Se eu for demitido, não vou ter como pagar”.

De acordo com a mídia do monopólio Gazeta do Povo, a privatização das universidades não significou uma melhora na educação, pois apesar de ser conhecido por algumas instituições de excelência, no longo prazo o sistema implementado por Pinochet não chegou a acrescentar novas universidades entre as melhores. Hoje, segundo o QS World University Rankings, uma das classificações mais influentes do ensino superior no mundo, apenas três instituições chilenas estão posicionadas entre as 500 melhores do planeta – a Universidade do Chile e a Universidade de Santiago do Chile, públicas mas atualmente cobrando taxas de matrículas, e a Universidade Católica de Santiago, que sempre foi particular. As três já eram consideradas as instituições chilenas mais prestigiosas antes da ditadura. No mesmo ranking, aparecem cinco universidades argentinas, duas mexicanas, quatro colombianas e quatro brasileiras (USP, Unicamp, UFRJ e UFRGS). 

Dessa forma, os protestos estudantis pela volta da gratuidade começaram em 2006, e se tornaram uma constante com ocupação de liceus e universidades em 2011, 2012 e 2015. Marchas de até meio milhão de pessoas nas ruas de Santiago fizeram com que o governo, historicamente reticente em reverter a política educacional da ditadura, passasse a discutir uma revisão do modelo, o que levou à nova lei. 

Outro aspecto que ajudou a fortalecer a luta pela volta da gratuidade no ensino foi o escândalo das universidades com fins lucrativos no Chile. Embora o lucro nas instituições superiores seja proibido por uma lei de 1990, a prática é encontrada em várias faculdades particulares. Na última década, três universidades da Região Metropolitana de Santiago atraíram os holofotes quando se descobriu que seu faturamento e matrículas cresceram de forma continuada anualmente, enquanto o número de professores, livros na biblioteca e salas de aula permaneceram estagnados ou, até mesmo, diminuíram.

Entretanto, mesmo agora, a disparidade no acesso às melhores universidades fica escancarada quando se comparam os resultados na Prova de Seleção Universitária (PSU), exame unificado chileno similar ao Enem, cuja pontuação é considerada pelas instituições no momento da matrícula. Mario Waissbluth, presidente da Fundação Educação 2020, compilou os dados no livro Se Acabó el Recreo: La Desigualdade en la Educación: 43% dos estudantes provenientes de famílias com renda mensal média inferior a 550 dólares obtinham as notas mais baixas da prova (menos de 450 pontos), número que baixava para apenas 4,1% dos estudantes vindos de família com renda superior a 2,5 mil dólares. Quando se consideravam as notas mais altas (acima de 700 pontos), a proporção se invertia: apenas 0,2% dos mais pobres alcançavam as notas altas, contra 19,3% dos mais ricos"

A jornalista Paulina Gomes, de 34 anos, também na entrevista com a AFP disse que, mesmo ainda não tendo conseguido quitar sua própria dívida do ensino superior, tentaria dar um jeito de colocar seu filho de 10 anos em uma escola privada, pois “no Chile, a educação pública é horrível: 40 alunos por turma com apenas um professor.”, diz a mãe, apreensiva.

Marcha de Estudantes no Chile em 14 de Julho de 2011. Foto: Banco de Dados AND

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