AM: Cidade das Luzes e Monte Horebe, retratos da luta dos trabalhadores pelo direito à moradia na Amazônia

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No dia 29 de fevereiro cerca de mil de trabalhadores interditaram parcialmente a avenida Torquato Tapajós, uma das principais vias de Manaus. O ato ocorreu devido à reintegração de posse da ocupação Monte Horebe, uma das maiores da cidade, despejo sob a justificativa de que os moradores interferiram nas últimas ações da polícia contra o tráfico de entorpecentes.

O trabalhador Samuel Tavares relata que o ato é um recado ao velho Estado que os trabalhadores irão lutar pelo seu direito à moradia. “Conseguimos mobilizar cerca de oito ônibus para trazer as pessoas, mas outras vieram para a manifestação a pé. No total, reunimos aproximadamente 2 mil pessoas fechando as duas vias avenida Torquato tapajós. Mostramos a força dos moradores, do povo do Monte Horebe. O povo do Monte Horebe não vai desistir e neste domingo iremos protestar de novo. Só o que queremos é a posse da terra”.

Na manhã do dia 2 de março cerca de 700 policiais atuaram no despejo da ocupação Monte Horebe, com montagem de barreiras em pontos estratégicos da comunidade. Logo após a chegada das forças de repressão do velho Estado várias casas foram demolidas.

A trabalhadora Suzilane Charles, moradora da comunidade há cerca de seis anos, denuncia que esse despejo é um absurdo contra os trabalhadores que lutam muito pelo direito à moradia. “É um absurdo isso que está acontecendo. Por que não contiveram a reserva antes? E agora querem tirar o povo das suas moradias. Os moradores do Viver Melhor são contra tudo isso. Estamos cansados de ver essas pessoas batalhando”.

Outra trabalhadora, que preferiu não se identificar, relata o grande sacrifício que vinha fazendo para construir sua casa e agora perdeu o pouco que tinha. “Há cinco anos, eu moro com os meus sete filhos e tudo foi construído com muito sacrifício. A máquina de lavar velha foi virando lixo, o guarda-roupa servia como porta e, assim, nós fomos vivendo. Se me tirarem daqui, nós não temos para onde ir”.

Enquanto a trabalhadora, Jessica Geraldo, questiona para onde todas famílias irão. “Onde eles vão colocar esse povo todo? Eu não sairei de perto da minha casa senão eles vão derrubar. São anos construindo. A rescisão do meu emprego investi tudo aqui”, protesta.

A trabalhadora Kátia, denuncia que o velho Estado só fez promessas. “Vieram aqui e disseram que iriam urbanizar o Monte Horebe e não o fizeram, foi só promessa. Não é justo os moradores saírem. Eu estou sendo proibida de entrar para retirar as minhas coisas. Vieram na covardia, disseram que fariam cadastro e não foi feito. Eles acham que todos que moram aqui são traficantes, não estamos brincando de ‘polícia e ladrão’ aqui. É uma covardia”.

Outro trabalhador denuncia que várias casas foram destruídas e a polícia tem usado até armas de choque. “Quebraram todas as casas ali da entrada. Estão usando arma de choque e jogando pimenta na gente. Não pode fazer isso. Ainda tem muitos moradores lá dentro e também crianças”.

Já a trabalhadora Simone Soares denuncia que foi impedida até mesmo de pegar seus documentos e, além disso, os caminhões enviados não conseguiram levar os objetos de todas as famílias. “A única coisa que peço é que eu possa tirar meus móveis, meu botijão de gás... Nem meu RG estão deixando eu retirar. Foi dado um prazo para fazermos isso. Veio um caminhão retirar os móveis dos moradores. Só que os caminhões não deram conta da quantidade de moradores que habitam aqui. Nem todo mundo tem dinheiro para pagar frete”.

Enquanto a trabalhadora Ilza Pereira, de 67 anos, relata que mora na comunidade desde o início e mesmo trabalhando há muitos anos não consegue ter sua casa. “Moro aqui desde o início do Monte Horebe. O meu maior sonho é ter a casa própria, um lugar que posso chamar de meu. É o meu único desejo”.

Entendendo o histórico

Para falar da ocupação Monte Horebe é preciso falar da história recente das ocupações.

Há cerca de 5 anos o comitê de apoio ao AND de Manaus acompanha o processo de maior “reintegração de posse” da última década e uma das maiores da história de Manaus. O empresário Helio Di Carli, um dos maiores grileiros de terras públicas da Amazônia, solicitava reintegração de posse da comunidade Cidade das Luzes, localizada no bairro do Tarumã, zona norte de Manaus. 

Na época moravam cerca de 5 mil famílias, formando assim a maior ocupação de Manaus e uma das maiores da Amazônia. Em sua grande maioria as famílias eram oriundas do interior do Amazonas e Pará. Por conta das péssimas condições de vida oriundas das relações semifeudais no interior da Amazônia, perpetradas pelo latifúndio em conjunto com o velho Estado, as famílias buscavam em Manaus melhorias de vida. Sem acesso à moradia, elas iniciaram a ocupação.

As “reintegrações de posse” são fatos comuns na Amazônia e ocorrem fundamentalmente pela associação de fatores: latifúndio, ausência de regularização fundiária e conflitos pela posse da terra; porém a Cidade das Luzes se torna referência devido diversos fatores, primeiro a sua extensão territorial ideal para a especulação imobiliária. O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta as cidades da Amazônia como as de maiores déficit de moradia. 

O segundo e mais importante é a violência que acompanhou o antes, o durante e o depois do despejo. Iniciou-se uma verdadeira “Blitzkrieg” em torno da comunidade, onde o velho Estado, por meio de suas forças de repressão, cercou a ocupação semanas antes da data para execução da expulsão, fustigando e monitorando saídas e entradas da comunidade. Os trabalhadores relataram a ocorrência de diversos casos de tortura nesse período, todos abafados pela imprensa local.

O terceiro é a realização de uma intensa campanha “ecológica” em defesa da preservação florestal da ocupação em conjunto com outra campanha de ação urgente e violenta do Estado, supostamente contra o tráfico de entorpecentes na comunidade. Essas campanhas foram realizadas pelos monopólios locais da imprensa, demonstrando assim sua posição contrária aos interesses dos trabalhadores. 

No dia do despejo o velho Estado pôs em movimento uma verdadeira operação de guerra cercando e proibindo a saída da área de cerco, utilizando além dos convencionais tratores para derrubada das casas e a força policial para dispersar os que resistiam com tiros de bala de borracha e bombas de gás e até mesmo uso de helicóptero que realizava voos rasantes disparando tiros de bala de borracha a esmo. Após o final da ação o cenário era semelhante ao de qualquer país em guerra.

Mesmo após a operação de guerra realizada contra os trabalhadores na ocupação os monopólios locais de imprensa mantiveram intenso ataque, criminalizando ainda mais os moradores expulsos chamando de “membros de facção” e tratando de maneira semelhante a criminosos de guerra.

Cerca de um ano e meio após a operação de guerra contra a comunidade Cidade das Luzes é formada uma nova ocupação, a Comunidade Monte Horebe, em um local próximo, ainda no mesmo bairro, situada no triangular que envolve de um lado o conjunto Nova Cidade, do outro o conjunto Viver Melhor e, por último, a Reserva Adolpho Ducke, atualmente a maior área com mata nativa de Manaus.

Aproximadamente mil famílias residem na comunidade, muitas delas oriundas da Cidade das Luzes. Recentemente a disputa entre as forças paramilitares (facções Família do Norte - FDN - e Comando Vermelho  - CV) e o velho Estado se intensificaram. Nos últimos seis meses o velho Estado deu início à “guerra ao tráfico” na comunidade tendo como resultado efetivo a transferência de controle da rota de tráfico de entorpecentes da FDN para o CV.

As práticas realizadas pelo velho Estado contra os trabalhadores na Cidade das Luzes foram aprimoradas no Monte Horebe. Foram realizados diversos cercos pelas polícias, desta vez com justificativa de atingir “somente as facções”. Os monopólio da imprensa local também atuaram de maneira muito mais violenta do que antes, chegando a atingir quase diariamente a fundo a moral das pessoas que ali residem.

O vice-governador Carlos Almeida Filho, que anteriormente era um dos principais defensores públicos contra a reintegração de posse na Cidade das Luzes, agora afirma em coletiva: “Nós não somos compactuadores com ocupações irregulares. As invasões recentes não são objetos de regularização”.

Conforme já noticiado pelo AND, o fracasso da mentirosa “guerra às drogas” velho Estado justifica o genocídio do povo no Rio de Janeiro, sendo que os verdadeiros motivos da “guerra ao tráfico” tomado a cabo pelo velho Estado são, em essência, de realizar uma guerra aos trabalhadores. Esta “reintegração de posse” ocorre semelhantemente à operação de guerra na Cidade das Luzes por meio dessas operações e por outras semelhantes em todo o Brasil.

Trabalhadores montam barricada na frente da ocupação. Foto Redes Sociais.

Moradores resistiram como puderam ao despejo praticado pela PM. Foto: Redes Sociais.

Diversas casas foram destruídas pelos militares. Foto: Redes Sociais

Aproximadamente mil famílias moram na comunidade. Foto: Leandro Guedes/ Rede Amazônica 

Cerca de 700 policiais participaram da operação de despejo. Foto: Redes Sociais.

Retroescavadeira destrói as casas dos trabalhadores. Foto: Carlos Eduardo Pessoa/ Rede Amazônica

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